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04/08/2021 | domtotal.com

Libaneses inconformados com falta de respostas após um ano da explosão devastadora

País vive impasse político e econômico e afetados ameaçam: 'Cuidado com a nossa raiva'

A explosão devastou a região portuária de Beirute, deixando mais de 200 mortos
A explosão devastou a região portuária de Beirute, deixando mais de 200 mortos (AFP)

Atualizado ás 17h20

Há um ano o Líbano era abalado por uma devastadora explosão, que causou impacto na capital, Beirute, e teve consequências políticas, econômicas e sociais que ainda hoje são vividas. O sentimento é um misto de tristeza pela perda de vida e de indignação pela impunidade em torno de seu pior desastre em tempos de paz.

Na tarde de 4 de agosto de 2020, uma carga de fertilizante de nitrato de amônio armazenado inadequadamente explodiu no porto de Beirute, transformando grande parte da cidade em uma zona de guerra. Pelo menos 214 pessoas morreram na tragédia, uma das maiores explosões não nucleares da história, que destruiu bairros inteiros da capital libanesa.

Parentes das vítimas e sobreviventes organizaram vigílias, orações, cerimônias e marchas para homenagear aqueles que morreram na explosão, cujas ondas expansivas foram sentidas até mesmo no Chipre.

Trabalhadores portuários foram soterrados por silos de grãos destruídos, enquanto bombeiros que lutavam contra um incêndio ocorrido antes da explosão morreram queimados. Transeuntes morreram esmagados, e pessoas atingidas por estilhaços e cacos de vidro dispersados pelo impacto da deflagração sangraram até a morte em suas casas.

A data da tragédia foi declarada dia de luto nacional, mas a dor se transformou em raiva, diante da flagrante impunidade. A impopular classe política usou sua imunidade para evitar os indiciamentos e fez todo possível para impedir o trabalho do juiz que investiga o desastre.

Na segunda-feira (2), parentes das vítimas pediram às autoridades que levantassem a imunidade daqueles envolvidos no caso, alertando que estão dispostas a "quebrar ossos" nos protestos que tomarão as ruas. "As manifestações pacíficas acabaram. Cuidado com a nossa raiva", alertou Ibrahim Hoteit, porta-voz das famílias.

Obstrução 'vergonhosa'

O Líbano já estava à beira do colapso antes da explosão, com uma economia deprimida, um setor de saúde saturado pela pandemia e um futuro obscurecido pela fuga de cérebros. "Pensamos que havíamos chegado ao fundo do poço. Como a situação poderia piorar?", disse Rima Rantisi, professora da Universidade Americana de Beirute.

A população acusa os dirigentes - muitos deles no poder há décadas - de corrupção e incompetência e, sobretudo, de deixar o país afundar. Um ano após a tragédia, o país ainda não tem um governo estável que o tire da pior crise socioeconômica que já vivenciou. Bilhões em ajuda do exterior continuam bloqueados por falta de reformas.

A população atribui a tragédia no hangar número 12 à negligência e à corrupção das autoridades, que permitiram o armazenamento de materiais perigosos por anos perto de bairros residenciais. "O que ficou claro para mim naquele dia é que aqueles que governam este país são criminosos e assassinos", disse Rima Rantisi. "Depois da explosão, entendemos perfeitamente: enquanto eles permanecerem no poder, nada se resolverá."

O primeiro juiz encarregado do dossiê da explosão, Fadi Sawan, foi afastado em fevereiro após causar um alvoroço político ao acusar o chefe do governo demissionário, Hassan Diab, e três ex-ministros de negligência. As tentativas de seu sucessor, Tarek Bitar, de fazer o mesmo se chocaram com novas manobras para evitá-lo.

A organização Anistia Internacional acusou as autoridades libanesas de fazerem uma obstrução "vergonhosa" da Justiça, quanto a ONG Human Rights Watch se referiu a uma "negligência criminosa" por parte do governo.

Relatórios da Inteligência libanesa e estrangeira revelam que centenas de toneladas de nitrato de amônio foram armazenadas nos mesmos armazéns que toneladas de fogos de artifício e de cabos de pavio, entre outros materiais perigosos.

Esses documentos sugerem que o incêndio começou como resultado de trabalhos de soldagem no local. Nenhuma investigação aprofundada foi conduzida, porém, para verificar essas hipóteses, esclarecer como esses materiais chegaram aos depósitos e por que permaneceram no local por anos. Em paralelo, os legisladores libaneses não conseguiram chegar a um acordo sobre a formação de um governo, o que causou uma situação de vazio de poder.

Estado falido

Para os libaneses, a explosão de 4 de agosto foi a gota d'água. Eles já estavam decepcionados com a falta de resultados dos protestos de outubro de 2019, quando a ira popular irrompeu contra a elite governante do país. As manifestações levaram ao pedido de renúncia de Saad Hariri, então primeiro-ministro, que entregou o cargo para apaziguar o ambiente interno. Em seu lugar assumiu o comando do Executivo Hassan Diab, que era o premiê quando houve a explosão.

Todo o gabinete de Diab entregou o cargo após a tragédia em Beirute, o que levou ao cargo Mustapha Adib, que era embaixador do Líbano na Alemanha. A ascenção de Adib foi endossada por potências ocidentais - e mais diretamente pelo presidente francês, Emmanuel Macron -, mas o diplomata deixou o cargo no mês seguinte, alegando dificuldade para formar o novo governo.

Com isso, o presidente libanês, Michel Aoun, anunciou a volta da Saad Hariri ao cargo, após conversa com parlamentares. Hariri se manteve no poder por quase um ano, mas renunciou no último dia 15, em um novo aprofundamento da crise política do país.

Atualmente, a economia vai de mal a pior, com o colapso da libra libanesa e restrições bancárias sem precedentes causando longas filas para se conseguir dinheiro. Filas também são formadas em frente aos postos de gasolina e os moradores sofrem cortes de energia, com blecautes que afetam até o aeroporto internacional de Beirute, onde expatriados libaneses chegam com malas carregadas de remédios impossíveis de serem encontrados no país. Hospitais alertam para uma catástrofe de saúde devido à falta de energia.

O bairro de Mar Mikhael, na região portuária de Beirute, recuperou uma aparência de normalidade, com lojas e bares abertos. Mas as autoridades pouco ou nada fizeram para ajudar as vítimas e reconstruir uma cidade devastada. O fardo da limpeza dos escombros recaiu sobre um exército de jovens voluntários e ONGs. Apesar das obras de reconstrução e reparo, a catástrofe deixou cicatrizes nos bairros mais atingidos, que abrigam museus galerias de arte e joias históricas.

"Todas as pessoas que conheço têm problemas de sono e lutam diariamente, agarrando-se ao que lhes resta", disse Rima Rantisi. "Todos os dias acordamos com algo pior do que no dia anterior." O Líbano, antes considerado "a Suíça do Oriente Médio", tornou-se um Estado falido. E quem viveu uma guerra civil diz que a crise atual é pior.

Ações e ajuda

Ex-potência colonial do Líbano e fonte de ajuda ao país, a França exigiu a formação e instalação de um governo até meados de setembro. Apesar da falta de acordo a respeito do governo, Paris buscará arrecadar US$ 350 milhões em ajuda humanitária de emergência para o Líbano em uma reunião de doadores, realizada nesta quarta, com apoio da ONU.

O presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que seu país contribuirá com cerca de 100 milhões de euros (US$ 120 milhões) em 12 meses e enviará 500 mil doses de vacina anticovid-19. "Os líderes libaneses são obrigados, diante de sua população, a fornecer verdade e transparência" sobre essa catástrofe, disse Macron, que também os culpou pela incapacidade de formar um governo. "Uma falha histórica e moral", criticou.

Também nesta quarta, o papa Francisco fez um apelo à comunidade internacional "para que ajude o Líbano a empreender um caminho de ressurreição, com gestos concretos, não só de palavras", durante sua primeira audiência geral após a operação a que foi submetido em julho.

'Dirigido por loucos'

O artista Bernard Hage relata esse declínio em quadrinhos publicados no jornal independente L'Orient-Le Jour. "Imagine um hospital psiquiátrico mal equipado dirigido por loucos", escreveu Hage recentemente. "Eu realmente vejo uma distopia, é a única palavra que consigo pensar para descrever o Líbano. É o seu pior pesadelo e você não tem controle sobre ele."

Mas, como muitos ativistas, ele não perdeu as esperanças. A solidariedade da população lembrou que o pulso da "revolução" de 2019 ainda estava batendo. Alguns candidatos antigovernamentais chegam a sonhar com um avanço nas eleições legislativas marcadas para 2022.

Bernard Hage aposta acima de tudo em uma investigação para finalmente ver um líder na prisão. "Se essa explosão for capaz de derrubar pelo menos um, pode ser o início de uma série. Seria o primeiro efeito dominó a derrubar o sistema. A brecha no muro" afirmou.


AFP/AgenciaEstado/Dom Total



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