Meio Ambiente

09/08/2021 | domtotal.com

Aquecimento global acelera antes do previsto com consequências 'sem precedentes'

Relatório da ONU aponta que planeta vai esquentar 1,5 grau até 2030, antes do previsto em 2018. Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas apresenta cinco cenários de emissões

O primeiro relatório de avaliação do IPPC da ONU em sete anos, aprovado na sexta-feira por 195 países, indica que o aquecimento global é pior e mais rápido do que se temia
O primeiro relatório de avaliação do IPPC da ONU em sete anos, aprovado na sexta-feira por 195 países, indica que o aquecimento global é pior e mais rápido do que se temia (Amos Gumulira/AFP)

O aquecimento global é pior e mais rápido do que se temia. Por volta de 2030, dez anos antes do que se estimava, poderá alcançar o limite de 1,5 grau, com riscos de desastres "sem precedentes" para a humanidade, já sacudida por ondas de calor e inundações.

A menos de três meses da cúpula do clima COP26 em Glasgow (Reino Unido), os especialistas climáticos das Nações Unidas (IPCC) responsabilizaram o ser humano por estas alterações e advertiram que não há outra opção além de reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa.

O primeiro relatório de avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) em sete anos, aprovado na sexta-feira por 195 países, analisa cinco cenários de emissões, do mais otimista ao mais pessimista. Em todos eles, a temperatura do planeta alcançaria o limite de mais 1,5 grau em relação à era pré-industrial por volta de 2030, dez anos antes do previsto nas estimativas de 2018.

O IPCC chegou ao novo relatório a partir de análises durante três anos de 14 mil estudos científicos com revisões pelos pares. Trata-se da primeira grande avaliação internacional da pesquisa sobre mudanças climáticas desde 2013, no primeiro dos quatro relatórios do IPCC esperados para os próximos 15 meses.

"Já sabemos há décadas que o mundo está esquentando, mas o relatório nos diz que mudanças recentes no clima são disseminadas, rápidas e se intensificam, de maneira sem precedentes em milhares de anos", afirmou Ko Barrett, vice-presidente do painel. "Além disso, é incontestável que atividades mudanças causam mudanças climáticas."

Antes de 2050, este limite seria superado, chegando inclusive a mais 2 graus se as emissões não forem reduzidas drasticamente. Isto representaria o fracasso do Acordo de Paris, que pretendia limitar o aquecimento global abaixo de mais 2 graus ou, se possível, de mais 1,5 grau.

'A primeira salva'

O planeta já alcançou mais 1,1 grau e começa a sofrer as consequências: incêndios que arrasam os Estados Unidos, a Grécia e a Turquia, chuvas diluvianas que inundam Alemanha ou China, termômetros beirando os 50 graus no Canadá. "Se acham que isto é grave, lembrem que o que vemos agora é só a primeira salva", diz Kristina Dahl, da organização União de Cientistas Preocupados (UCS).

Um acordo global de 2015 em Paris previa que os países adotassem medidas para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 grau, mas os esforços têm sido insuficientes. O relatório desta segunda-feira projeta que, sem reduções rápidas nas emissões, as temperaturas globais podem subir mais de 1,5 grau Celsius ao longo dos próximos 20 anos.

Mesmo limitando o aquecimento a 1,5 grau, ondas de calor, inundações e outros eventos extremos aumentarão de forma "sem precedentes" em sua magnitude, frequência, localização ou época do ano em que ocorrem, adverte o IPCC.

"Este relatório deveria causar arrepios em quem o lesse (...) Mostra onde estamos e aonde vamos com as mudanças climáticas: para um buraco que continuamos cavando", avalia o climatologista Dave Reay.

"Estabilizar o clima demandará uma redução forte, rápida e sustentada das emissões de gases de efeito estufa para alcançar a neutralidade de carbono", insiste Panmao Zhai, copresidente do grupo de especialistas que elaborou a primeira parte desta avaliação do IPCC.

A segunda, prevista para fevereiro de 2022, mostrará o impacto destas mudanças e como a vida na Terra será transformada irremediavelmente em 30 anos, inclusive menos, segundo uma versão preliminar.

A terceira parte abordará as soluções possíveis e é aguardada para março. Mas o caminho a seguir é conhecido de sobra: impulsionar a transição para uma economia descarbonizada. "Este relatório deve pôr fim ao carvão e às energias fósseis antes que destruam nosso planeta", reivindicou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Leia também:

Objetivo da COP26

Diante da necessidade de reduzir à metade as emissões antes de 2030 para cumprir com a meta de mais 1,5 grau, todos os olhares se voltam para a cúpula de líderes mundiais de novembro em Glasgow. "Não há tempo a perder, nem lugar para desculpas", insistiu Guterres.

Por enquanto, só metade dos governos revisaram suas metas iniciais de redução de emissões. Os compromissos adotados após o Acordo de Paris de 2015 levariam a um aumento da temperatura do planeta de mais 3 graus. Isso se fossem respeitados, porque no ritmo atual, o mundo esquentaria 4 graus ou 5 graus.

Entre estas projeções sombrias, o IPCC traz um resquício de esperança. No melhor cenário, o aquecimento poderia voltar ao limite de 1,5 grau se as emissões forem reduzidas drasticamente e se for absorvido mais CO2 do que o emitido.

Mas as técnicas que permitem recuperar em larga escala o CO2 na atmosfera ainda estão sendo estudadas, aponta o IPCC.

Consequências irreversíveis

O relatório indica que algumas consequências já são "irreversíveis". O degelo dos polos fará com que o nível dos oceanos continue aumentando durante "séculos ou milênios".

O mar, que já subiu 20 centímetros desde 1900, ainda poderia aumentar mais meio metro até 2100 mesmo que o aquecimento seja mantido a mais 2 graus. "Parece distante, mas milhões de crianças já nascidas ainda viverão no século 22", destaca Jonathan Bamber, autor do relatório.

Pela primeira vez, o IPCC não descarta a chegada de "pontos de inflexão", eventos irreversíveis pouco prováveis, mas de impacto dramático, como o degelo da calota de gelo antártica ou a morte da floresta amazônica.

Mas, afirmam cientistas e ativistas, não são motivos para jogar a toalha, pelo contrário, porque cada fração de grau conta. "Não estamos condenados ao fracasso", assegura Friederike Otto, uma das autoras. "Não deixaremos que este relatório fique na estante (...) Vamos levá-lo conosco aos tribunais", adverte Kaisa Kosonen, do Greenpeace.


AFP/Agência Estado/Dom Total



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outras Notícias