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10/08/2021 | domtotal.com

Fake news no tempo do imperador

Globo volta ao passado com novela inédita

Grande elenco de 'Nos tempos do imperador' e boa reconstituição de época
Grande elenco de 'Nos tempos do imperador' e boa reconstituição de época (oão Miguel Júnior/Globo)

Alexis Parrot*

Em fevereiro de 2020 a Globo anunciava sua nova novela das seis, com direito a teaser e todas as pompas de praxe. Porém, o coronavírus explodiu, impedindo a continuidade das gravações por questões sanitárias e, consequentemente, adiando sine die a estreia do folhetim.

Ontem o angu desencaroçou e foi ao ar o capítulo inaugural de Nos tempos do imperador – ficcionalização do Brasil do Segundo Reinado, com Selton Mello à frente do elenco na pele de Dom Pedro II. Se, por um lado, a estreia marca a retomada (mínima que seja) de uma vida mais parecida com a que tínhamos antes da Covid, por outro, representa aparente contrassenso ou gigantesca ironia..

Agora, quando conseguimos finalmente respirar com mais tranquilidade, com a esperança da vacina nos permitindo voltar a pensar no futuro, vem a televisão e nos remete na direção oposta. Enquanto em Brasília os poderes esculhambam a Constituição, a primeira novela global inédita em um ano e meio volta ao século 19 para se debruçar sobre o momento em que se tentava forjar uma identidade nacional.

A julgar pela primeira cena deste primeiro capítulo (um flash do final da vida do imperador deposto no exílio em Paris), a novela chegará ao golpe militar que instaurou a República no país. O revival da efeméride se anuncia justamente quando o atual presidente ameaça outro golpe, pretensamente respaldado pelas Forças Armadas – cujas tropas são chamadas por ele carinhosa e perigosamente de "meu exército".

Homem mais afeito à ciência e às artes, Dom Pedro, por sua vez, só se ocupou de fato com quartéis e soldados com o advento da Guerra do Paraguai. Seu desinteresse pelo assunto gerava irritação na caserna e, para indispô-lo ainda mais com os comandantes, espalhou-se que teria dito sobre os militares: "são todos uns assassinos legais" (como conta Lilia Moritz Schwarcz no primoroso livro As barbas do imperador).

Embora tenhamos visto bem pouco de Dom Pedro nesta largada, é perceptível o tratamento de herói da Pátria que será dado ao personagem, fazendo jus ao Dom Pedro I vivido por Tarcísio Meira no filme clássico-trash Independência ou morte, de 1972 – que ainda hoje programam para a Sessão da Tarde no sete de setembro. Juntando filme e novela, são mesmo pai e filho, Tarcisão e Tarcisinho, unidos no ufanismo cafona que estamos fadados a confundir com o sentimento de patriotismo.    

Se não tomarem cuidado, Nos tempos do imperador acaba virando uma propaganda de mão beijada para o anacrônico movimento monarquista brasileiro, que vai gastar horas e horas do dia compartilhando cenas escolhidas a dedo no youtube para exaltar a família real.

Em encontro que nunca aconteceu de fato, para rebater as ameaças de Solano López (ao que tudo indica o grande vilão da trama), o monarca me sai com esta: "o Brasil nunca se renderá a um ditador. Os filhos deste país cuidarão dele para sempre. Podem até tombar algumas vezes, mas vão se levantar. Em nome do Brasil, em nome da liberdade. E eles são muitos, nascem a cada dia dispostos a lutar pelo Brasil. E eu, mesmo depois de morto, viverei em cada um deles".

Após tão inflamada defesa da liberdade, vale lembrar que a escravidão ainda duraria mais 32 anos no país. Se os autores tiverem pulso para explorar esta e outras inúmeras contradições do regime e de seu soberano, pode ser que a receita renda um bom caldo. Dom Pedro é seguramente maior e mais complexo do que o pedestal de vulto histórico genérico onde normalmente é colocado. Se a homenagem é válida, desnudar o rei é sempre mais salutar e educativo.

A partir do que foi visto, fica difícil alimentar muito as esperanças. Em cena rápida, as adolescentes Isabel e Leopoldina deram as caras apenas para deixar no ar o ressentimento da irmã mais nova por não ser a herdeira do trono. Se for isso mesmo, já vimos este conflito (bem) explorado em The Crown. Valerá a pena ver de novo?

As princesas convivem com um núcleo supostamente cômico, composto de personagens herdados da novela Novo Mundo. A ligação entre as aventuras de quase quarenta anos atrás só fará sentido se conseguir fazer rir sem histeria ou pastelão – o que parece improvável. Caso contrário, resta desnecessária; ou alguém precisa ser lembrado do parentesco entre o segundo e o primeiro Dom Pedro?   

Aparentemente, o envolvimento amoroso do imperador com a condessa de Barral (Mariana Ximenes) ganhará destaque, apesar da imensa discrição com que Dom Pedro lidava com seus segredos de alcova extra-matrimoniais. Há que se cobrar um mínimo de acuidade histórica, uma vez que é neste terreno que a obra se insere. Pareceu estranho mostrar um levante de escravos muçulmanos na Bahia, quando a verdadeira revolta dos malês já havia acontecido há mais de duas décadas.

Sem esse cuidado, de que adianta o clima de superprodução, com drones a torto e a direito, paisagens de tirar o fôlego e trilha sonora luxuosa que vai de Elis e Clara Nunes a Milton e Ney Matogrosso? Mesmo sendo uma obra de ficção, há sempre o perigo de soar como verdade, dada a embalagem de drama histórico e movimentando personagens reais, superlativizada pelo realismo da televisão. A essa altura do campeonato, era só o que faltava a preocupação com fake news relativas a Dom Pedro & cia.

Como no tempo do imperador (e até às eleições do ano que vem), por via das dúvidas, o melhor mesmo é ficar atento e botar as barbas de molho.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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