Brasil Política

11/08/2021 | domtotal.com

Diretor de empresa farmacêutica produtora do 'kit covid' é ouvido na CPI

Jailton Batista foi convocado após a CPI questionar o aumento dos ganhos da indústria durante a pandemia com remédios sem eficácia comprovada para a doença

O diretor da Vitamedic admitiu ainda que o aumento nas vendas foi diretamente proporcional ao quadro da pandemia no Brasil
O diretor da Vitamedic admitiu ainda que o aumento nas vendas foi diretamente proporcional ao quadro da pandemia no Brasil Foto (Jefferson Rudy/Agência Senado)

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid iniciou na manhã desta quarta-feira (11) a reunião para coletar o depoimento de Jailton Batista, diretor da Vitamedic, empresa farmacêutica que produz o medicamento ivermectina no Brasil. O empresário foi convocado após a CPI questionar o aumento dos ganhos da indústria durante a pandemia de Covid-19 com o remédio sem eficácia comprovada para a doença.

Em sua apresentação inicial, Jailton Batista informou que trabalha na indústria farmacêutica há 35 anos e, há seis, como CEO da Vitamedic, localizada no polo industrial de Anápolis (GO). Ele disse que compareceu "com tranquilidade" à CPI para responder aos questionamentos dos senadores.

Ao afirmar que a Vitamedic não vendeu ivermectina para o governo federal, Jailton Batista informou ao relator, Renan Calheiros (MDB-AL), que a empresa também comercializa outros medicamentos do "kit covid", como polivitamínicos, corticóides, antitérmicos e analgésicos.

O diretor executivo da Vitamedic confirmou um aumento nas vendas da empresa com a ivermectina durante a pandemia de Covid-19. O medicamento não tem eficácia comprovada contra o novo coronavírus, mas teve o consumo incentivado pelo presidente Jair Bolsonaro na crise.

Em seu depoimento à CPI, Batista citou um aumento acima de 600% no faturamento da empresa com a venda do medicamento entre 2019 e 2020. Ele confirmou que, no primeiro ano, antes da pandemia, as vendas totalizaram R$ 15,7 milhões. No ano seguinte, já durante a crise da Covid-19, o faturamento com o produto foi de R$ 470 milhões, ou seja, 29 vezes maior do que o ano anterior.

"Houve uma demanda do produto, nós somos fabricantes, nós produzimos o que o mercado demanda. Foi só isso", disse o diretor da companhia aos senadores. "Ele tem a indicação terapêutica para outras doenças. Para qualquer produto nosso, a gente vai produzindo conforme a demanda do mercado".

O empresário informou que, além da rede privada, a empresa vendeu o medicamento para o governo estadual de Mato Grosso e diversos municípios, entre eles cidades do Paraná, Goiás, Ceará, Pará e Acre. "Foram muitos municípios que fizeram aquisição", disse Batista, que declarou um "aumento interessante" nos medicamentos usados pela população na tentativa de combater a Covid-19.

Jailton Batista declarou que, conforme a bula, o medicamento é comumente usado no combate a verminoses, sarna e piolho. A Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o diretor-executivo da Vitamedic ainda informou que o medicamento possui baixo impacto de efeitos colaterais, no entanto destacou que, como todo medicamento, deve obedecer a orientações medicas. O senador contestou a afirmação. Disse que o uso, de acordo com o que foi recomendado pelo chamado "tratamento precoce", com doses altas contínuas, levavam a toxicidade no fígado.  

O diretor da Vitamedic admitiu ainda que o aumento nas vendas foi diretamente proporcional ao quadro da pandemia no Brasil. Batista afirmou que não teria como medir os efeitos da atuação de Jair Bolsonaro nas vendas. Mesmo assim, ele afirmou que nenhum outro presidente incentivou o consumo de ivermectina.

"Não temos como medir. Antes que houvesse alguns pronunciamentos, desde a eclosão da pandemia, quando os primeiros estudos in vitro apontaram que a ivermectina, tinha alguma ação, isso desencadeou o interesse pelo produto. Ele passou a ter visibilidade maior. Mas não temos como medir o que impactou a fala do presidente no nosso negócio", afirmou.

Em resposta a Renan Calheiros, Jailton Batista confirmou que a Vitamedic patrocinou propaganda da Associação Médicos pela Vida. Segundo o depoente, a empresa assumiu o custo da veiculação de um manifesto da entidade em jornais em 16 de fevereiro sobre "medicamentos contra Covid-19".

No entanto, Batista reconheceu que a Merck, primeira fabricante da ivermectina, informou em comunicado não haver evidência de que o produto funcione contra a Covid-19.

"Vocês vendiam e não diziam em bula que a ivermectina não salva vidas contra a Covid-19. Isso levou a morte de muitos amazonenses, e isso não ficará impune", afirmou o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Acompanhe a sessão


Fabricante patrocinou anúncio de tratamento precoce

O diretor executivo da Vitamedic, Jailton Batista, afirmou que patrocinou a publicação de um manifesto a favor do tratamento precoce contra a Covid-19. De acordo com o diretor, a empresa patrocinou a publicação, veiculada no dia 16 de fevereiro em veículos de comunicação, após um pedido da Associação Médicos pela Vida. 

Questionado sobre as controvérsias ética e criminal do patrocínio com um anúncio que geraria lucros para a farmacêutica, o empresário declarou que o manifesto não citava especificamente a ivermectina. "Já tínhamos registrado forte demanda no mercado independente da opinião dos médicos, independente da publicação desse manifesto", disse o diretor. A atuação da empresa ao ignorar as evidências científicas nas vendas foi criticada na CPI. "Se omitiram e patrocinaram", disse o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM).

Jailton Batista afirmou que a empresa gastou R$ 717 mil para patrocinar uma publicação a favor do tratamento precoce contra a Covid-19. A empresa patrocinou a publicação após um pedido da Associação Médicos pela Vida, que assinou o manifesto contrariando evidências científicas. Durante depoimento na CPI da Covid, o diretor da companhia negou que houve lobby com o governo federal para impulsionar as vendas do medicamento.

O faturamento da Vitamedic com a Ivermectina aumentou de R$ 15,7 milhões em 2019, antes da pandemia de covid-19, para R$ 470 milhões em 2020, já durante a crise do novo coronavírus no Brasil. A CPI da Covid avalia acionar a Justiça Federal para bloquear os bens da farmacêutica e exigir a devolução dos ganhos com a venda do medicamento. "Estamos diante de um dos mais tristes depoimento dessa Comissão Parlamentar de Inquérito", disse o relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL).


Agência Estado/Agência Senado/Dom Total



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