Religião

12/08/2021 | domtotal.com

Abuso espiritual é mais frequente do que se pensa, diz autoridade vaticana

Dezenas de fundadores de novas formas de vida consagrada são investigados

O arcebispo espanhol José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica
O arcebispo espanhol José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica (CNS photo/Paul Haring)

Carol Glatz*

O Vaticano está investigando cerca de uma dezena de fundadores de institutos de vida consagrada ou  congregações religiosas, sobre as alegações mais comuns que envolvem abuso de poder ou de consciência, corrupção financeira ou problemas associados à "afetividade", disse um alto funcionário.

O arcebispo espanhol José Rodríguez Carballo, secretário da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, falou sobre o trabalho de seu escritório na supervisão das congregações religiosas em uma entrevista em 30 de julho para a publicação Vida nueva, uma revista semanal espanhola sobre religião.

Carballo disse que a Igreja tem "critérios muito claros e precisos" quando se trata de discernir a autenticidade de um carisma religioso ao determinar se deve aprovar uma nova congregação ou ordem religiosa.

Entre estes critérios, sublinhou: "a comunhão com a Igreja; a presença dos frutos espirituais; a dimensão social da evangelização; a elevada consideração pelas outras formas de vida consagrada na Igreja; e a profissão de fé católica", referindo-se à doutrina da carta de 2016 da congregação, Iuvenescit Ecclesia, aos bispos do mundo sobre os dons carismáticos na vida e na missão da Igreja.

"Infelizmente, é preciso confessar que, às vezes, é difícil descobrir a autenticidade e a originalidade de um carisma em algumas realidades", disse o arcebispo.

No momento, a congregação está investigando cerca de uma dúzia de fundadores de institutos que estão sob a autoridade de seu escritório, disse o bispo, sem citar os fundadores ou as comunidades envolvidas.

"Na maioria dos casos, são associações cujo reconhecimento canônico está em andamento", disse Carballo.

No entanto, acrescentou, além desse número existem alguns institutos que já foram canonicamente reconhecidos e cujos fundadores também estão sendo investigados, "então o número aumenta significativamente".

O arcebispo Rodríguez também disse que não estava contando comunidades ou institutos de vida consagrada que a congregação já investigou e respondeu, designando um delegado externo ou, em alguns casos, suprimindo o instituto.

"Deve-se notar também que houve alguns casos em que, após a devida investigação, a fundadora deixou a vida consagrada ou seu fundador foi reduzido ao estado laical", disse dom Rodríguez.

"Tudo isso causa muitos danos à vida consagrada e à própria Igreja", apontou. "Portanto, deve ser dada muita mais atenção ao discernir a necessidade, o benefício e a utilidade para a Igreja ao aprovar associações cujo reconhecimento canônico está em andamento."

É direito do bispo aprovar tais associações, disse, "mas também uma grave responsabilidade", e é necessário discernimento.

O secretário disse que os motivos mais comuns para abrir uma investigação podem ser os seguintes: problemas com os ativos do instituto sendo usados para ganho pessoal; abuso de poder ou abuso espiritual, incluindo abuso de consciência; e "problemas relacionados à afetividade".

Abuso se refere a "qualquer violência psicológica, física ou sexual que ocorra em um contexto religioso, ou qualquer manipulação que prejudique a relação de uma pessoa com Deus e com seu próprio ser interior", apontou Carballo.

Quando questionado se o abuso espiritual era muito comum, o arcebispo disse que esse tipo de agressão ou abuso de consciência "costuma ser mais comum do que você imagina. O papa Francisco o define como assédio espiritual, manipulação de consciências e lavagem cerebral. Esse tipo de abuso geralmente ocorre na esfera da direção espiritual ou dentro de uma comunidade, especialmente quando o foro interno (a consciência do indivíduo e estado espiritual) não se distingue do externo".

Isso é abuso enraizado no "clericalismo", que afeta não apenas o clero, mas qualquer homem ou mulher com autoridade, acrescentou.

Quando se trata de abuso sexual, em geral é contra outros membros do instituto religioso, "mas às vezes também contra menores ou pessoas vulneráveis", disse. Também é importante lembrar que o abuso sexual nem sempre é o único problema, mas também pode haver abuso espiritual ou abuso de poder.

Na entrevista a Vida Nueva, o arcebispo Rodríguez foi questionado sobre o porquê algumas novas formas de vida religiosa ou consagrada tendem ao "sectarismo", no sentido de que parecem ter um espírito de divisão, preconceito ou competição.

Às vezes é uma forma de defender um carisma ou "preservá-lo de possíveis contaminações que possam vir de fora", apontou. A mentalidade é "nós somos os melhores" ou os únicos que são fiéis.

"Em grupos como este, também se acredita que o carisma pertence aos fundadores e não à Igreja", disse.

"Em tais casos, a Igreja tem o direito e o dever de intervir para superar um exercício desordenado dos carismas, como fez a Igreja Primitiva", acrescentou.

"Em muitos destes casos, cria-se um sentido geral de 'perseguição' por parte da Igreja" e, disse o bispo, muitas vezes é acompanhado por "uma espiritualidade muito superficial e pouco alicerçada numa teologia sã e no magistério da Igreja".

O arcebispo disse que este processo de sectarismo pode levar ao fundamentalismo, que o papa Francisco disse ser o resultado de uma "ideologia que mutila o Evangelho" e, infelizmente, pode ser visto em várias das chamadas "novas comunidades" ou novas formas de vida consagrada.

"O fundamentalismo fossiliza um carisma", disse Carballo, e "um carisma é como a água; se não fluir, apodrece".

Publicado por NCR


Tradução: Ramón Lara



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