Religião

13/08/2021 | domtotal.com

'Samba da benção': uma oração de encontro

A canção é uma homenagem ao samba que saúda quem veio antes e quem chega depois

O samba, como gênero musical, é o terreiro que se expande e vai a rua
O samba, como gênero musical, é o terreiro que se expande e vai a rua (Valter Pontes/ Agecom)

Isaías Gomes*

No ano passado, um samba brasileiro foi destaque em alguns noticiários, pois foi citado pelo papa Francisco na sua mais recente encíclica Fratelli tutti, um documento oficial da Igreja Católica, onde o pontífice escreve sobre a fraternidade e amizade social, não deixando de tecer duras críticas ao sistema liberal econômico. No capítulo 6, Diálogo e amizade social, iniciando o tópico Uma nova cultura, Francisco abre com o trecho da canção Samba da benção de Vinicius de Morais e Baden Powell: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida. Nesta sessão do documento, o papa propõe uma nova cultura do encontro que seja capaz de superar as dialéticas que dividem e geram conflitos.

Segundo o professor Leonardo Davino, o Samba da benção é uma oração em forma de música, que reza seu passado e sua genealogia. Santo Agostinho já dizia "quem canta, reza duas vezes". Avaliem quem não canta sozinho. Vinicius, para falar da identidade do samba, resgata a sua ancestralidade, do candomblé aos grandes sambistas. A canção é uma homenagem ao samba e nada mais justo e preceitual que saudar quem veio antes e quem chega depois. Assim é a ritualidade que dá origem ao samba, que tem identidade religiosa. Na religiosidade afro-brasileira é muito importante e necessário reconhecer o valor dos mais velhos (as). O gesto sublime desse reconhecimento é pedir e oferecer benção, como sugere o título da música.

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Do simples preceito da benção ao seu significado profundo que representa amor e oração, que no samba, é rezada cantando e dançando. Podemos dizer que aqui está o que há de mais particular na relação do samba com a religiosidade. Quem já foi numa festa das religiões brasileiras de matriz africana, pode atestar e quem é adepto, sabe dizer. Apesar das "orações faladas" em momentos mais internos, boa parte da ritualística é acompanhada de cantos e danças. Não existe aquele dualismo que separa corpo e alma, onde tudo que é expressão do corpo é rechaçado. O corpo dançante é a própria história se refazendo, numa união entre passado e presente. No candomblé de tradição bantu, na umbanda e outros, aquele samba raiz, o samba de caboclo, com seus respectivos ritmos e gêneros, é a reza de invocação das divindades e entidades. O samba, como gênero musical, é o terreiro que se expande e vai a rua. Representando uma visão de mundo, um estilo de vida, inicialmente agregando os grupos negros. E por isso foi perseguido pelo Estado no século passado, desde uma política higienista e racista.

O samba tem em si, e a canção Samba da benção traz isso, na sua identidade e função social e religiosa, a capacidade de agregação, de encontros. Nas primeiras batucadas do interior baiano e nas ladeiras de Salvador, as rodas de samba reuniam negros de diversas tradições africanas, junto a eles, os caboclos, índios e brancos. A roda já começa diversa e se amplia quando se urbaniza e extrapola as dimensões geográficas, tendo o Rio de Janeiro como seu segundo endereço. É quando acontece posteriormente, o encontro da música negra com o branco, tão enfatizado pela canção: porque o samba nasceu lá na Bahia, e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração.

Nessa expansão, o samba leva a mística da Bahia de todos os santos, ao Rio de São Sebastião, promovendo um encontro de religiosidades, mostrando que no Brasil temos uma grande roda de samba, diversa nas crenças, culturas e poesia. O samba é um símbolo de democracia e diálogo. Guarda em sua identidade o rosto do país, sem nenhuma pretensão de falsa harmonia racial, mas como potência e representação de uma perspectiva que gesta o Brasil no dia a dia. Entre encontros e muitos desencontros desse nosso país, a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não. Esse sonho pode ser chamado de amizade social ou nova cultura de encontro, como sugere o papa Francisco. Um encontro que não se resume a cordialidade, mas que chama à responsabilidade, porque esse samba é de benção e cuidado.

Para falar sobre o samba e fazer a devida homenagem, o compositor escolhe na canção contar cantando como se faz samba. Na religião dos orixás tudo se aprende fazendo, e sobretudo sentindo, particularmente o passado ancestral triste, mas também o presente que é alegre e fértil, daí nasce o amor e dele o samba. O povo negro apesar da violência e labuta do passado e do presente, canta e dança. Muitas vezes trazendo na alegria uma tristeza escondida, porém, nunca imobilizadora, mas como oração de resistência, O bom samba é uma forma de oração. Os brancos compositores da referida canção conseguiram captar a essência do samba. O Samba da benção fala e traz essa cadência de uma esperança que balança, não que tonteia, mas que balança no afago do amor da mulher, no colo de Oxum. Para se compreender o samba tem que dar esse salto de fé nas águas, nessa cadência. E se ainda for difícil de entender ou sentir, não é pecado, pois vai ver que ninguém no mundo vence a beleza que tem um samba, não.

Referências:

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Roma, 2020.

SAMBA DA BENÇÃO. 365 Canções. Disponível em: . Acesso em 10 de ago de 2021.

SILVA, Wallace Lopes. Sambo, logo penso: afroperspectivas filosóficas para pensar o samba. Rio de Janeiro: Hexis - Fundação Biblioteca Nacional, 2015.

*Isaías, jesuíta. Licenciado em filosofia pela Faculdade Jesuíta (FAJE), especialista em juventudes (FAJE), graduando em Teologia na FAJE. Estuda diálogo inter-religioso, religiões afro-brasileiras e juventudes. Email: isaiasjhs@gmail.com



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