Brasil

13/08/2021 | domtotal.com

Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá

Que desfile pífio! Não sei como os comandantes dessa opereta bufa de quinta não coraram de vergonha e constrangimento

Desfile vira piada na internet com meme que compara a manobra militar com a animação 'Corrida Maluca'
Desfile vira piada na internet com meme que compara a manobra militar com a animação 'Corrida Maluca' (Reprodução Twitter)

Eleonora Santa Rosa*

Há temporadas em que por mais que você busque desconectar-se dos mesmos assuntos e fatos tratados ad nauseam, não há como evitá-los. Inescapável! Nesse sentido, a "tanqueata" patética acontecida em Brasília no início da semana, à porta, ou melhor, defronte à rampa do Planalto, foi um dos episódios mais canhestros e vexatórios que o país já assistiu, numa mistura de incredulidade e estupefação, pelo ridículo das cenas e desfaçatez de seu promotor e colegas coadjuvantes.

Acompanhando o mico-milico do ano, me lembrei do título da peça Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá, encenada nos anos 1970, muito censurada na ocasião, sobretudo em função das cenas homoafetivas de seu personagem principal. "Embora se tratasse de texto dramático que fala da solidão gay em tempos de ditadura, e não do destino de Greta Garbo, o nome brinca com a especulação de que a atriz poderia ter acabado no Irajá, bairro de classe média do subúrbio carioca, após abandonar todo o glamour e badalação de Hollywood, ou seja, o lugar perfeito para alguém que queria o ostracismo".

Extrapolando o universo cênico, o título ganhou força de expressão, transformando-se em comentário de uso cotidiano como referência à decadência, à secundarização, à desimportância, por assim dizer. Que desfile pífio! Não sei como os comandantes dessa opereta bufa de quinta não coraram de vergonha e constrangimento. Será que, posteriormente, assistiram ao noticiário viram as fotos do espetáculo desastroso, cujo símbolo foi a fumaça saindo aos borbotões do tanque mequetrefe, poluindo o combalido ar da República de Bananas, capitaneada pelo insano presidente histriônico?

Vivos estivessem Sérgio Porto, nosso inesquecível maravilhoso Stanislaw Ponte Preta, criador do famoso Febeapá - Festival de Besteira que Assola o País, descendente do humor de Apparício Torelly - nosso divertidíssimo e temido Barão de Itararé, que, aliás, devido às críticas aos governos, políticos e instituições, foi preso, espancado e censurado -, seríamos brindados por crônicas e boutades sensacionais, pois o que não lhes faltaria seria farto material e repertório de bobagens e comportamentos ridículos como os atuais. Como não mais os temos entre nós, recuperemos o extraordinário bom humor que lhes caracterizava e que permanece ainda como uma fonte inesgotável de mordacidade e lucidez:

Itararé:

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…

A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatar esses nós.

O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta.

Se há um idiota no poder, é porque os que o elegeram estão bem representados.

Stanislaw:

A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.

No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.

Mais inútil do que um vice-presidente.

Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!

Ser imbecil é mais fácil.

A dúvida dele não era a de que pudesse não ser um homem, mas a de que talvez nem chegasse a ser um rato.

Leia também:

*Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ocupou diversas funções públicas de relevo e desenvolveu projetos de educação patrimonial e de patrimônio cultural de repercussão nacional. Ex-diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR (de novembro de 2017 a novembro de 2019), é considerada uma das mais experientes e respeitadas profissionais no campo da viabilização, implantação e soerguimento de equipamentos culturais no país. Estrategista e gestora cultural, tem larga experiência editorial; foi responsável pela publicação de mais de meia centena de obras voltadas à história e à cultura de Minas Gerais, tendo sido coordenadora editorial das consagradas Coleções Mineiriana e Centenário da Fundação João Pinheiro. Diretora do Santa Rosa Bureau Cultural, é autora do livro Interstício

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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