Religião

13/08/2021 | domtotal.com

'Salve o samba, queremos samba': o rosto do Brasil cantado

O samba é marcado de fé, fundado na capacidade de acreditar que a vida tem jeito

Para os que não somos do Rio de Janeiro, talvez seja difícil compreender a comoção que as Escolas de Samba causam nas pessoas
Para os que não somos do Rio de Janeiro, talvez seja difícil compreender a comoção que as Escolas de Samba causam nas pessoas (Fernando Grilli | Riotur)

Felipe Magalhães Francisco*

Ser sambista é uma identidade e tanto. Essa identidade gera laços, cria ancestralidade. O respeito que se pode observar em meio aos sambistas, para com os mestres e maestrinas é digno de aprendizado: somos a nossa história, e bem reconhecê-la é garantir a possibilidade de um futuro.

Para os que não somos do Rio de Janeiro, talvez seja difícil compreender a comoção que as Escolas de Samba causam nas pessoas, o amor pelas agremiações, o investimento ao longo de todo um ano para desfilar por uma ou duas noites…

Mas o samba é bem mais que o que é vivido e proposto pelas escolas de samba. É o cotidiano de muitos brasileiros e brasileiras: conta nossa história, diz de nossos sentimentos e vivências. Um ritmo que nasceu marginalizado, acabou por estampar o Brasil no mundo de uma forma valiosa: nossa cultura é efervescente, não há quem não reconheça. Sem dúvidas, vale o canto: "Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar!", pois com ele se apagaria o Brasil.

Em um país tão diverso e efervescente culturalmente é triste que, em geral, a autoestima seja tão baixa: há muito o que avançarmos para a superação de uma percepção colonizada sobre nós mesmos. Produzimos uma cultura incomparável. Oxalá alcançássemos a superação daquilo que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-latas". A arte feita em nosso país narra nosso cotidiano existencial de uma maneira genial, que encanta o mundo e, muitas vezes, é negada por nós mesmos.

O samba, nascido nos terreiros dos morros, passou por um longo processo até que fosse reconhecido e aceito. Ele é a expressão do DNA dos brasileiros e brasileiras: é a música de quem não foge à importância de saber de si, de suas dores e alegrias, melancolias e esperanças… de sua resistência e da capacidade de amor. Há, ainda, outro elemento, ao qual devemos destacar: o samba é marcado de fé, fundado na capacidade de acreditar que a vida tem jeito e de que ela vence as muitas ameaças de morte que cotidianamente nos cercam, neste país tão desigual e eivado de injustiças. Ele canta a comunhão com os santos e santas e com os orixás: aliados importantes nas pelejas cotidianas de milhões de brasileiros e brasileiras.

No Dom Especial da Semana, trazemos algumas leituras religiosas do samba que, em última análise, são leituras religiosas de nós próprios. Abre a reflexão Teófilo da Silva, com o artigo Samba e encarnação: o concreto da vida e a revelação crística, no qual aponta para um elemento importante da teologia cristã, que pode ser apreendido a partir do ritmo musical aqui sinalizado. Isaías Gomes propõe o segundo artigo: Samba da bênção: uma oração de encontro, em que aborda elementos de corporalidade, convivialidade e ancestralidade, elementos importantes para uma leitura religiosa do samba. Encerra a reflexão Gustavo Ribeiro, com o artigo Um samba-salmo no ritmo da providência, no qual, a partir de uma das canções de Zeca Pagodinho, reflete sobre um modo popular brasileiro de compreender a vida, marcada pela confiança na providência divina.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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