Religião

13/08/2021 | domtotal.com

Um samba-salmo no ritmo da Providência

Deixar a vida levar e confiar na Providência não é um simples movimento, é um mergulho no mistério.

O que o samba nos pede é outro compromisso, a leveza
O que o samba nos pede é outro compromisso, a leveza (Alan Morici/Brazil Photo Press/AFP)

Gustavo Ribeiro*

Eu tinha forte inclinação a começar este texto sobre o samba do grande Zeca Pagodinho, Deixa a vida me levar, motivado pelo tema da responsabilidade, porém, providentemente, escutei uma conversa no ônibus, enquanto voltava para casa após o trabalho, que me fez mudar de ideia.

Talvez Tia Ciata não soubesse, mas os sambas, depois da perseguição, se tornaram a história versada da vida brasileira e não há samba que se escute que não toque alguém de alguma maneira por conta do seu tom coloquial e intimamente brasileiro. Não existe pessoa neste país que escape de se identificar com algum samba, porque o samba é o modo como nosso coração vibra, porque o samba não surgiu da nossa cabeça, mas das nossas veias.

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Zeca Pagodinho nos diz em sua música que é de origem pobre e que, por isso, já passou por quase tudo nessa vida, mas o coração é nobre, pois foi assim que Deus o fez. E é esse o motivo de deixar que a vida o leve. E mais, ele pede que a vida o leve.

Esse verso caiu no gosto do povo e não há no Brasil quem nunca o tenha ouvido. E com frequência é o conselho que damos e recebemos dos amigos: "deixa a vida levar".

Como já disse, a matéria do samba é a vida, mas não o filosofar sobre ela, é a experiência do vivente, daquele que narra suas aventuras pelo mundo vivendo a vida em seus encontros e desencontros, em tudo o que abarca o viver.

Algum desavisado, alguém que esteja desacostumado com a realidade dos brasileiros, pode entender essa vontade de deixar a vida levar como algo passivo, de espera sem atitude. Eu já acho que é exatamente o contrário.

Comecei este texto falando da providência e é justamente ela que me levou a escutar uma conversa que fez entender o samba do Zeca de outra maneira. Uma senhora dizia à outra: "não era para acontecer, mas já que aconteceu deve ser coisa da Providência. Deus sabe das coisas e conhece os nossos caminhos".

É comum vermos estampada em carros e publicada nas redes sociais a frase "Deus no comando/controle". Mas qual o sentido desta expressão que caiu no gosto religioso popular? O desalento diante da realidade nos coloca reféns de uma espiritualidade baseada na intervenção. E não são poucos os que se aproveitam para impor ainda mais fardos sobre os ombros das pessoas que estão carregadas de fardo.

A fé em um deus intervencionista descarta toda e qualquer gratuidade quando associada à teologia da prosperidade, alimentada ainda mais pelo sistema capitalista que nos impinge a meritocracia como medida única de satisfação e sucesso.

O que o samba nos pede é outro compromisso, a leveza. Mas, deixar a vida levar e confiar na Providência não é um simples movimento, é um mergulho no Mistério.

Mergulhar no Mistério não é se desabonar de produzir a vida, mas é seguir o caminho com uma esperança pululante, ou seja, estar no mundo com vontade e com compromisso, porque Deus caminha conosco na história, mas não é um amuleto de sorte, nem mesmo uma lâmpada mágica, Ele é companheiro de viagem.

Confiar na Providência é se abandonar nos braços amorosos de Deus, mas certos de que ele conta com as nossas atitudes, porque, afinal, foi por isso que Ele enviou seu Filho, para ser solidário em nossas lutas e nos indicar como viver.

O samba de Zeca Pagodinho pode e deve ser um salmo dos nossos tempos para lembrar sempre que o amor providente de Deus nos envolve e nos impulsiona a seguir. E, neste caso, ele pode vir acompanhado de outro samba-salmo, o do Cartola: "deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar...".

Seguir o caminho com a felicidade de fazer o possível para viver bem e ser sempre grato pelas experiências, é o que nos pede o salmista (ou sambista?), recomendando deixar a vida fluir, seguir seu curso, que não está pré-determinado, mas que a partir das nossas escolhas e atitudes, sabemos onde pode dar.

E no mais, "agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor" (I Cor 13,13) com um bom samba no pé, porque Deus é bom, providente e brasileiro!

*Gustavo Ribeiro é bacharel em Teologia, especialista em Gestão Escolar e graduando em Psicologia. Vive em Belo Horizonte e trabalha como Agente de Pastoral e Formação Humana na Pastoral Educativa.



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