Brasil

16/08/2021 | domtotal.com

Nos tempos da paquera

E é então que o tempo me traz outra palavrinha que resiste a todos os tempos

Era gostoso paquerar. Era especialmente excitante aquela espera de que a donzela percebesse a paquera da qual era alvo
Era gostoso paquerar. Era especialmente excitante aquela espera de que a donzela percebesse a paquera da qual era alvo (Laura Louise Grimsley / Unsplash)

Afonso Barroso*

De vez em quando convido o tempo a entrar. Não o tempo de hoje, mas o antigo. Aquele tempo que dizem não volta mais. Pois eu lhes digo que ele está sempre presente, rondando por aí à nossa volta, só esperando a gente chamar. Aí ele vem, e traz consigo coisas que faz bem lembrar.

Dia desses, numa madrugada insone, recebi-o trazendo consigo algumas expressões que a gente usava quando ele estava em vigor, no auge da juventude. Trouxe, por exemplo, a palavra paquerar, há muito escondida no desuso. Mas é uma palavrinha cheia de charme. Significava o que mesmo? Ah, sim, paquerar era uma espécie de preparação para o ataque à garota em vias de ser aprisionada na arapuca dos desejos.

Era gostoso paquerar. Era especialmente excitante aquela espera de que a donzela percebesse a paquera da qual era alvo. Em muitos casos ela se fazia difícil, mesmo que a paquera a envaidecesse e convidasse a ceder. E o processo durava um bom tempo, até que um dia a paquera se promovia a namoro.

Outra palavrinha que o tempo me traz é flerte. Flertar, como não sabem as novas gerações, era olhar fixamente os olhos de alguém em plena paquera. O flerte era sempre de mão dupla, ou de duplo olhar. Representava o princípio de tudo, e acontecia principalmente durante o footing.

E aí está outra palavrinha usada só naquele tempo bom. Footing, como o próprio nome traduz sem necessidade de tradução, era o ir e vir na praça. Moças e rapazes iam e vinham, mais moças do que rapazes, de um lado e de outro flertando, definindo o desejo de amar. Fazia-se footing em geral aos sábados e domingo, mas não era proibido invadir outros dias da semana.

Também me chegam com a brisa do tempo outras palavrinhas de boas lembranças. Como o torpedo, nome que se dava aos bilhetinhos entregues ao garçom para levar à moça pretendida na mesa ao fundo. Não havia sequer a larva do telefone celular, que transformou o torpedo em mensagem eletrônica. O torpedo visava abater a lebre, nome também usado para os brotos de então. Broto, sim, outra palavrinha simpática que o tempo me traz.

E o que chega agora é avião. Aterrissa pra informar que era como se dizia de uma mulher bonita. Boa também servia. E se era gostosa demais, boazuda. Quando feia, canhão. É o que informa o tempo com um sorriso maroto.

E é então que o tempo me traz outra palavrinha que resiste a todos os tempos. Amor. O que não tem tempo nem nunca terá. Amor é infinito, mesmo que dure um tempo curto, como bem disse o poeta, aquele que falou de amor como ninguém e dele viveu a vida inteira.

Assim é o tempo. Aproveite-o bem, nem que seja apenas para memória de outros tempos.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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