Religião

17/08/2021 | domtotal.com

Pensamento de Calvino continua atual e pode servir ao ecumenismo

Em entrevista, pastor presbiteriano Dimas de Almeida, falecido em 11 de agosto, fala da atualidade da Reforma

Dimas de Almeida foi pastor da Igreja Presbiteriana de Portugal, herdeira espiritual de Calvino
Dimas de Almeida foi pastor da Igreja Presbiteriana de Portugal, herdeira espiritual de Calvino (Ana Serras/Sete Margens)

A doutrina de Calvino, nascido em 10 de Julho de 1509, acabou por influenciar a construção da democracia, contribuiu para o surgimento de uma nova racionalidade econômica, o capitalismo, e foi determinante para que a Igreja Confessante na Alemanha se opusesse convictamente ao nazismo. Pela primeira vez em Portugal, está publicado um texto de Calvino. Isso deve-se a Dimas de Almeida, que aqui explica a herança do reformador.

Nascido em 28 de Abril de 1937, no Montijo, Dimas de Almeida foi pastor da Igreja Presbiteriana de Portugal, herdeira espiritual de Calvino. Em 2009, Dimas de Almeida traduziu e publicou dois dos principais textos da Reforma Protestante: a Breve instrução cristã, de Calvino, e as 95 Teses sobre as indulgências, de Lutero. Já depois desta entrevista, Dimas de Almeida traduziria duas outras obras importantes: a Ética a Nicômaco, de Aristóteles (Lusófona, 2012) e a Pequena filocália (Paulinas, 2017). O pastor e teólogo morreu quarta-feira passada (11).

Além da exegese bíblica, a que dedicou boa parte do seu trabalho com traduções sucessivas dos textos do Novo Testamento, Dimas de Almeida trabalhou áreas como a História das Origens do Cristianismo, o Grego Clássico, a História e Fenomenologia das Religiões ou a Ética. É autor de várias dezenas de trabalhos, publicados em revistas e livros quer em Portugal quer no estrangeiro.

Nesta entrevista, publicada inicialmente no Público em 1 de Julho de 2009 e reproduzida no livro Diálogos Com Deus em Fundo (ed. Gradiva), Dimas de Almeida fala da contemporaneidade da Reforma. Diz que o ecumenismo tem de passar do mero diálogo ao reconhecimento do outro para não ficar num beco sem saída, e que as fronteiras entre igrejas se têm esbatido.

Ao dinamizar comunidades cristãs com uma organização mais democrática, Calvino influenciou a democracia contemporânea?

DIMAS DE ALMEIDA – Não há dúvida de que os descendentes espirituais de Calvino, nos Estados Unidos da América, com a sua forma de governo presbiteriana de Igreja, influenciaram [a construção da democracia].

Calvino nunca recebeu uma ordenação, foi sempre leigo. A estrutura eclesial em que os leigos têm uma função tão ou mais importante que os que não o são foi importante. Tal como a participação do laicato nos processos de decisão, e o sistema presbiteriano sinodal – o sínodo é o órgão supremo e tem que ter tantos leigos como pastores.

As igrejas de Lutero são diferentes?

Lutero não estruturou a sua Igreja. Para o luteranismo, há o pastor, que não é clérigo, mas também não é uma estrutura ministerial como em Calvino.

Inspirando-se no Novo Testamento, Calvino estabelece o ministério do pastor, que se ocupa da pregação e da administração dos sacramentos; do doutor, que ensina; do ancião, ou presbítero, que conduz a comunidade local – e que é leigo; e do diácono. E não há uma hierarquia. É esta organização eclesial que terá repercussão [política].

Calvino também defende a autonomia do casamento e da sexualidade, uma ideia nova para aquele tempo.

Ele chama a atenção para o fato de que o casamento é um ato civil. Em Calvino, o casamento não é sacramento. Para ele, tão casado estava um casal que se casasse sem a bênção da Igreja como o que tinha a bênção. O casamento não era um sacramento, pertencia ao domínio laico.

Só adota o baptismo e a ceia como sacramentos…

Em linguagem de hoje, Calvino dessacraliza o casamento. Ao retirar o casamento das amarras de um poder religioso que o condiciona eticamente, Calvino liberta-o e escancara as portas a uma nova interpretação da sexualidade. O casamento é visto como algo que não se esgota na sexualidade.

Não é a sexualidade que se inscreve no casamento, mas o casamento que se inscreve na sexualidade. A sexualidade é maior que o casamento. As portas estão abertas para entender o casamento como o espaço em que a sexualidade se pode exercer sem se reduzir à procriação.

Há 100 anos, Max Weber diz que a ética, sobretudo a de Calvino, está também na origem do capitalismo.

Weber estuda mais o comportamento ético dos puritanos calvinistas, que hipertrofiam a doutrina da dupla predestinação – um calvinismo posterior a Calvino. A tese de Weber é que a ética calvinista (dos séculos 18 e 19) dá um impulso, mas não é a única causa, ao aparecimento da nova racionalidade econômica que é o capitalismo, que surge a partir do princípio religioso da dupla predestinação.

Os puritanos calvinistas do século 18 viviam uma angústia existencial, sem saber se estavam salvos se estavam perdidos – uma coisa que para nós, hoje, é bizarra. "Será que Deus me predestinou para a salvação?" Como raciocinavam eles? "Se Deus me abençoar nos negócios, é sinal de que Deus me salvou". E portanto, produziam, trabalhavam, investiam. Um princípio religioso leva a uma atividade econômica.

Ou seja, Calvino vem depois de Lutero, mas a sua influência parece ultrapassar a de Lutero: na política em relação à democracia, na economia com o capitalismo e com a Igreja Confessante, na oposição a Hitler. Isto é verdade?

Se tivermos em conta as repercussões culturais da Reforma Protestante do século 16, no campo da política e da economia, elas inscreveram-se muito mais no trabalho realizado por Calvino.

A teologia calviniana privilegia muito mais a dimensão ética, decorrente de uma interpretação mais positiva da lei de Deus. O registro luterano [permitiu] que, nos tempos escaldantes do nazismo, a maior parte da Igreja Luterana na Alemanha silenciasse o que se estava a passar.

Calvino posiciona a fé e o comportamento cristão entre a lei de Deus e a obediência à lei de Deus, entre um poder religioso que não pode esgotar-se em si mesmo, mas que é chamado a ter uma palavra profética. Este pensamento proporcionou achegas teológicas importantes, em pleno século 20, até mesmo para a Igreja Confessante na Alemanha, de matriz luterana. É que a assim chamada Igreja Confessante (de que fez parte Dietrich Bo­nhoeffer, morto num campo de concentração poucas semanas antes da derrota final de Hitler) assumiu­-se como um movimento de resistência ao nazismo no interior da Igreja Luterana Alemã, na sua generalidade complacente com o nacional­-socialismo.

O anti-semitismo de Lutero pode ter tido influência?

Repugnar-me-ia falar de anti-semitismo em Lutero. O que acontece em Lutero é um re-pensamento teológico do papel do judaísmo, que não conduz ao que chamaríamos anti-semitismo.

Há uma diferença entre Lutero e Calvino, no que diz respeito ao valor do Antigo Testamento. Calvino valoriza-o mais do que Lutero. Para Calvino, é a forma primeira da única revelação de Deus. A ideia de uma revelação progressiva não encontra nele um grande acolhimento.

O Antigo Testamento é muitas vezes mal interpretado, porque Deus aparece como violento, cruel. Há um Deus que se revela frequentemente sob traços humanos: do ciúme, da violência, da guerra… Mas este é o Deus de Jesus. Rejeitar o Deus do Antigo Testamento seria rejeitar o Deus de Jesus.

Calvino tem essa ideia?

Talvez de forma mais enfática que Lutero, Calvino chama a atenção para a importância do Antigo Testamento e do agir aqui na terra. Quando Bonhoeffer está preso, escreve nas cartas que o que mais lê na cadeia [nazi], em Berlim, é o Antigo Testamento, porque o leva para "a realidade do concreto", para um Deus que se mistura com a história, nas formas mais inesperadas.

Lutero e Calvino são muito influenciados por São Paulo. Hoje, a exegese diz que, quando Paulo falava de fé e obras, se referia às regras de conduta e da alimentação no judaísmo. A oposição entre fé e obras foi uma das razões da ruptura de Lutero. Quer dizer que ela se deu por uma questão que não existia em São Paulo?

Nestes últimos 40 anos tem surgido uma nova exegese e uma reapreciação do que Paulo diz. Uma tão grande oposição entre fé e obras não é característica do judaísmo do tempo de São Paulo: não havia uma valorização das obras e uma desvalorização da graça de Deus.

Há aí elementos para um reexame e para repensar o diálogo ecumênico. Essa é uma tônica importante a não perder de vista: qual é a contemporaneidade da Reforma, hoje? Porque é que surge uma reforma? Não só a de Lutero, a de Calvino…

Tinha havido antes Francisco de Assis, Bernardo de Claraval, João Huss… Porque é que algumas desses não chegaram à ruptura?

A história de São Francisco e do franciscanismo subsequente é de uma absorção dentro da Igreja. João Huss foi morto na fogueira…

Quando se tratam as causas da Reforma do século 16, evoca-se o mau comportamento do clero, os maus hábitos, os costumes, a corrupção. Tudo isso é verdade, mas há um elemento que vai mais à essência das coisas e está presente em todos os grandes reformadores – seja Francisco de Assis, João Huss ou Lutero: é uma tomada de consciência da distância entre a promessa do evangelho e a realidade trágica da história.

Entre o que se crê e o que se faz?

A dissonância entre o que o evangelho transporta consigo como promissor de alguma coisa nova e a realidade trágica da instituição religiosa e da história. Todo o movimento de reforma dá lugar a novos enquistamentos. O sentimento da reforma, hoje, tem que passar por uma autocrítica da instituição religiosa.

As reformas muitas vezes produziram resultados opostos ao que desejavam. Hoje [trata-se de saber] como dar pertinência ao cristianismo num mundo que não reconhece essa pertinência. Na Igreja Católica e nas Igrejas Protestantes somos chamados a viver a fraternidade na vulnerabilidade.

Porque, sendo poucos, mais vale estarem unidos?

Não é por sermos poucos. É por causa do evangelho: encontrar uma palavra profética, que dê resposta ao sentimento, que as nossas sociedades vivem, de que o cristianismo não é pertinente. O problema hoje não é o do ateísmo, é o da indiferença.

E o grande desafio do ecumenismo é o reconhecimento do outro. A pluralidade das igrejas é o lugar para o ecumenismo. Não para considerar a pluralidade como pecado, mas como espaço privilegiado para as igrejas viverem hoje a reforma.

A divisão entre cristãos hoje é transversal, não passa tanto pela divisão institucional mas pelo modo de olhar o evangelho e encarar a vida?

Sim, a geometria ecumênica diz-nos que as grandes divisões entre as igrejas já não são coincidentes com as divisões oficiais. Há clivagens mais ou menos fundas que passam pelo interior de cada igreja. Essas clivagens – que podem criar situações de católicos e protestantes mais perto uns dos outros do que de outros da sua Igreja – não têm que ser vistas como negativas.

Mas continua a ser um mau sinal que o cristianismo esteja fraccionado.

Mau sinal é o não reconhecimento do outro. O cristianismo é geneticamente plural. Há quem pense que, no princípio, havia unanimidade e ortodoxia, e que depois apareceu a heresia e a heterodoxia. A pluralidade e o conflito de interpretações estão presentes desde o início.

Houve um tempo do anátema recíproco. No século 20, passou-se do anátema ao diálogo, com o movimento ecumênico e o Concílio Vaticano II na Igreja Católica. Mas não se pode ficar eternamente no diálogo. O grande desafio é passar do diálogo ao reconhecimento de que a pluralidade é sinônimo de riqueza, porque não há nenhuma igreja que esgote toda a verdade nem tudo o que é bom. O espaço da pluralidade é fecundo, para o reconhecimento do outro.

Mas as fronteiras entre igrejas ainda existem.

Há um certo esbatimento das fronteiras confessionais, que não deve redundar em perda de identidade.

A Igreja Presbiteriana de Portugal, que comemorou 140 anos, está num processo de fusão com a Igreja Metodista. Faz sentido ou é uma perda de identidade?

Doutrinariamente não há coisas incompatíveis. Acho muito bem que presbiterianos e metodistas se unam. Mas são duas igrejas muito próximas. É muito mais significativo o movimento de reconhecimento do outro na sua diferença, do que o movimento em que duas igrejas diferentes se unem.

Seria extraordinariamente significativo se os protestantes dissessem à Igreja Católica: "É nas nossas divergências que reconhecemos toda a legitimidade à Igreja Católica para ser aquilo que é". E que a Igreja Católica dissesse o mesmo aos protestantes. Mas estamos muito longe desse reconhecimento.

Passou-se da ideologia do regresso – "separaram-se de nós, têm que voltar" – à cedência: é mais importante o que une do que aquilo que divide…

Mas isso deveria ter consequências: porque não haver professores protestantes na Universidade Católica ou católicos em seminários protestantes?

Sim, isso era uma consequência prática. A ideologia da cedência implica um empobrecimento de cada igreja, às vezes naquilo que cada uma pode ter de mais rico. Já foi importante passar da ideologia do regresso à da cedência mútua. Mas não podemos continuar aí. O ecumenismo ou desperta para a noção de reconhecimento do outro ou está num beco sem saída.

Uma das redescobertas acerca de São Paulo é a do papel que ele dava aos leigos e às mulheres nas comunidades…

Do ponto de vista exegético, já está mais que demonstrado que o papel das mulheres nas comunidades paulinas era preponderante…

A tradição protestante assumiu-o desde o início. É importante levar isso mais longe nomeadamente no catolicismo?

Há igrejas onde a distinção entre clero e leigos é mais acentuada e outras, como na generalidade do mundo protestante, onde essa distinção não é tão importante – ainda que possa lá estar…

Assumir a Reforma Calviniana é assumir a grande centralidade dos leigos na Igreja. Foi esta dimensão que Calvino imprimiu à sua eclesiologia e o regime de Igreja que daí resulta que deu um certo impulso ao aparecimento da democracia.

Mas as igrejas, nomeadamente a Católica, devem assumir mais esse papel?

Não é se deve ou não. Isso é intrínseco, é um problema do ser. Se somos Igreja, inevitavelmente tem que ser assim. É uma necessidade ontológica de todas as igrejas – mesmo no mundo protestante. Tal como o problema da mulher. É a questão de saber se podemos continuar a ser, ignorando isso. Ou se é ou se não é.



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