Religião

24/08/2021 | domtotal.com

A responsabilidade da pregação cristã para com o diálogo em tempos de intolerância

Denunciar as injustiças e situações de exploração deve ser parte integrante da espiritualidade dos cristãos

O papel da pregação cristã no cenário atual é convidar ao seguimento de Jesus que exige uma constante conversão para o serviço a Deus e aos irmãos e irmãs
O papel da pregação cristã no cenário atual é convidar ao seguimento de Jesus que exige uma constante conversão para o serviço a Deus e aos irmãos e irmãs (Unsplash/Father James)

Francisco Thallys Rodrigues*

A base fundamental da pregação cristã é o anúncio da boa nova do Reinado de Deus, proclamado por Jesus, este que se expressa como um tempo novo para os excluídos, pobres e sofredores. O princípio fundamental da fé cristã é o amor a Deus e ao próximo vivido no cotidiano da vida. Seguir Jesus é manifestar o amor de Deus pela humanidade por meio da palavra e do testemunho. Neste contexto, denunciar as injustiças e situações de exploração deve ser parte integrante da espiritualidade dos cristãos de todos os tempos, expressos em palavras e atos. O problema é que muitas vezes a denúncia da injustiça e o anúncio da boa nova do Reino tem cedido espaço para discursos pretensamente "neutros", sem posição diante das ameaças à vida, ou em outros casos tem cedido espaço para o discurso de ódio. Qual a importância da pregação cristã num contexto de dificuldade de diálogo?

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Na palavra e ação de Jesus encontramos uma abertura fundamental ao próximo, independentemente de sua situação ou condição. Acolhe a todos que o procuram nas mais variadas situações não se atendo a questões culturais, religiosas ou étnicas. Isto ocorre mesmo com aqueles que claramente se opunham a ele ou procuravam matá-lo. O Reinado de Deus anunciado por Jesus não foi imposto, mas trata-se de um convite que supõe uma adesão livre e por amor. A pregação de Jesus tem por base fundamental a experiência filial com Deus, ela é acompanhada por um testemunho sincero e fecundo. Os cristãos devem reconhecer-se nesta experiência filial com o Pai que conduz a vivência da fraternidade com os irmãos e irmãs. Filiação e fraternidade tornam-se essenciais numa vida segundo o Espírito.

No decorrer dos séculos, a pregação, acompanhada do testemunho, tornou-se o eixo fundamental para o crescimento do cristianismo seja nos espaços celebrativos ou mesmo na expansão da atividade missionária. Tão grande era a importância da pregação cristã que, no contexto medieval, surgiu uma ordem (dominicanos) especialmente dedicada à pregação em vista da conversão daqueles que muitas vezes eram considerados "hereges". Mesmo em nossos tempos, uma quantidade significativa de pessoas dirige-se semanalmente, ao menos, às igrejas e templos para participarem de celebrações que dedicam uma parte, ou quase sua totalidade, à pregação a partir dos textos bíblicos.

Quando se considera o momento atual, marcado pela crescente polarização em todos os setores e o crescimento do ódio, a pregação cristã tanto pode favorecer espaços de abertura e diálogo, quanto pode levar ao acirramento de ânimos, aumentando a segregação e o ódio. Quando se parte do princípio de que o respeito e a capacidade de escuta são exigências fundamentais do amor cristão, o diálogo torna-se possível. Trata-se de um processo de maturidade para reconhecer que o outro tem igual dignidade mesmo que não professe a mesma fé ou que não concorde com o que pensamos. Dentro das próprias comunidades cristãs torna-se urgente insistir em sua diversidade como expressão dos próprios dons do Espírito, tendo consciência de que o Evangelho de Jesus é ponto fundamental que nos une. Tal experiência quando asseverada nas pregações pode favorecer maior solicitude diante do próximo. Não faltam exemplos de homens e mulheres que, em cada tempo e lugar, estabeleceram diálogos, aparentemente impossíveis, tal é o caso de Francisco de Assis com o Sultão; ou Charles de Foucauld com os mulçumanos no deserto africano.

Por outro lado, a pregação cristã pode conduzir ao fechamento em si mesmo quando os pregadores estabelecem uma linha divisória entre os espirituais e os profanos ou se quiser outra linguagem, entre os batizados e os "do mundo". Nesta concepção, estes últimos encontram-se destituídos de valor porque não acolheram a boa nova de Deus, não se "converteram". Neste caso, o diálogo só é possível quando os "perdidos" decidem entrar num processo de conversão ou mostram alguma disposição para fazê-lo. Do contrário, o diálogo torna-se impossível. O extremismo de tal posição pode levar ao cerceamento do outro, tal como aconteceu também na história, por mais de uma vez, aos judeus e, no caso brasileiro, às religiões de matriz afro. O crescente ódio dos cristãos motivados por pregações de cunho farisaico, fundamentalista e, por que não dizer elitista (no sentido de termos os salvos e os condenados), é uma enorme contradição com o Evangelho de Jesus e com a vida dos cristãos.

Neste cenário, os pregadores cristãos deveriam insistir no diálogo como elemento fundamental para a vivência do Evangelho. O diálogo supõe capacidade de abertura, reconhecimento de valor e consideração do outro como irmão e não como inimigo. O caminho parece ser insistir na necessidade de construir pontes e estabelecer diálogos, pequenos consensos que possam conduzir a uma abertura. Além disso, não se deve esquecer que o mais fundamental deverá ser o testemunho dado no cotidiano da vida que como fermento na massa transforma o mundo.

Portanto, o papel da pregação cristã neste cenário é convidar ao seguimento de Jesus que exige uma constante conversão para o serviço a Deus e aos irmãos e irmãs. Estes não podem ser compreendidos unicamente como aqueles que fazem parte da mesma confissão de fé, mas deve incluir a todos sem distinção. A pregação cristã será mais evangélica na medida em que expressar aquilo que foi o mais fundamental na vida de Jesus: o amor feito doação a todos os irmãos e irmãs a partir da experiência filial com o Pai animado pelo Espírito.

*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateús. Mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).



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