Cultura

19/08/2021 | domtotal.com

O que tinha que ser já foi ?

Envelhecemos e só nos damos conta disso defronte aos espelhos

Agora, na realidade, estamos diante de gerações que têm outros corações e mentes
Agora, na realidade, estamos diante de gerações que têm outros corações e mentes (Unsplash/Daniele Levis Pelusi)

Ricardo Soares*

A contragosto sigo na minha sina de continuar envelhecendo. Chegou, sem que eu esperasse, o dia que percebi que tudo que tinha que ser já foi, a juventude passa e não me venham dizer aquelas balelas de "melhor idade", que dão conta, de que "o melhor está por vir" ou "ainda tem muita lenha para queimar" ou, pior ainda, " a vida começa aos sessenta". Quem aguenta tanta patuscada assim?

Enfim, nós que éramos os jovens dos anos 70, a geração de estudantes, trabalhadores, jornalistas, artistas que iam mudar o mundo, agora nos damos conta que não mudamos por mais que tentássemos e os jovens que acompanhamos hoje parecem que não vão dar conta do recado porque, generalizando, parecem mais acomodados do que fomos.

Enfim, envelhecemos e, contrariados, só nos damos conta disso quando prestamos atenção às nossas imagens defronte aos espelhos com manchas aparecendo na pele, dentes amarelando e amolecendo, cabelos indo ou ficando grisalhos. E aí, estupefatos, damo-nos conta de que a ciranda-cirandinha nos fez cirandar e pouco andar e muito, muito contrariados, vemo-nos de novo no combate daquilo que combatemos e achamos enterrado em 1985, quando acabou nossa ditadura militar.

O que tinha que ser já foi? A juventude passa e temos que achar graça? Confesso que vivi para fazer, desalentado, a mim mesmo essas perguntas e não achar as respostas. E antes de querer transformar essa crônica num relato pessimista, eu busco, na verdade, desvãos onde colocar meu já miúdo otimismo diante de um mundo e um país que me parece cada vez mais estranho.

Foi-se o Tarcísio Meira, foi-se o Paulo José, foram embora tantos que tiveram significado na infância, que não é apenas aprender a se situar diante do que resta, mas como se situar nesse mar de destroços. Outro dia, Marcelo Coelho – articulista da Folha de S.Paulo por quem não morro de amores – acertou em cheio quando escreveu "que essa sensação não vem de agora. Começou com a campanha presidencial de Bolsonaro, ou antes até. Algumas pessoas da minha geração – os que entraram na universidade entre 1975 e 1985 – têm dito a mesma coisa. Não reconhecem mais o Brasil; tudo lhes parece incompreensível, selvagem, fora de alcance. Como se, de repente entrássemos de carro numa avenida deserta, sem perceber que estávamos na contramão. No instante seguinte, o fluxo avança, e teremos sorte se conseguirmos subir na calçada sem trombar de frente".

É isso, faço minhas as palavras do Marcelo que, diga-se de passagem, pertence a mesma geração que eu. Foi como se ele tivesse verbalizado o que muitos de nós sentimos e até por medo de nos vitimarmos não dizemos. O mundo que conhecíamos acabou e parte dele, pelo menos na minha bolha existencial temporal, também acabou por conta justamente de uma certa "turma" do Marcelo, que, paradoxalmente, lamenta o fim dos ideais de nossa geração tendo sido entusiasta de um projeto jornalístico furadíssimo que transformou jornalismo em módulos e resultados, como foi o tal "projeto Folha" nos anos 80, que sepultou o tal romantismo da profissão. Mas essa é outra prosa.

Agora, na realidade, estamos diante de gerações que têm outros corações e mentes. Se são piores do que nós não sei. Mas lamento muito o que entendem por jornalismo (de resultados), o culto desenfreado ao tal "emprendedorismo" e ao ego, lives, câmeras em todas as mídias, inclusive o rádio, amor incondicional ao deus mercado, a importância exagerada dada aos nefastos "influencers", aos arautos da autoajuda e a pouca importância que dão à tal cultura letrada que mal não faz como bem sabemos.

Diante disso tudo não vou ficar aqui batendo cabeça no muro das lamentações. Mas repito o mote inicial desse texto: o que tinha que ser parece que já foi. O que acontece comigo e com o Marcelo Coelho talvez seja uma coisa que aconteça com todas as gerações como ele mesmo diz. E a minha geração, como ele também diz ou "o que ainda resta dela – já vai perdendo seu lugar no mundo". Sinto-me pois um estranho no ninho sem conter a triste sensação de que nós ladramos e caravanas erradas vão passando pelos nossos olhos já míopes diante da nova ordem mundial.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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