Religião

24/08/2021 | domtotal.com

A voz do povo é a voz de quem?

O cristianismo nasce como uma religião de perseguidos políticos

Contrapondo os poderes vigentes, os cristãos eram marginalizados e precisavam celebrar a sua fé escondidos nas, casas, cavernas e catacumbas, como a de Santa Priscila
Contrapondo os poderes vigentes, os cristãos eram marginalizados e precisavam celebrar a sua fé escondidos nas, casas, cavernas e catacumbas, como a de Santa Priscila Foto (Vatican News)

Daniel Couto*

"Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias.
(Magnificat, Cântico de Maria)

Os desafios políticos contemporâneos podem parecer, em um primeiro momento, intransponíveis, mas não são uma novidade do nosso tempo. Desde o início das comunidades humanas temos indícios de sistemas de relação e governo e, com isso, de disputas políticas dos mais variados tipos. Quando passamos a viver em comunidade desenvolvemos uma série de mecanismos que possibilitaram a convivência e determinamos papéis diversos para os indivíduos que estavam em um mesmo grupo. Igualmente, com a relação entre grupos distintos, o jogo de poder deixou de ser apenas interno e passou a compreender uma dinâmica exterior, em uma espécie de "política externa".

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Essas diversas formas de "ser comunidade" foram se solidificando e na Grécia antiga Aristóteles apresentou um diagnóstico das "formas de governo" observadas por ele. Sabendo das limitações do olhar grego, que estava circunscrito à percepção de mundo possível para aquela sociedade, podemos ver nos paradigmas políticos aristotélicos modelos que, com uma ou outra adaptação, podem ser aplicados em contextos diversos. Neste sentido, a determinação da organização política estava ligada ao grupo que exercia o poder e tomava as decisões relativas à comunidade. Quando esse poder era exercido por uma única pessoa, Aristóteles identifica-o como uma monarquia. Na monarquia, apesar da centralidade do poder, as decisões são voltadas para o bem coletivo e não segundo a vontade pessoal. Outro modo de exercer o poder é a partilha do governo por um pequeno grupo. Essa estrutura, nomeada de aristocracia, funda-se na ideia de que esse é o "grupo dos melhores" e que eles tomarão as decisões que são benéficas para a sociedade. Neste sentido, não seria o interesse do grupo, mas o interesse coletivo que está em jogo no debate político. O terceiro modo de compreender essa organização política é a república (ou democracia)1 onde o governo é compartilhado por todos. A responsabilidade política se detém sobre todos os cidadãos e as decisões devem ser tomadas por meio de mecanismos coletivos. Assim, em uma democracia o que vale não é a vontade pessoal, mas a vontade coletiva que melhor contribui para a comunidade.

Tais modelos políticos, porém, são "formas puras", isto é, modos exemplares de exercer o poder nas sociedades. Junto a essas formas, Aristóteles indica as suas corrupções, que acontecem quando os interesses dos governantes deixam de estar ligados ao "bem comum" e se orientam ao desejo de um ou de poucos. Cada tipo, portanto, possui a sua forma corrompida. A monarquia, quando desloca o interesse para os desejos do governante se torna uma tirania. Todo o poder concentrado nas mãos de uma pessoa se volta para a sua satisfação e para as suas vontades. Não há lugar para a compreensão do estado como um coletivo do qual o governante é o representante. Em segundo lugar, a aristocracia se corrompe na oligarquia, onde o governo dos melhores passa a ser o governo de um grupo que busca atender as suas demandas e que governa para si. Nesta corrupção, também a perspectiva coletiva e os demais cidadãos são esquecidos. Em terceiro lugar, na corrupção da democracia, temos o que Políbio2 chama de oclocracia. Nela, o poder e o governo que advém de todos os cidadãos se corrompe, com o enfraquecimento das instituições e das representações, em uma revolta das multidões onde todos querem satisfazer o próprio desejo e utilizam todos os meios necessários para isso. Não há nenhuma visão de coletividade, uma vez que o sujeito atomizado, isolado e fechado em si, quer determinar e legislar tudo segundo o seu querer e o seu entendimento.

Conseguimos perceber nos modelos aristotélicos e nas corrupções possíveis – claro, tomando as devidas adaptações e simplificações que apresentei – que uma parte da teoria política se concentra em dois eixos: a detenção do poder e o direcionamento das ações do governante no exercício da sua função.

Toda essa digressão, que traz os antigos filósofos para a discussão, pode nos ajudar a refletir sobre o papel de cada pessoa na defesa do sistema político democrático atual e no seu engajamento. Tendo como base esses princípios, percebemos que o elemento de identificação da comunidade e do reconhecimento do outro como agente e sujeito da política nos coloca como corresponsáveis, tanto na escolha quanto no acompanhamento das ações realizadas pelo "Estado". Se esse é um chamado que advém da nossa própria natureza, compreendendo os seres humanos como animais políticos, em uma outra perspectiva é um postulado de fé dos cristãos.

Pode parecer estranho para alguns, mas o cristianismo nasce como uma religião de perseguidos políticos. Em sua gênese, as igrejas cristãs eram tratadas como inimigas do império e seus membros condenados às mais duras penas de Roma. Contrapondo os poderes vigentes, as cristãs e cristãos eram marginalizados e precisavam celebrar a sua fé escondidos nas catacumbas, casas e cavernas. Enfrentando uma hegemonia política, da qual Jesus também era uma vítima, o cristianismo fortaleceu a colegialidade e a corresponsabilidade pelos membros da comunidade. Os processos iniciáticos, além de extensos, preparavam os neófitos para adentrar em um grupo político-religioso que tinha, como fundamento o amor, a fraternidade e a corporeidade.

Essa configuração política não foi apenas uma organização determinada pelos seguidores de Jesus, mas é um reflexo da própria vida do Cristo que, ao chamar os apóstolos e conviver com eles, determinou papéis, fortaleceu o diálogo, distribuiu funções, indicou os desafios futuros e estabeleceu as bases sociais de uma "comunidade de partilha". Em vários dos episódios narrados nos evangelhos vemos Jesus desafiar a ordem política estabelecida e indicar que ao "poder" deve-se entregar aquilo que a ele pertence. Ao Estado opressor de Roma cabe a dor, a exploração, a guerra e o terror. A mensagem do evangelho é exatamente oposta: compaixão, amor, partilha e diversidade.

Se Jesus foi um revolucionário político, devemos, como seguidores, compreender quais seriam as respostas que Ele apresentaria para os nossos dilemas atuais. Tomando como princípio a longa caminhada política que levou à democracia representativa, com a possibilidade das vozes (majoritárias e minoritária) serem ouvidas no debate público e com uma lista de direitos básicos que resgata uma solidariedade herdeira do humanismo cristão, percebe-se que as conquistas não podem ser entregues aos interesses puramente mercadológicos. Para evitar que um pequeno grupo dite o que deve ser priorizado e que legislem em governem para si, os cristãos devem defender uma democracia plural, diversificada, que está disposta a dialogar e a partilhar. Qualquer forma de autoritarismo e de ruptura com as instâncias representativas vai contra a própria mensagem evangélica que prega a igualdade entre irmãos, o mútuo respeito e a colegialidade. Discursos totalitários que buscam descredibilizar a democracia podem até levar o nome de Deus, mas estão carregados de engano e separação.

O papel das cristãs e cristãos, portanto, diante das ameaças à democracia, é defender a premissa evangélica do amor, da tolerância e da colegialidade. Democracia se faz com a pluralidade de vozes. Os cristãos devem ter medo do discurso único, do absolutismo, da palavra de ordem, da inflexibilidade, da tirania. Jesus foi condenado por um sistema político autoritário que não permitia uma voz dissonante. João Batista dizia, com a voz alta e forte, que prepararia os caminhos do Senhor. Os cristãos devem bradar, em alto e bom tom, que os caminhos da justiça e da paz passam pelo diálogo democrático. Saber quais são os princípios da nossa fé nos deixa fortes diante das armadilhas dos poderosos. Querer torcer o sistema democrático até que ele sangre não é obra daquele que busca "paz e justiça para os oprimidos", mas ferramenta dos opressores e poderosos. No magnificat Maria diz que Ele "derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes". A democracia é o governo de todos, com todas as vozes, porque Deus não fala através das nuvens com a voz de trovão, Ele sussurra com os pequenos, os que passam fome, os que sofrem injustiça, os marginalizados. O cristão deve lutar pela democracia, porque Jesus não veio para reinar em um trono presidencial, ele veio para nos ensinar que o Reino de Deus é possível porque ele é divino. O humano só encontra com o divino na humildade. É a voz do povo que clama por Deus. É a voz de Deus que ressoa na voz da pluralidade. Por isso, cristãs e cristãos, a democracia é o caminho para que o sonho da justiça permaneça aceso. Contra o obscurantismo lembre-se: eis que a luz visita o mundo.

Notas:

1) Inicialmente em Aristóteles a democracia não é a melhor forma de governo, porém releituras antigas e helênicas apontam a democracia como "modelo ideal para a cidade". Relembrando, também, que o nosso modelo democrático é diferente do que o filósofo examina na sua teoria política.

2) Relembramos que, como dissemos anteriormente, para Aristóteles a democracia não é uma forma de governo ideal, mas uma corrupção.

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia, UFMG



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