Religião

24/08/2021 | domtotal.com

O cristianismo e seu serviço à democracia

Lutar contra todo autoritarismo e política de morte é uma exigência de fé

Praça dos Três Poderes, em Brasília
Praça dos Três Poderes, em Brasília Foto (Geraldo Magela/Agência Senado)

Felipe Magalhães Francisco*

"As instituições no Brasil seguem funcionando" é uma frase que temos visto com considerável frequência. A infinda repetição parece mais sinalizar o contrário: se tanto se precisa afirmar algo, é porque há alguma coisa errada. Ameaças corriqueiras à democracia, mais de 19 milhões de brasileiros e brasileiras passando fome e insegurança social, econômica e jurídica não parecem sinalizar o funcionamento das instituições, não de modo adequado, pelo menos. A não ser que o funcionamento das instituições signifique perpetuação de desigualdade e injustiça, a serviço da manutenção da sempre boa situação de nossas elites.

A palavra "golpe" não deixa de nos rodear, como ameaça. É impressionante a desfaçatez de quem defendeu a derrubada de Dilma, por motivos alheios à Constituição, e hoje, para manter no cargo uma pessoa que comete crimes de responsabilidade em série, apregoa "segurança institucional" em defesa de uma pauta político-econômica que está destruindo o país, de modo absurdamente veloz. O intento de tumultuar o cenário político-social é claríssimo, por parte do governo: no lugar de governar, o presidente da república se dedica, diuturnamente, a provocar confusão, enquanto no Congresso Nacional os brasileiros e brasileiras são golpeados em seus direitos de uma maneira acintosa.

Estarrece-nos que setores religiosos expressivos têm compactuado com o atual cenário. Boa parte desses setores está unida a este projeto necropolítico por questões ideológicas: estão unidos numa cosmovisão fundamentalista, violenta e necrófila. Outra parte, engaja-se por interesses econômicos e de poder. E há uma mistura das duas coisas. Cristãos e cristãs deveriam ter aprendido com a própria história: atrelar-se ao poder, por mais boa intenção que se tenha, significa jogar fora o Evangelho de Jesus Cristo. É preciso com urgência que cristãos e cristãs, frente ao desmonte do Estado ao qual temos visto acontecer, fazendo ruir com ele a democracia, tomem uma posição que não envergonhe o Evangelho.

"Entre vós não deve ser assim" (Marcos 10,43) é uma ordem dada por Jesus à qual não devemos nos furtar de cumprir, pois o Reinado de Deus - isto é, o desejo de Deus para a vida do mundo - só se realiza numa dinâmica do despoder, na qual haja vida em abundância, justiça e paz, para todos e todas, sobretudo aos que historicamente tais realidades são negadas. O Reinado de Deus está para além de nossa história, mas não fora dela e, por isso, lutar contra todo autoritarismo e política de morte é uma exigência de fé. O cristianismo não é uma democracia, mas deve estar a serviço dela.

No primeiro artigo de nosso Dom Especial da semana, Daniel Couto reflete sobre a democracia, no artigo A voz do povo é a voz de quem?, no qual interpela a atuação de cristãos e cristãs, frente aos vícios do poder. Segue a reflexão Rodrigo Ferreira da Costa, no artigo O silêncio dos "bons" e a exigência de uma fé profética, em que chama a atenção para vocação profética dos cristãos e cristãs, que precisa se opor aos males que cercam a sociedade, inclusive os instituídos. Por fim, Francisco Thallys Rodrigues reflete sobre a necessidade da postural dialogal, em cenário tão radicalizado pelo discurso de ódio, no artigo A responsabilidade da pregação cristã para com o diálogo, em tempos de intolerância.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com



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