Religião

19/08/2021 | domtotal.com

Ao mesmo tempo que contemplamos os mistérios da vida de Nosso Senhor (Quarto passo)

Como podemos manter nossa atenção focada em Jesus, ao mesmo tempo que pedimos luz para compreendermos o que devemos fazer? Como levar adiante nossa vida, quando a situação parece escapar ao nosso controle?

Na contemplação dos mistérios da Vida de Nosso Senhor, experimentaremos o apelo a uma conversão total, ao mesmo tempo que também se revelará a nós a conflitualidade inerente a todo desejo de imitação de Cristo e seu seguimento
Na contemplação dos mistérios da Vida de Nosso Senhor, experimentaremos o apelo a uma conversão total, ao mesmo tempo que também se revelará a nós a conflitualidade inerente a todo desejo de imitação de Cristo e seu seguimento (Getty Images)

Pe. Alfredo Sampaio Costa SJ

Como podemos manter nossa atenção focada em Jesus, ao mesmo tempo que pedimos luz para compreendermos o que devemos fazer? Como levar adiante nossa vida, quando a situação parece escapar ao nosso controle? Importa aqui considerar mais uma atitude a ser alimentada com cuidado: descobrir a importância decisiva dos Mistérios da Vida de Cristo na vida espiritual.

Lembramos aqui a importância decisiva que a meditação prolongada da "Vita Christi" durante a convalescença em Loyola provocou ao cavaleiro Iñigo de Loyola! Foi para ele uma autêntica escola de oração e de enamoramento a Cristo!

A contemplação dos Mistérios da vida de Cristo não é somente uma "preparação" para o momento posterior de tomar uma decisão na vida, enquanto garante as disposições requeridas para que a escolha seja bem-feita. A perspectiva correta para contemplarmos os mistérios da vida de Jesus é uma perspectiva de convite, vocação e chamado a colaborarmos com Ele e como Ele, motivados exclusivamente pelo amor suscitado pela pessoa de Jesus. A história de Cristo (EE 102) dá a pensar, como a história dá a amar. É ao interior da contemplação da vida do Verbo encarnado que nos é dado conhecê-lo internamente e crescer no amor por Ele[1].

O tempo da contemplação é realmente a entrada na novidade eterna do instante temporal da Encarnação. Neste sentido místico e preciso, o exercitante se torna contemporâneo ao mistério; ele se entrega na contemplação como o sinal eficiente de uma comunhão transformante à história e à vida de Jesus[2].  Essa oração contemplativa (cf. 2Cor 3,18) corresponde ao duplo movimento da vida do Cristo que se entrega e de minha entrada nela. Esta transformação é também a iniciação à vida trinitária. Desde a Encarnação (EE 101 ss) todos os mistérios da vida de Cristo são mistérios da vida trinitária. A Santíssima Trindade se manifesta, aliás, solenemente em duas teofanias ligadas à oração de Jesus, uma na sua entrada na vida pública (quinto dia: EE 158.273) e outra diante da subida a Jerusalém (EE 284). A vida humana de Cristo nos introduz a partilhar da sua glória divina.

O papel da contemplação na eleição: Nos Exercícios Espirituais, todo o processo de busca da vontade divina é vivido integralmente no clima contemplativo oferecido pela vida pública de Jesus. Nestas cenas profundamente vitais e livres encontraremos o que Deus quer em concreto para nós, à medida em que contemplamos como Jesus entendeu, viveu e experimentou a vontade de Deus na própria vida. A contemplação continuada dos Mistérios da vida pública de Cristo nos Exercícios, desde o quinto ao décimo-segundo dia - com possibilidade de alargar ou encurtar (Cf. EE 162) - tem a função primordial de ir transfigurando e configurando nossa vida segundo o estilo de Jesus, até chegar a aceitar, no momento da eleição, que o eixo estruturante de sua vida já não seja "o que eu quero" (sua vontade própria), mas sim "o que Deus lhe dá a querer", o que Deus coloca na sua vontade (a vontade de Deus sobre a sua vida). A maneira como Jesus trilhou seu caminho de forma livre na descoberta e seguimento da Vontade do Pai vai servir como polo objetivo a nós, para que nossa "reflexão para tirar algum proveito" seja inspirada no caminho a que somos convidados a seguir, obedecendo às moções suscitadas e discernidas[3]. 

Buscar e encontrar a vontade de seu Pai foi sempre a paixão de Jesus, seu desejo unificador e central, o seu alimento. Toda a vida de Jesus gira em torno à realização da vontade do Pai e de levar a cabo a sua obra (Jo 4,34; 5,19.30.36; 7,28; 8,28; 10,25; 12,49; 13,3; 14,31)[4]. Este plano se prolonga em cada um de nós. Paulo nos exorta a termos os "mesmos sentimentos (atitudes) de Cristo Jesus" (Fl 2,4). Trata-se de passar à imitação e ao seguimento de Cristo Jesus por meio do discernimento. Há que saber descobrir, buscar e valorizar as atitudes de Jesus como indícios e sinais do que pode ser a vontade de Deus para nós[5].

Na contemplação dos mistérios da Vida de Nosso Senhor, experimentaremos o apelo a uma conversão total, ao mesmo tempo que também se revelará a nós a conflitualidade inerente a todo desejo de imitação de Cristo e seu seguimento. Conflitos com os interesses desse mundo e com as estruturas com que os homens defendem os seus interesses. Assim sendo, a oração durante o tempo da Eleição se reveste de dramaticidade à medida em que contemplamos como o próprio Jesus entrou em conflito com as práticas institucionais e os interesses dos grupos dominantes do seu tempo. O discernimento para seguir Jesus nos levará quase inevitavelmente também ao conflito e à Paixão (cf. Mt 10,24; Lc 14,27). Quem conduz a contemplação é o Senhor. A técnica e o modo que Inácio propõe são somente um instrumental. Para contemplar é preciso ser capaz de apostar no gratuito, no que é, aparentemente, ineficaz[6]. 

Entrar na História e na Vida do Cristo: Como se exprime esse caminho espiritual onde a vida do exercitante se une à história do Verbo encarnado? Os termos utilizados a esse propósito são os seguintes: conhecer, seguir, imitar, servir e amar[7].  Contemplar os mistérios da vida de Cristo Nosso Senhor é sermos iniciados à sua história, é segui-lo, hoje, unido a ele, glorioso ao mesmo tempo que estigmatizado, Senhor e Servo para a eternidade. A figura paradoxal do Verbo encarnado dita assim o ritmo espiritual da história da salvação na qual somos convidados a entrar. Este termo retorna durante toda a Segunda Semana (EE 95. 104. 109. 130. 175. 179).  Seguir o Cristo é deixar-se iniciar à sua história; é, depois dele, percorrer o caminho da "vida de Cristo N. S." (EE 4). Se se trata de história, trata-se de liberdade. O mesmo preâmbulo (EE 104) fala de "amor". A palavra "amar" só aparece uma vez no texto da segunda semana. Mas esse pedido deve ser repetido cinco vezes por dia: ele determina o alcance de toda a oração. Sem amor a Cristo não existe seguimento! 


[1] Albert Chapelle, "La contemplation evangelique et l'application des sens" (EE 118-126), em: AA.VV, Les Exercices Spirituels d'Ignace de Loyola. Un commentaire littéral et théologique, Bruxelles: Éditions de l'Institut d'Études Théologiques 1990, 217. 

[2] J. Lepers, L'application des sens, Christus 124 (hors série) (1984) 99-110. 

[3] Cf. Ivan Restrepo Moreno, La elección y la reforma de vida desde el texto ignaciano, Apuntes Ignacianos 58 (enero-abril 2010) 8-9.

[4] Javier Melloni, Itinerario hacia una vida en Dios, EIDES 30 (2001) 33.

[5] Josef Vives, Vida cristiana y discernimiento, EIDES 40 (2004) 17.

[6] Cf. MaríaLuz de la Hormaza, La contemplación ignaciana, camino de encuentro, Manresa 81 (2009) 114-115.

[7] Albert Chapelle, "La Suite des Mystères", 230. 

Pe. Alfredo Sampaio Costa SJ é professor e pesquisador no departamento de Teologia da FAJE

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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