Brasil

20/08/2021 | domtotal.com

Pátria ferida

Vivenciamos um melancólico e dissaboroso cenário cultural

A necessária reconstrução do Sistema Nacional de Cultura vai levar anos e exigirá esforço concentrado e articulado, trabalho extenso e complexo, de largo espectro, e muita dedicação, ânimo, crença e devoção
A necessária reconstrução do Sistema Nacional de Cultura vai levar anos e exigirá esforço concentrado e articulado, trabalho extenso e complexo, de largo espectro, e muita dedicação, ânimo, crença e devoção (IPHAN)

Eleonora Santa Rosa*

O episódio do anúncio da venda do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro, numa espécie de leilão de imóveis da União, é o retrato fiel e exacerbado do modus operandi do governo federal, que devota, diariamente, o mais absoluto desprezo e desrespeito à Cultura, desta feita, com a inclusão, por ignorância ou má fé, de um bem cultural tombado, de enorme significado e singularidade para o país, reconhecido internacionalmente.

As declarações que se seguiram por parte das autoridades envolvidas com o listão de edificações públicas à venda indicam, além da obtusidade habitual, uma ausência de compreensão e conhecimento sobre os pilares e os símbolos da modernidade em nosso país. O silêncio obsequioso da Secretaria de Cultura e dos órgãos responsáveis pela guarda do patrimônio nacional soam como uma traição aos princípios, às responsabilidades constitucionais que lhes são pertinentes.

Culminância da deformação governamental que assistimos e sofremos diariamente, em meio a conturbadas declarações, provocações e afrontas cujos estragos e corrosões minam a democracia brasileira, golpeada em ritmo crescente.

A revolta, a tristeza e a inconformidade com o encaminhamento que estava (?) em curso geraram um surpreendente e abrangente movimento de protesto e mobilização dos mais diversos segmentos da sociedade, com reuniões, abaixo-assinados, manifestos, artigos, entrevistas de grande alcance e repercussão, sinalizando que há limites, há resistência, há providências legais, reais, concretas, para obstaculizar, na Justiça, a sandice em processo.

Ao que parece, o Palácio foi retirado do rol de comercialização. Revés este que nos dá um pouco de esperança, não em relação a qualquer mudança de mentalidade ou de tratamento do governo federal no tocante às suas obrigações culturais fixadas na Carta Magna - pelo contrário, continuarão a política da dizimação de acervos, arquivos, de tudo o que concerne à memória, à formação da nossa cultura -, mas na capacidade de sensibilização e aglutinação de forças opositoras à destruição em marcha.

Vivenciamos um melancólico e dissaboroso cenário cultural pontuado, dentre outros, pelas repulsivas ações do presidente da Fundação Palmares, pelo posicionamento negligente dos responsáveis pela gestão cultural em nível federal, pelo desvio de recursos do Fundo Nacional de Cultura para uma televisão comercial (Rede Record), pela precariedade da conservação de monumentos e equipamentos, pela paralisação da aprovação de projetos no âmbito da Lei Rouanet, pelo esvaziamento do papel da CNIC (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura), pelos graves problemas na Ancine, em suma, pelo desmanche do aparato institucional do setor. Trata-se de um quadro de horror, de desamor, de solapamento sem precedentes. Perto do que está ocorrendo agora, a terra arrasada promovida pelo triste período Collor chega a parecer suave (obviamente, não foi e as consequências, nefastas, foram sentidas por anos).

A necessária reconstrução do Sistema Nacional de Cultura vai levar anos e exigirá esforço concentrado e articulado, trabalho extenso e complexo, de largo espectro, e muita dedicação, ânimo, crença e devoção. Ainda, extenuados da luta da semana, precisamos nos recompor o quanto antes, pois os próximos rounds deverão ser intensos e violentos, à semelhança dos últimos acontecimentos.

Por ora, que aprendam os algozes a lição decantada pelo velho sábio poeta (Affonso Ávila): "pátria e patrimônio têm a mesma raiz semântica", não estão à venda.

*Eleonora Santa Rosa - Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ex-presidente do Conselho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA, instituiu em sua gestão o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais - CONEP. Implantou a primeira fase do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR. Concebeu e implementou inúmeras ações e iniciativas referenciais no campo do Patrimônio Cultural, da Educação Patrimonial e de museus. Gestora, consultora e estrategista da área da Cultura, é autora de diversos artigos e do livro Interstício.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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