Religião

26/08/2021 | domtotal.com

Há 15 anos se deu a Páscoa de dom Luciano, o bispo que amou o Cristo pobre

Dom Luciano Mendes de Almeida se converteu em doutor 'amoris causa'

O arcebispo de Mariana Luciano Mendes de Almeida.
O arcebispo de Mariana Luciano Mendes de Almeida. (Antônio Cruz/ABr)

Gabriel Vilardi*

Na mensagem à Cúria Romana do Natal de 2020, o papa Francisco disse que não se deve temer a crise, mas abraçá-la e pôr-se a caminho. Lembrou que este é um tempo do Espírito, porque "o Evangelho é o primeiro a colocar-nos em crise". Ao concluir, exortou a um serviço generoso no anúncio da Boa Nova, sobretudo aos pobres e citou dom Helder Câmara, "aquele santo bispo brasileiro" que dizia: "quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: 'Por que tanta pobreza?', chamam-me 'comunista'".

Em um dia 27 de agosto três santos bispos brasileiros fizeram a sua travessia definitiva ao encontro da Trindade de Amor. Três profetas para a Igreja do Brasil e da América Latina. O primeiro a encerrar a sua peregrinação terrestre, foi o já citado dom Helder Câmara (1999), o último dom José Maria Pires (2017). Neste entretempo (2006), dom Luciano Pedro Mendes de Almeida, SJ, o bispo dos pequenos.

Completa-se, pois, quinze anos da Páscoa do arcebispo jesuíta. Pode-se dizer que foi um destes pastores que não temeu a crise, como insistiu o papa Francisco. Em tempos de polarizações extremistas e ataques violentos, sua presença faz falta. Dotado de uma enorme capacidade de articulação, dom Luciano soube superar os momentos de tensão e construir consensos que pareciam impossíveis. Um verdadeiro homem do diálogo e da reconciliação.

Como disseram de Inácio de Loyola, fundador da ordem dos jesuítas, dom Luciano também poderia ser chamado de "contemplativo na ação". E, portanto, muitas seriam a perspectivas para aprofundar: formador jesuíta, professor de filosofia, líder do episcopado brasileiro, intelectual público, mestre espiritual... Mas, como afirmou o cardeal-arcebispo emérito de Belo Horizonte, dom Serafim Fernandes, "em dom Luciano, a caridade flui".

Ao longo de seus mais de 75 anos desenvolveu um fecundo e frutífero apostolado sempre fundado em uma intensa vida de oração. Como confidenciou uma vez, em sua coluna na Folha de São Paulo (7/10/200), "no mais profundo da consciência, nunca senti o vazio nem a escuridão". Tinha a certeza que "Deus sempre estava presente, confidente de todas as horas, sustentando a esperança e dando a paz".

Apaixonado companheiro de Jesus, soube encarnar, com simplicidade e doação, a mística do serviço. Forjado nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, aprendeu a discernir a vontade de Deus com grande ânimo e generosidade. Como confessa anos mais tarde, será uma entrega na radicalidade do amor que irá marcar toda a sua vida. Citando o padre Leonel Franca, SJ dizia: "Com o Absoluto não se regateia. Quem não dá tudo, não dá nada".

Nos longos anos em que esteve em Roma, onde fez Teologia (1955-1959) e o doutorado em Filosofia (1960-1965), na Pontifícia Universidade Gregoriana, dom Luciano fará uma experiência fundante. Passa a visitar os jovens infratores do Instituto Gabelli e ali encontra o sentido do seu ministério. Compreende que o "sacerdote é ordenado antes de tudo para aqueles que têm necessidade maior da presença do Senhor Jesus".

O então jovem padre Mendes deixou-se interpelar pela situação desumana do cárcere e assustou-se com os sinais recorrentes de violência que encontrou. Provavelmente, ficaria ainda mais chocado com a realidade atual do sistema prisional brasileiro. O país possui a terceira maior população encarcerada do mundo.

O índice de superlotação das penitenciárias chega a inaceitáveis 54,9% acima da capacidade de acolhimento. Como se não bastasse, conforme denúncias frequentes da Pastoral Carcerária, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), os quase 750 mil presos são submetidos a condições indignas e sistêmicas violações dos Direitos Humanos.

Chamado por dom Paulo Evaristo Arns e nomeado pelo papa São Paulo VI, dom Luciano tornou-se, em 1976, bispo-auxiliar de São Paulo. No ano seguinte, desejoso de dar alguma resposta à situação das crianças e dos adolescentes abandonados, funda a Pastoral do Menor. Acreditava que "a opção preferencial pelo menor carente será o sinal verdadeiro do nosso respeito à dignidade humana".

Amigo dos marginalizados, não tinha receio de questionar as injustas estruturas sociais. Para além de "ações isoladas de compaixão pela criança faminta e abandonada", era consciente de que "isso impõe mudanças em nosso modo de ser". E que é preciso aprender "a viver simplesmente para que os outros possam simplesmente viver". Essa convicção irá marcar seu estilo de vida sóbrio e frugal.

Ensinava que o comprometimento com as crianças vulnerabilizadas ajudaria "a encontrar o sentido da vida e a experiência da gratuidade do amor". Sua visão de fé encarnada não compactuava com um seguimento de Jesus alienado e intimista. Para o religioso, o cristão deve se esforçar "para viver a caridade neste mundo, fazendo o bem e procurando transformar a sociedade, a fim de que ela seja mais justa e fraterna".

Após exercer dois mandatos como secretário-geral da CNBB (1979-1987), foi eleito seu presidente (1988-1995) e nomeado arcebispo de Mariana (1988). Nessa época, como nos dias de hoje, os povos indígenas eram fortemente massacrados. Mesmo com uma agenda lotada de compromissos institucionais, dom Luciano fez-se presença profética junto a esses irmãos crucificados. Com a palavra o agente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Egon Heck:

"Quando os missionários foram expulsos da Missão Catrimani em 1988, dom Luciano não hesitou em tomar o avião e ir a Roraima para prestar pessoalmente sua solidariedade aos missionários e ao bispo daquela Diocese, dom Aldo. Mas de maneira especial ele assumiu a causa, a luta e os direitos do povo Ianomâmi. Em função disso, retornou à área em outros momentos".

Afável no trato, era um interlocutor calmo e atencioso, sempre pronto a salvar a proposição do próximo. Podia enfrentar longas discussões e debates calorosos, mas nunca perdia a tranquilidade. Todavia, jamais dobrou-se às perseguições aos oprimidos. Com os povos indígenas, não foi diferente. Talvez seja um dos raros momentos em que o bispo jesuíta tomado de indignação, trovejou com corajosa impaciência, segundo relato do missionário indigenista:

"Quando o Cimi foi caluniado, 1987, dom Luciano, desde o primeiro momento, denunciou a armação [...]. Quando a partir das denúncias, se forjou a Comissão Parlamentar mista de Inquérito contra o Cimi, vi dom Luciano, de dedo em riste, desafiando os parlamentares a provar qualquer ação dos povos indígenas ou dos missionários do Cimi contra a soberania nacional e outras acusações de que estavam sendo vítimas".

De fato, durante sua vida, dom Luciano se converteu em doutor amoris causa, isto é, um "mestre por causa do amor e do serviço", como apontou o padre João Batista Libânio, SJ, na justa homenagem prestada pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em maio de 2006.

Por amor ao Cristo pobre, dom Luciano tornou-se discípulo dos empobrecidos, como demonstra uma última e reveladora confissão do bispo: "Eu nunca havia pensado que pudéssemos aprender tanto dos pobres. Somente depois de alguns anos entendi que eles são nossos mestres, realmente, porque nos ensinam a descobrir, com a simplicidade de uma criança, o que é o coração humano". E, assim, totalmente disponível ao outro, foi luz nas trevas das injustiças... Oxalá seu testemunho continue inspirando muitos corações comprometidos na construção de um mundo mais justo e fraterno!

*Jesuíta; bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP - São Paulo/SP) e graduando em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE - Belo Horizonte/MG). E-mail: gabrielvilardi@hotmail.com



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