Brasil

24/08/2021 | domtotal.com

Depoimento de Catori na CPI levanta suspeitas sobre atuação da Belcher

Empresa ofereceu doses da vacina chinesa ao Ministério da Saúde pelo valor mais caro dentre todos os imunizantes

Empresário Emanuel Catori admitiu tentativa de 'comissionamento' na venda
Empresário Emanuel Catori admitiu tentativa de 'comissionamento' na venda (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid confrontou o empresário Emanuel Catori, sócio da Belcher Farmacêutica, com informações que levantam suspeitas sobre a atuação da empresa ao negociar com o Ministério da Saúde.

Emanuel Catori é mais um personagem da CPI que tentou vender vacinas para o governo federal e tem ligações com o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). A Belcher atuou na tentativa de vender 60 milhões de doses da Convidecia, produzida pelo laboratório chinês CanSino, ao Ministério da Saúde.

Catori iniciou seu depoimento à CPI alegando que a empresa não atuou como 'mera" intermediária, facilitadora ou atravessadora, mas como representante legal do laboratório chinês CanSino no Brasil. "A utilização de alguns termos pode ser interpretada de forma pejorativa", disse Catori, segundo quem o trabalho da Belcher não seria uma "aventura", mas "sério e profissional".

"(A representante legal) é responsável por assumir riscos farmacológicos e todas as obrigações legais e sanitárias relativas à vacina, num contexto ainda mais complexo e arriscado da pandemia. Além da legislação, há resolução da Anvisa que estabelece que o pedido de autorização de uso emergencial deve ser solicitado por representante legal da empresa no Brasil", afirmou o empresário em depoimento nesta terça-feira (24). De acordo com ele, a Belcher foi representante da empresa chinesa entre 19 de abril a 10 de junho deste ano.

Durante o depoimento na comissão, Catori não quis revelar os termos da negociação com a CanSino, evocando o direito ao silêncio decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O vice-presidente de Negócios Internacionais da empresa chinesa, Pierre Morgon, afirmou ao jornal Valor Econômico que a empresa de Catori tentou negociar uma comissão para intermediar a negociação.

A fabricante rompeu os contatos alegando uma série de "delitos" da Belcher, investigada em uma operação no Distrito Federal. Após os senadores apontarem contradição entre o depoimento e a afirmação do laboratório chinês, Catori insistiu no silêncio sobre o valor "comissionamento", mas admitiu a tentativa. "Claramente eu estaria ganhando uma comissão na questão da venda. Eu não estaria trabalhando de graça", disse.

A negociação do governo com a Belcher segue o mesmo roteiro observado em outras duas vacinas na mira da CPI, a Covaxin e a Sputnik V: vacinas mais caras produzidas por laboratórios internacionais e negociadas por meio de intermediários no Brasil com elos com Ricardo Barros. E isso após o governo Bolsonaro adotar uma postura mais fechada com outros agentes, como a Pfizer e o Butantan.

No entanto, Catori afirmou na CPI que o deputado e líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), não participou de reuniões com o governo sobre a vacina Convidencia, do laboratório chinês CanSino, que era representado pela Belcher no Brasil durante um período no primeiro semestre.

Ele ainda afirmou que a audiência da qual participou com a presença de Barros não discutia vacinas e ainda contava com a presença de outras seis empresas. “A audiência foi registrada pelo ministério. Não se tratou portanto de agenda às escuras e sem registro sobre a vacina Convidencia”, disse.

A declaração vai ao encontro do que falou Barros em depoimento à CPI. Na ocasião, o líder do governo afirmou que a audiência teve registros publicados na internet. "Tem uma audiência que está no Flickr do Ministério da Saúde, com todos as fotografias, onde o CEO da Belcher foi tratar com o ministro sobre um medicamento chamado Avifavir, que é um antiviral que foi distribuído largamente na Rússia, segundo eles com um efeito muito positivo" disse Barros quando esteve na comissão.

A palavra "comissionamento" chamou atenção dos parlamentares. Os senadores lembraram imediatamente da atuação de representantes da Davati, que ofereceram vacinas sem comprovar a capacidade de doses e acusaram o governo de pedir propina. "Mais uma semelhança com o Dominghetti, uma comissão por dose", disse o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL).


Agência Estado



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