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28/08/2021 | domtotal.com

Cidade palestina impulsiona resistência apolítica à ocupação israelense

Habitantes fazem barulho e projetam luzes na colina vizinha para que os israelenses, exaustos, abandonem o local

Manifestantes palestinos usam laser contra colonos israelenses no assentamento de Eviatar, na cidade de Beita, Cisjordânia
Manifestantes palestinos usam laser contra colonos israelenses no assentamento de Eviatar, na cidade de Beita, Cisjordânia (JAAFAR ASHTIYEH/AFP)

Na cidade palestina de Beita, na Cisjordânia, um peculiar show ao ar livre acontece toda a noite. Sentados em cadeiras de plástico e armados com laser, lanternas e alto-falantes, os habitantes fazem barulho e projetam luzes na colina vizinha para que os israelenses, exaustos, abandonem o local.

Desde maio, Beita, ao norte da Cisjordânia, quer encarnar uma nova forma de resistência à ocupação israelense, que seja independente de partidos políticos.

"Aqui há uma só bandeira: a da Palestina. Não tem Fatah, Hamas, ou FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina). Não há líderes carismáticos. Tentamos fazer de baixo o que os líderes não conseguem fazer de cima", disse Said Hamayel, um dos manifestantes.

A mobilização dos 12.500 habitantes desta cidade gerou frutos: no início de julho, os colonos israelenses que instalaram suas caravanas na colina em frente a Beita foram substituídos por soldados israelenses.

Criado sem a aprovação das autoridades israelenses, o assentamento de Eviatar foi evacuado após um acordo alcançado entre colonos e governo, enquanto este decide sobre os direitos de propriedade desta colina da Cisjordânia. Israel ocupa este território palestino desde 1967.

Todas as colônias instaladas nos territórios palestinos são ilegais para o direito internacional. O governo israelense autoriza a instalação de boa parte desses assentamentos, mas há uma pequena parte, as chamadas "colônias selvagens", que nascem sem nenhum tipo de permissão das autoridades, como foi o caso de Eviatar.

 "Enlouquecer os soldados"

Assim que os colonos se foram, os moradores de Beita poderiam ter abandonado a luta, mas os protestos continuam com o objetivo de "enlouquecer" os soldados que agora patrulham a colina e garantir que a colônia nunca volte a ser reconstruída.

Os protestos provocaram confrontos violentos entre palestinos e militares, que não hesitaram em responder abrindo fogo. No total, mais de 700 palestinos ficaram feridos, e ao menos sete morreram desde maio nesses confrontos com os militares, segundo o Ministério da Saúde palestino.

Em 2007, depois que o Hamas ganhou as eleições na Faixa de Gaza e assumiu as rédeas deste enclave palestino, houve graves confrontos entre este movimento islamita e o Fatah, de Mahmud Abbas. Desde então, Gaza e Cisjordânia, já afastadas geograficamente, funcionam quase como duas entidades separadas.

A guerra em Gaza reacendeu a causa palestina na Cisjordânia. "Pela primeira vez em anos, a juventude palestina não se viu como vítima (...). Os palestinos não só recebiam golpes, também resistiam", disse Jalaa Abu Arab, de 27 anos, editora-chefe do portal de notícias palestino Dooz.

Atualmente, os jovens querem "personalidades com convicções fortes, o que não quer dizer que apoiem o Hamas", reitera.

Em um momento em que a reconciliação entre Hamas e Fatah parece impossível e os líderes próximos a Abbas culpam o Hamas de querer estender sua influência na Cisjordânia, Said Hamayel sonha com que o "modelo" de Beita seja imitado em outros lugares dos territórios palestinos. "Há problemas no topo, mas, aqui no terreno, os palestinos se unem", afirma.


AFP



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