Religião

26/08/2021 | domtotal.com

Submissão da mulher? Bispos se veem na obrigação de dirimir polêmica

Texto bíblico usado na missa causa debate em Portugal por conta da situação da mulher no Afeganistão

Conferência episcopal precisou explicar que 'textos não se mudam, educam-se os leitores', trazendo a exegese correta
Conferência episcopal precisou explicar que 'textos não se mudam, educam-se os leitores', trazendo a exegese correta (Aref Karimi/AFP)

Uma passagem de uma carta de São Paulo, lida na missa do passado domingo, tem provocado polêmica, levando a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) a emitir uma nota de esclarecimento.

Foram feitos vários comentários nas redes sociais, criticando o texto, principalmente à luz das preocupações que têm sido manifestadas pela situação das mulheres no Afeganistão com a chegada ao poder dos talibãs. "Sem entrar em polêmicas, é preciso ver com atenção alguns aspectos da leitura de São Paulo, procurando fazer justiça ao sentido do texto", começa por dizer o texto publicado no site do CEP.

"Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela… Assim devem os maridos amar as suas mulheres, como os seus corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de fato, odiou jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este mistério, digo-o em relação a Cristo e à Igreja", lia-se na passagem bíblica – tirada da Carta aos Efésios – que integrava as leituras da eucaristia do último domingo.

"Tenha-se em conta que Paulo se situa no contexto legal do direito familiar romano, que concedia melhores direitos às mulheres do que a maioria das culturas da época, mas que não deixava de pôr em relevo o papel do marido como 'pater familias – pai de família', como titular da família no seu conjunto e garantia dos direitos e deveres de cada um e o seu funcionamento relacional e social", lê-se na nota, que alerta para o fato de este quadro ter permanecido "nas gerações sucessivas, concretamente no direito português, até há pouco tempo".

Para o CEP, "o que causa escândalo, nos dias de hoje, é o conceito de 'submissão' proposto à mulher. Não se trata, porém, de algo exclusivamente aplicada às mulheres, mas a todos. A leitura começa precisamente por dizer: "Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo". Em Paulo, esta submissão não significa menor importância ou subserviência, mas o dar prioridade aos outros, como forma de atenção e cuidado; não centrar a vida e o pensar em si próprio, mas no amor que deve regular todo o relacionamento entre pessoas".

Paulo aplica este quadro jurídico-social à instituição familiar, como princípio da mútua atenção e cuidado, afirmando duas coisas. Em primeiro lugar, dê-se o devido cuidado e prioridade (submeta-se) à relação familiar que tem como representante social o marido, na sua relação com a esposa. Este princípio básico, que se aplica à mulher, mas igualmente aos outros membros da família, é completado com aquilo que o "pai de família" representa: o amor, antes de mais aplicado ao amor entre os esposos: "Maridos, amai as vossas esposas, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela".

Esta proposta, necessariamente complementar à que é dirigida à mulher, deve ser vista com duas perspectivas que aclaram todo o texto. Primeiramente, o "amor" e a "submissão" não se aplicam apenas a um dos esposos, mas são a lei básica do relacionamento humano, segundo o Evangelho: "Saberão todos que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros". Em segundo lugar, a medida do amor é reportada a Cristo, que "amou a Igreja e Se entregou por ela".

Na nota divulgada, a própria CEP questiona por que razão, tendo em conta a possibilidade de "interpretações incorretas", não se muda o texto?

"A pergunta tem a sua razão de ser, mas é claro para a Igreja e para quem quiser interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos: os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los", considera a Conferência Episcopal, acrescentando que, "por exemplo, não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à mentalidade atual e até, em alguns casos, podem causar escândalo".

"Isso seria cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única. É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época", adianta a CEP, frisando que "a Palavra de Deus permanece viva e atual e é importante que seja escutada sempre com a sua sonoridade original".


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