Brasil

26/08/2021 | domtotal.com

Granja Viana, metáfora do Brasil

Enclave de São Paulo é microcosmo concentrado do que se passa na Terra Brasilis

Empreendimento imobiliário em Granja Viana
Empreendimento imobiliário em Granja Viana (Reprodução)

Ricardo Soares*

Amanhece na Granja Viana e muitos de nós estamos cansados, perdendo até a disposição de sentar em um banco de praça ou caminhar a esmo diante do crescente volume do tráfego, da insegurança e dos assaltos que agora aqui, infelizmente, estão constantes.

Amanhece na Granja Viana e eu, primeiro, vou tentar explicar para vocês, que não são da Grande São Paulo, o que é essa tal Granja Viana que vem sendo dilapidada e descaracterizada nos últimos anos pela sanha de gafanhotos da especulação imobiliária, falta de consciência humana e ambiental que acaba por transformar o perfil da população local. Vão-se os refugiados ambientais que aqui procuravam sossego e chegam alpinistas sociais, que desfilam carros de marca e derrubam árvores, e pessoas não entendendo o que era para ser, de fato, o sonho feliz de comunidade que havia na Granja Viana.

A Granja Viana é uma espécie de enclave – fundamentalmente de classe média, média alta e alguns ricos – situado no extremo oeste de São Paulo já nos limites de Cotia, Carapicuíba e um pedaço de Jandira. Tudo aqui no passado foi a fazenda de um tal Viana. Depois de tudo, loteado, virou uma sucessão de casas de campo, a princípio habitada por gente de estilo de vida alternativo ao da capital. Depois começaram a surgir, inclusive, condomínios fechados e bolsões como a Fazendinha, onde eu moro há quase 19 anos.

Com o tempo, a metrópole da qual queríamos fugir foi sendo trazida para cá com shoppings, lojas, centrinhos comerciais, nada de calçadas, acostamentos, ciclovias ou prioridade para pedestres. Ao contrário. E o tal sonho feliz de cidade foi virando outra realidade que anda cada vez mais caótica nos tempos pandêmicos, a ponto de eu recomendar que, se alguém estiver interessado em vir para cá, é melhor se informar muito bem das hediondas condições de trânsito cada vez mais difíceis.

E por que falo de uma realidade tão especifica do meu pedaço num espaço eminentemente mineiro e brasileiro que é o Dom Total? Porque a Granja Viana é o mais do mesmo que acontece nos grandes condomínios que deveriam ter qualidade de vida ao redor de BH, Rio de Janeiro, Brasília e, lógico, São Paulo, onde parece que esse life style começou. Sim life style, escreva assim, porque anglicismos sempre caem bem entre jecas, como muitos que habitam as Granjas Vianas do Brasil.

O ser humano, bem o sabemos, é o único animal sobre a face da Terra que trabalha forte pela sua própria extinção. Vemos isso todos os dias no atacado e no varejo. Nesse contexto, a Granja Viana é amostra exemplar, microcosmo concentrado do que se passa na Terra Brasilis como um todo. Uma profusão de gente egoísta mais preocupada com segurança, câmeras, manutenção de privilégios do que em ajudar o próximo, mesmo que o próximo, necessitado, esteja bem próximo. Só ver como a maioria trata seus empregados domésticos. Sei de calotes e maus tratos hediondos. Mas não vou generalizar. Na Granja há também os resistentes. Os combatentes que dão as costas à boçalidade bolsonarista que aqui encontrou terreno fértil. O "genô" venceu de lavada as eleições por aqui, diga-se de passagem.

Diante desse panorama tão desolador me vi recentemente jogando a toalha para começar, lentamente, a ajeitar meu embornal de vida e procurar outros rumos. O pedaço da Granja onde moro ainda é lindo, mas está cada vez mais sitiado. Tenho, por sorte, vizinhos próximos magníficos e amigos, mas eles também andam desolados. Parece que a Granja virou a metáfora do Brasil e não estou exagerando. Amanhece na Granja e, mesmo muitos de nós estando cansados, damos graças a tantos pássaros, bichos e plantas que nos cercam. Mas eles, como nós, estão também acuados. Por que no nosso país somos condenados a viver apenas dos passados? Por que quase nada muda para melhor? Estamos virando um imenso vácuo. Mesmo assim, indiferente a esse sentimento, amanhece lindamente na Granja Viana. E, vá lá o lugar comum: enquanto ainda amanhecer assim, haverá de existir esperança.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Publicou 9 livros,dirigiu 12 documentários. Mora há quase 19 anos na Granja Viana, SP

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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