Cultura

27/08/2021 | domtotal.com

Expirar

Expirar, volver e centrar no que importa

'A janela aberta', do pintor espanhol Juan Gris
'A janela aberta', do pintor espanhol Juan Gris (Reina Sofía/Wikimedia)

Eleonora Santa Rosa*

Mês precedente ao aniversário de pré-60, ainda na marcha dos 50, mais para os 9 fora do que dentro, quase virada que engendra outras paradas, não sem antes o 'purgatório' do inferno astral, algo dantesco, em tempos pandêmicos, que, ao que se vê, prolongar-se-ão por mais tantos outros tempos. Assim, dado o diapasão, passados um ano e meio de reconfiguração absoluta da rotina, vida, mudança de casa, de ares, olhares e percepções, a celebração da esperança de muitos dias a mais de vida e de descobertas de paisagens humanas e culturais, naturais e criadas, em cidade cindida, de exuberância cenográfica e beligerância física, da extrema necessidade à ofensiva ostentação, tramas de conflitos exacerbados em meio à ginga, ao por do sol que traz, a cada dia, a promessa do paraíso edênico em louvação de praia e mar.

Semana de evento importante, de segunda dose no braço, de vacina redentora, possibilitadora de vida, de extensão para novos momentos, de permissão de planos de ampliação de jornadas de apostas e surpresas de trabalho redirecionado para territórios de experimentação, sem estabilidade garantida pelo de sempre, mas com a segurança interna construída pelas batalhas ao longo da profissão originalmente escolhida, que a vida conduz, no seu próprio justo tempo, para transformação.

Antídoto contra a modorra, a gangorra fantasmagórica bruta do cenário pátrio desfigurado pelo desmesurado, afeto aos maus modos e à curteza de ideias, contaminado por subterrâneos pestilentos de sentimentos e ações de odor insuportável.

Máscaras em voga para inúmeros tipos de poluição, agressão, vírus, contaminação por pessoas de má índole imersas em inveja e destruição. Mentiras em pirâmide que não há de dar em boa construção. Queda à vista, precipício que principia o limite ao abuso verbal e à agressão aos pilares da democracia, da cidadania, dos valores humanos.

Expirar, volver e centrar no que importa, no compromisso maior com o que permanecerá, com a arte que transcende as barbáries momentâneas e estendidas da história, que muda, de uma forma ou de outra. Banhar-se no Lete, é preciso esquecer, largar a bagagem, o peso de anos, limpar-se das ilusões, dissabores e vicissitudes. Da água, renascer em ser de leveza e sabedoria, na ciência da paz e da poesia:

Este meu corpo, que alguém me deu,
Que fazer dele, tão um, tão meu?
Respirar, este quieto prazer
- Digam-me - a quem devo agradecer?
Sou jardineiro ou só flor que fana?
Não estou só na prisão humana.
Sobre as vidraças do infinito
Eis meu calor, meu sopro inscrito.
Minha marca está ali impressa,
Mesmo que não se reconheça.
Que escoe a borra desta hora,
Ela está ali - não vai embora.

Óssip Mandelstam - década de 1930
Tradução Augusto de Campos

*Eleonora Santa Rosa - Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ex-presidente do Conselho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA, instituiu em sua gestão o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais - CONEP. Implantou a primeira fase do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR. Concebeu e implementou inúmeras ações e iniciativas referenciais no campo do Patrimônio Cultural, da Educação Patrimonial e de museus. Gestora, consultora e estrategista da área da Cultura, é autora de diversos artigos e do livro Interstício.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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