Religião

27/08/2021 | domtotal.com

Há 22 anos morreu dom Helder Câmara, o bispo sem fronteira

É significativo entender a vida de Dom Helder a partir do lugar que viveu até a sua morte: a Igreja das Fronteiras

Dom Helder, em seu ministério episcopal, tinha um lado e era o dos mais pobres e necessitados
Dom Helder, em seu ministério episcopal, tinha um lado e era o dos mais pobres e necessitados (Reprodução)

Carlos César Barbosa, SJ*

Dom Helder Câmara é uma daquelas personalidades sobre a qual muito já se escreveu. A sua importância para os campos da educação, política, democracia, espiritualidade, entre outras áreas, faz com que continuemos a lembra-lo como alguém que tem sempre a nos dizer algo, sobretudo nos momentos mais conturbados e decisivos, seja eclesial ou politicamente.

Há exatos 22 anos morria o pastor da arquidiocese de Olinda e Recife, lugar a que serviu durante os anos de 1964 a 1985. Nascido em Fortaleza, no Ceará, em 1909, esse homem franzino – e ao mesmo tempo firme em suas convicções e fé – foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e um grande defensor dos Direitos Humanos, o que lhe rendeu diversos títulos de doutor honoris causa, em importantes universidades do Brasil e do mundo. Dom Helder morreu aos 90 anos, em Recife, no dia 27 de agosto de 1999.

O seu ministério episcopal coincidiu com dois períodos delicados e importantes da nossa história política recente: a repressão militar e a "lenta, gradual e segura" abertura democrática, nos dizeres dos generais da época. Tanto em um momento quanto em outro, dom Helder foi uma figura importante e lúcida que alentava os pobres e os mais fracos e incomodava o poder político vigente, passando, inclusive, a ser tratado como o maior adversário político do governo ditatorial.

Assim que chegou a Recife para tomar posse da Arquidiocese, chama a atenção o seu conhecido Discurso da chegada, no qual não deixava nenhuma dúvida a respeito de sua opção pelos pobres e disposição em dialogar com todos, sem exceção.  Naquela ocasião, disse que era "uma graça divina descobrir os sinais dos tempos, estar à altura dos acontecimentos e corresponder de cheio aos planos de Deus".

Não tardará muito para que o novo arcebispo, munido de sua fé em Jesus que liberta, passe a incomodar os militares. Dom Helder será calado pelo regime e terá as suas quatro indicações ao prêmio Nobel da Paz boicotadas. Verá, ainda, o seu nome ser censurado em todos os canais de comunicação do país. A voz do bispo sem fronteiras encontrará eco no exterior, onde as multidões, entusiasmadas, dariam-lhe a devida atenção e liberdade. Se aqui dentro o bispo incomodava, lá fora, apesar de todo o espaço e entusiasmo das grandes universidades pelos discursos efusivos do bispo, algumas conferências episcopais e alguns regimes políticos vão se incomodar. Até mesmo a Igreja em Roma olhará com desconfiança e preocupação as viagens e os pronunciamentos do bispo, chegando ao ponto de limitá-las. Mas como profeta, dom Helder nunca se cansou nem desistiu.

Podemos medir a importância de uma pessoa pública de vários modos. Porém, é pela falta que ela faz que temos dimensão de sua magnitude. Lembrar os 22 anos da morte do santo rebelde é ter a certeza de que se estivesse vivo hoje, certamente enfrentaria os mesmos problemas que enfrentou em sua época: lidar com a constante crise política e institucional, não esmorecer diante das ameaças explícitas e veladas, aturar os disparates que são as acusações de ser comunista e sofrer os boicotes de todo os tipos. Dom Helder faz falta hoje. Sua liderança espiritual, seu testemunho, sua capacidade de dialogar com os poderes para salvar os pequenos e sua habilidade de conciliação, são atitudes que nos fazem falta hoje, num Brasil assolado pela pandemia, pelo negacionismo, pelo autoritarismo, pela crise econômica e política e tantos outros males.

Em sua luta pelos Direitos Humanos, o bispo sem fronteiras tinha a verdade como sua arma mais certeira. Com ela, dom Helder nunca temeu percorrer as vias hediondas do autoritarismo. Resistente e dotado de plena consciência de sua missão, não recuou mesmo nos momentos mais delicados, quando, por exemplo, viu metralhado o muro da Igreja das Fronteiras, lugar onde escolheu viver, depois de ter abdicado do Palácio Episcopal São José dos Manguinhos.

É significativo entender a vida de Dom Helder a partir do lugar que viveu até a sua morte. A Igreja das Fronteiras era a sua trincheira. Sempre aberta a qualquer um que ali chegasse, a simples igreja era a amável morada de Deus, que entoa o Salmo 83. O nosso santo nunca pregou uma Igreja que se isolasse no silêncio das grandes catedrais. Se vivo, dom Helder seria um aliado de primeira hora do papa Francisco. O pontífice, por sua vez, sem citar o nome, recordou uma famosa frase do bispo brasileiro em seu discurso de natal à Cúria Romana no ano passado. Disse o papa: "recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: 'quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: Por que tanta pobreza?, chamam-me comunista'".

De fato, dom Helder, em seu ministério episcopal, tinha um lado e era o dos mais pobres e necessitados. Hoje, certamente, seria vítima das milícias digitais que o acusariam de fazer política, vendo em todos os seus atos e palavras sementes de um comunismo que apenas existe na cabeça de quem acusa.  "A Igreja nunca é acusada de fazer política quando se junta aos poderosos", afirmava Dom Helder. E completava, "e vêm me dizer que isso é comunismo. Comunismo seria mostrar a religião como ópio do povo. Eu desejo exatamente o contrário".

Fazer memória de dom Helder, em tempos como o nosso, é buscar em suas palavras e em seus exemplos, um alento para a nossa Igreja e a nossa sociedade hoje. É não deixar se guiar pelo medo nem pelo sono eterno de nossas consciências. O amor, a compaixão, o serviço, a denúncia e a busca pela justiça não apenas são possíveis, mas urgentes. Assim foi no tempo de dom Helder e segue sendo também hoje. Dar respostas, provocar questionamentos pertinentes e até mesmo incômodos, é assumir as opções fundamentais de Jesus.

Na esteira das formalidades canônicas e jurídicas, dom Helder está em processo de canonização. Para o povo que o conheceu, que o ama e que o admira até hoje, ele já é santo. E como tal, intercede por nós com suas preces diante de Deus e inspira a todos nós a sermos resistência e a buscarmos sempre o diálogo, comprometendo-nos, assim, com a promoção da paz e da justiça.

*Carlos Cesar, é jesuíta, graduado em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Brasilia (UniCeub) com estudos na Universid de La Republica (UdelaR) em Montevideo; estudou Filosofia na Faculdade Jesuíta (FAJE), em Belo Horizonte. Atualmente, trabalha no Colégio Catarinense, em Florianópolis.



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