Religião

29/08/2021 | domtotal.com

Deus nos interessa?

Reflexão sobre o Evangelho do 22º Domingo Comum, Marcos 7,1-8.14-15.21-23

O desinteresse religioso é uma 'atmosfera envolvente' onde a relação com Deus fica diluída
O desinteresse religioso é uma 'atmosfera envolvente' onde a relação com Deus fica diluída (Unsplash/Damir Samatkulov)

José Antonio Pagola*

A crise religiosa vai-se decantando pouco a pouco em direção à indiferença. Normalmente, não se pode falar propriamente de ateísmo, nem mesmo de agnosticismo. O que melhor define a posição de muitos é uma indiferença religiosa onde já não há questões, nem dúvidas, nem crises.

Não é fácil descrever esta indiferença. A primeira coisa que se observa é a ausência de inquietação religiosa. Deus não interessa. A pessoa vive na despreocupação, sem nostalgias nem qualquer horizonte religioso. Não se trata de uma ideologia. É, antes, uma "atmosfera envolvente" onde a relação com Deus fica diluída.

Há vários tipos de indiferença. Alguns vivem nestes momentos um afastamento progressivo; são pessoas que se vão distanciando cada vez mais da fé, cortam laços com o religioso, afastam-se da prática; pouco a pouco Deus vai-se apagando nas suas consciências. Outros vivem simplesmente absorvidos pelas coisas de cada dia; nunca se interessaram muito por Deus; provavelmente receberam uma educação religiosa débil e deficiente; hoje vivem esquecidos de tudo.

Em alguns, a indiferença é fruto de um conflito religioso, vivido por vezes em segredo; sofreram medos ou experiências frustrantes; não guardam uma boa recordação do que viveram em crianças ou adolescentes; não querem ouvir falar de Deus, pois isso magoa-os; defendem-se esquecendo-o.

A indiferença de outros é, antes, o resultado de circunstâncias diversas. Deixaram a pequena povoação e hoje vivem de forma diferente num ambiente urbano; casaram com alguém pouco sensível ao religioso e mudaram de costumes; separaram-se do seu primeiro cônjuge e vivem numa situação de casal não "abençoado" pela Igreja. Não é que estas pessoas tenham tomado a decisão de abandonar Deus, mas na verdade as suas vidas vão-se afastando Dele.

Há ainda outro tipo de indiferença encoberta pela piedade religiosa. É a indiferença de quem se habituou a viver a religião como uma "prática externa" ou uma "tradição rotineira". Todos devemos ouvir a queixa de Deus. Jesus recorda-nos com palavras tomadas do profeta Isaías: "Este povo honra-me com os lábios, mas os seus corações estão longe de mim".

*José Antonio Pagola é padre e tem dedicado a sua vida aos estudos bíblicos, nomeadamente à investigação sobre o Jesus histórico. Nascido em 1937, é licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagradas Escrituras pelo Instituto Bíblico de Roma (1965), e diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no seminário de San Sebastián (Espanha) e na Faculdade de Teologia do Norte de Espanha (sede de Vitória), foi também reitor do seminário diocesano de San Sebastián e vigário-geral da diocese de San Sebastián.



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