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31/08/2021 | domtotal.com

Clickbait: como não fazer uma série policial

Parece minissérie mas não passa de um grande equívoco em oito episódios

Adrian Grenier em cena de Clickbait
Adrian Grenier em cena de Clickbait Foto (Copyright Netflix)

Alexis Parrot*

Desde o início, qualquer boa história policial estabelece um pacto tácito com quem a acompanha. Faz parte do jogo que também o público tente adivinhar o alvo da investigação proposta, quer seja a identidade de um assassino ou em que condições teria ocorrido tal crime. Para tanto, todas as pistas à disposição devem ser divididas com a audiência, à medida em que vão sendo descobertas.

Agatha Christie (que sabia das coisas) seguia este mapa à risca. Antes de abrir qualquer de seus livros em que esteja presente Hercule Poirot, já é possível antever a cena final. Nesta, invariavelmente, o detetive belga reconstitui passo a passo as circunstâncias do crime e revela a identidade do criminoso.

Se o leitor não consegue chegar às mesmas conclusões que o investigador, paciência. Porém, todas as informações que tornaram possível a solução do caso foram enunciadas. Mais recentemente, no filme Entre facas e segredos, o Benoit Blanc de Daniel Craig (descendente direto do excêntrico Poirot) segue o modelo à risca e o revitaliza.

Baseado nisso, não vale resolver o mistério com soluções tiradas da manga no último momento. Não que reviravoltas não sejam bem-vindas, mas até a surpresa deve ser construída milimetricamente. Como no último ato de O silêncio dos inocentes, quando a agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster) vê-se de cara com o serial killler Buffalo Bill, sem ter noção do real perigo que corre.  

Obedecidos estes princípios, pistas falsas ou mesmo aquelas que não vão dar em nada podem surgir, embaralhando os rumos da investigação e tornando tudo ainda mais insolúvel. Faz parte do jogo. Nesta seara (em que Hitchcock era mestre) separar o joio do trigo passa a ser o grande desafio.

Mas, se nenhuma dessas regras simples são observadas, é porque a mistura toda foi malfeita. O que nos traz, finalmente, a Clickbait. A produção da Netflix desperdiça a premissa interessante de comentar o papel central que o primado digital assumiu na vida contemporânea.

Com as redes sociais mediando nossa visão de mundo e com a infinitude de aplicativos que prometem soluções para qualquer problema, ainda que longe de ser inédita, a ideia de um assassinato anunciado via web parece um bom ponto de partida para criticar o estado de coisas a que chegamos. Mas o que se apresenta como minissérie policial e de suspense acaba sendo apenas um grande equívoco em oito episódios.     

Além de ignorar o cânone do gênero, resta evidente que os criadores/roteiristas da série não fizeram nem o dever de casa a respeito dos protocolos de uma investigação de polícia. Os erros são tão primários que parece nunca terem assistido a nenhum filme ou série policial.

O policial responsável pelo caso revela toda e qualquer pista descoberta para a irmã da vítima, Pia (vivida por Zoe Kazan, de Doentes de amor). A cada nova informação, ela decide agir como polícia e bota o time em campo, não raro atrapalhando o trabalho da divisão de homicídios. Ainda assim, o tal investigador continua vazando suas descobertas para a moça sem nunca ser repreendido por seus superiores.

Como se não bastasse, na contramão do bom senso, o detetive promete reiteradamente à família do desaparecido que vai encontrá-lo com vida – algo que não poderia (e nem deveria) afirmar com certeza. Até os abilolados da divertidíssima Brooklin 9-9 conseguem ser mais competentes do que o time de patetas da delegacia de Oakland.  

Inverossimilhança das inverossimilhanças, um dos suspeitos é descoberto porque, aparentemente, só possui uma camisa e a usa sempre.

Se a polícia é pintada com tanta incompetência e irresponsabilidade, pior retrato merece a classe jornalística, integrada apenas por vermes dispostos a qualquer coisa por um furo. O repórter que sonha ascender na carreira com manchetes frescas sobre o caso é o mais absurdo e unidimensional entre toda a frágil galeria de personagens da série. Questionado pelo namorado, defende sua falta de ética com frases feitas dignas de uma daquelas novelas turcas miseravelmente dubladas e exibidas pela Band.

Para além dos diálogos pobres, a agressão gratuita e genérica à imprensa disfarçada como crítica, reverbera na aparente correção política da série – que afirma ser inclusiva quando apenas finge ser. Negros, muçulmanos e asiáticos participam da história em papéis de destaque, sem que sua condição étnica ou religiosa interfira na história ou sequer tenha alguma relevância.

No caso da família da vítima, não se trata do color blind de Bridgerton, mas do apagamento da identidade negra. Apenas lá pelo sétimo episódio a palavra racismo surge, perdida no meio de toda a trama. Parece que, a certa altura, alguém se deu conta que, apesar da escalação de atores e atrizes negras, isso nada dizia de seus personagens. E aí corrigiram este "lapso" inserindo uma situação e duas frases como se assim o problema estivesse sanado.

Lembra a operação abafa realizada pela Globo no caso de Nos tempos do imperador. Após admitir erros históricos e o patente preconceito racial embutido em um diálogo entre o escravo liberto e sua namorada branca, anunciaram que, desde o ano passado, o pesquisador e multiartista Nei Lopes presta assessoria à novela. A cena polêmica teria sido escrita e gravada antes de sua adesão à equipe – o que, sinceramente, não justifica nada.

É o extremo oposto do que defende a premiada série Black-ish. O chefe de uma família abastada faz questão de incutir nos filhos o orgulho pela sua identidade, reafirmando suas raízes negras a todo momento em um mundo onde a hostilidade contra sua comunidade parece ser o status quo.  

A situação só reflete um problema que a Netflix criou para si mesma. Ao se obrigar a oferecer um número tão volumoso de programação, seria mesmo inevitável que muita porcaria também fosse disponibilizada. E a justa bandeira da diversidade, uma das missões assumidas pela plataforma, pode resultar em tiro no pé, se for operada tão desleixadamente e a fórceps, como em Clickbait

Ao final, a decepção é inevitável e – como diria Sherlock Holmes – elementar.

(CLICKBAIT – minissérie disponível na NETFLIX)

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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