Religião

07/09/2021 | domtotal.com

Assembleia: um jeito de ser Igreja que nasce do Evangelho

Resgatar a palavra 'assembleia' é importante para a devida compreensão eclesiológica

É o amor da Trindade que faz possível a Igreja
É o amor da Trindade que faz possível a Igreja (Unsplash/Rachel Moore)

Teófilo da Silva*

Os cristãos e cristãs falam cotidianamente a palavra "igreja": usam-na para significar o que são os batizados e batizadas, do ponto de vista teológico; também para designar o espaço de reunião da comunidade de fé; e, além disso, para dizer sobre o universo eclesiástico, do clero. Esta última identificação não é sem problemas: é resultado de uma compreensão eclesiológica esclerosada que sequer um dia deveria ter começado a ser usada, a de que igreja seja sinônimo de hierarquia. O Concílio Vaticano II, voltando às fontes da fé e da Tradição, buscou abandonar essa compreensão eclesiológica, centrada no clero, mas ainda temos fortes - e nocivos - resquícios disso: basta olharmos como o Código de Direito Canônico compreende a função de pároco, por exemplo.

As duas primeiras significações para a palavra "igreja", no entanto, dão-nos o que pensar. Comecemos pela segunda: na linguagem religiosa corriqueira, passamos a dizer "igreja" para falar sobre aquele espaço litúrgico-celebrativo, de reunião. Esse uso diz respeito a uma espécie de simplificação de um nome bastante antigo que os cristãos e cristãs davam para aquele espaço: "casa da igreja". O edifício, em si, não é a igreja, mas o lugar onde a igreja é abrigada. Mas, sabe-se, este não é qualquer edifício: quem já participou de uma celebração de dedicação - raríssima, infelizmente - pôde experimentar ritualmente como cada elemento ali é simbólico e revela Cristo: da porta, passando pelas paredes e colunas, ao altar.

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Do segundo significado, "casa da igreja", passamos ao primeiro: a Igreja são os batizados e batizadas, o Povo de Deus, o Corpo de Cristo, o Templo do Espírito Santo. Mas o que significa, etimologicamente, a palavra igreja? Na língua portuguesa temos outra palavra que é um sinônimo, de onde ela provém: "assembleia". Esta é uma palavra que precisamos resgatar em nosso vocabulário religioso-eclesiológico. Pela palavra "assembleia" acessamos, teologicamente, o que é a Igreja: literalmente, a reunião dos convocados. Há uma força bastante significativa nisso tudo: formar a Igreja de Cristo não é um mérito dos batizados e batizadas, um privilégio aos melhores e mais santos, mas uma graça que foi acolhida por homens e mulheres concretos. A Igreja, isto é, a assembleia existe não como realidade abstrata, mas quando pessoas reais estão unidas como sinal vivo do Reinado de Deus.

Quando católicos e católicas estão reunidos para celebrar, tão logo manifestam: "Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo!". É o amor da Trindade que faz possível a Igreja, acreditamos. Trata-se de um dom que aponta também para uma missão: ser sinal do Reinado de Deus, a fim de que mais homens e mulheres possam ser alcançados pelo convite de amor-comunhão que o Deus-Trindade nos faz. Formar assembleia de batizados e batizadas revela a dignidade cristã: sermos incorporados ao amor-comunhão de Deus-Trindade, como sinal para o mundo e para a história, de que toda a criação é chamada a viver esse dom de salvação.

É também por isso, pois, que não podemos identificar a Igreja com o clero, do qual ele é uma parte que deve estar a serviço do todo, pois isso seria reduzir a dignidade do ser assembleia de convocados e convocadas por Deus para dar testemunho de seu amor-comunhão. Ser assembleia é uma vocação que nasce do anúncio do Evangelho de Jesus. Ainda que as amarras institucionais de um modelo de Igreja que continua a vigorar no Código de Direito Canônico sejam dificultadoras de uma eclesiologia participativa, que inspire senso de pertença e responsabilidade de cada batizado e batizada com a missão da Igreja, é preciso dar passos rumo ao verdadeiro chamado que emerge da Boa-Notícia trazida por Jesus e da qual somos corresponsáveis. Os bons ventos do Espírito discernidos pelo papa Francisco têm trazido boas inspirações para um novo (e tão antigo!) jeito de ser Igreja: comprometida com a missão evangélica de anunciar o Reinado de Deus na história, de modo sinodal, em espírito de assembleia. Que a Igreja latino-americana e caribenha, rumando para a Assembleia Eclesial, saiba discernir aquilo que o Espírito diz à Igreja, nestes nossos tempos de urgências!

*Teófilo da Silva é teólogo e poeta



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