Religião

07/09/2021 | domtotal.com

Sinodalidade e Assembleia Eclesial Latino-Americana e Caribenha: Emergência de um tempo novo na Igreja Católica contemporânea?

A corresponsabilidade esperada dos batizados nos lança à reflexão sobre a sinodalidade

Papa Francisco tem impulsionado processos eclesiais significativos como o Sínodo a Amazônia e a criação da Ceama
Papa Francisco tem impulsionado processos eclesiais significativos como o Sínodo a Amazônia e a criação da Ceama (Vatican News)

Edward Guimarães*

A sinodalidade é, antes de tudo, uma mentalidade eclesial de que acolheu a igual dignidade batismal dos cristãos e que, por causa disso, deseja "caminhar juntos". A mentalidade sinodal desperta e provoca a busca e concretização criativa de uma prática cada vez mais democrática, corresponsável e participativa na vida da Igreja. Pode haver uma sinodalidade restrita, por exemplo, compartilhada somente entre os bispos, ou ampla, envolvendo todos os cristãos batizados, ou seja, homens e mulheres que pelo batismo, atraídos e irmanados pelo projeto amoroso salvífico de Deus Pai, com a força do Espírito Santo, enraizaram suas vidas em Jesus Cristo e assumiram, como projeto de vida, o desafio de concretizar a vida nova pautada no Evangelho da fraternidade universal, da partilha, da justiça e da misericórdia.

Ao pensar sobre a questão inscrita no título deste texto, ocorreu-me a imagem da mulher em dores de parto. No entanto, o uso estilizado desta imagem, com a consequente alegria do nascimento e do prazer de aconchegar a criança nos braços, não diz tudo. Isso porque não evoca nem as condições do longo processo de gestação que o precede, nem o acompanhamento da criança no lento dinamismo histórico de crescimento e conquista paulatina da autonomia e responsabilidade.

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Nesse sentido, para melhor compreendermos o atual momento eclesial e o importante projeto de "reforma da Igreja" em curso - há oito anos sendo encetado pelo papa Francisco -, temos que ter presente o momento anterior e os grandes desafios que virão.

Sobre o momento anterior, primeiramente, recordo a profunda crise eclesial agravada a partir das duas Grandes Guerras, advinda do esgotamento do "modelo de cristandade", que funcionou hegemonicamente na Igreja ao longo dos séculos 4º ao 19. Em segundo lugar, o processo histórico do paulatino surgimento do "sujeito social moderno" na Igreja, com o advento de diversos movimentos de renovação – bíblico, litúrgico, ecumênico, missionário, leigo, teológico, social - que precederam a convocação do Concílio Vaticano 2º, pelo papa João XXIII, nos inícios dos anos 1960. Em terceiro lugar, o próprio evento do concílio que impulsionou uma revolução decisiva na autocompreensão da Igreja, no dinamismo de seu agir no mundo e na relação com as outras igrejas cristãs e tradições religiosas. Em quarto lugar, importa ter presente a recepção criativa e corajosa do concílio em nosso continente, recepção consignada de forma simbólica na 2ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Medellín, no ano de 1968. Este evento eclesial é considerando por muitos o Pentecostes da Igreja dos pobres e com rosto latino-americano. Por fim, não pode ser olvidado, o longo inverno vivido na Igreja, caracterizado por Libanio como um esforço de "volta à grande disciplina" tridentina, após a primavera do Vaticano 2º.

Se hoje, a partir do fecundo magistério do papa Francisco, fala-se da busca de "uma Igreja pobre e para os pobres", de uma "Igreja em saída", de uma "Ação evangelizadora não autorreferencial", de uma "Igreja hospital de campanha", de uma "Igreja Casa da misericórdia e não de uma alfândega de juízes controladores e dificultadores da graça", de uma "Igreja toda missionária, servidora e ministerial", de uma "Amazonização da Igreja", de uma "Igreja não clerical, mas Povo de Deus a caminho", de uma "Igreja profundamente sinodal", dentre outras expressões, é porque, ainda que seja com forte resistência interna e constantes embates provocados por grupos católicos ultraconservadores e com fortes tendências tradicionalistas, há uma recuperação do espírito do Concílio de forma atenta às urgências e desafios do contexto atual.

De fato, o papa Francisco tem impulsionado processos eclesiais significativos que sinalizam e estão a gerar avanços na concretização de uma urgente e necessária reforma na Igreja Católica. Entre estes processos podemos aqui mencionar alguns:

  1. A criação do conselho de cardeais para auxiliá-lo do projeto de reforma da Cúria Romana já no primeiro ano de seu magistério e de muitos outros conselhos eclesiais;
  2. A recuperação do papel e uma mudança significativa na dinâmica interna dos sínodos – da família, da juventude, para a Amazônia e, agora, da sinodalidade – de forma a reconhecer maior autonomia e autoridade, tanto nos processos de escuta e de participação quanto na de seus documentos de trabalho e de conclusão;
  3. A recuperação da compreensão da Igreja como comunhão sinodal, "Igreja de Igrejas", com reconhecimento da autoridade e da autonomia das Igrejas locais com suas conferências episcopais;
  4. O impulso que deu à Igreja da Amazônia: a criação da Repam, a convocação e realização do Sínodo para a Amazônia, a publicação da exortação Querida Amazônia, pela qual reconheceu o Documento de Trabalho resultante da grande escuta e a criação da Conferência Eclesial da Amazônia e não de mais uma Conferência Episcopal. Um verdadeiro laboratório ou fermento de novas práticas eclesiais;
  5. As suas encíclicas Laudato si' e Fratelli tutti, bem como projetos como Economia da Francisco, Pacto Global pela Educação etc. inovaram na linguagem, na abordagem das temáticas e recuperaram certo protagonismo eclesial, com responsabilidade ético humanista, nas grandes discussões candentes da humanidade;
  6. O lançamento de uma Assembleia Eclesial Latino-americana e caribenha, com amplo processo de escuta;
  7. Uma crítica contundente, de forma recorrente e aberta, contra o clericalismo, acompanhada da nomeação estratégica de leigos e leigas para cargos de decisão na cúria e da convocação de um sínodo especial sobre a sinodalidade na Igreja.

Tudo isso sinaliza, de fato, a emergência e o vigor da chegada de um tempo novo no dinamismo eclesial católico contemporâneo? Tudo dependerá do pós-parto, de como cuidaremos da criança que está para nascer, ou seja, qual será o nosso grau de abertura ao Espírito Santo, do discernimento dos sinais do tempo e da vontade divina, da coragem de assumirmos os processos de conversão pastoral e de fazer reforma das estruturas e práticas da Igreja e da adesão dos cristãos ao novo que nasce. Confesso, sinceramente, que não sei se, para este caso, a afirmação de que "o novo sempre vem" se confirmará, mas, como cristão e teólogo, desejo ardentemente que assim seja.

*Edward Guimarães é teólogo leigo. Doutor em Ciências da Religião pela PUC Minas e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização. Assessor no Regional Leste 2 da CNBB, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), da catequese, do ecumenismo e diálogo inter-religioso, pastorais sociais e movimentos populares. Membro da Comunidade Bremen, do grupo Emaús, da atual diretoria da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - SOTER.



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