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03/09/2021 | domtotal.com

Europa e EUA negociam condições para manter relações com o Talibã no poder

ONU retoma voos humanitários e grupo islamista deve anunciar governo neste sábado

Mercado de rua em Cabul: muitos afegãos vendem suas posses na esperança de deixar o país
Mercado de rua em Cabul: muitos afegãos vendem suas posses na esperança de deixar o país (Wakil Kohsar/AFP)

Com apenas um foco de resistência no país, no Vale do Panshir, e a capital do Afeganistão, Cabul, completamente ocupada pelo Talibã, as negociações diplomáticas com o grupo islamista é inevitável. Sobretudo porque o país se encontra em condições terríveis – econômica, alimentar e de saúde. À medida que o trauma da retirada das tropas ocidentais se dissipa, o pragmatismo vai dando lugar aos discursos mais inflamados.

Mesmo com ceticismo, a União Europeia e os Estados Unidos já disseram estar dispostos a um diálogo com o Talibã e aguardam a formação de um governo para se sentarem à mesa com o “grupo terrorista”.

A formação do novo governo será decisiva para as relações futuras, já que será submetido a intenso escrutínio internacional para ver se cumpre as promessas de maior tolerância, especialmente em relação às mulheres. O anúncio do gabinete era esperado inicialmente após a oração da tarde desta sexta-feira (3), mas não será feito até sábado (4) pelo menos, informou um porta-voz do Talibã.

O movimento radical islâmico enfrenta o desafio de deixar de ser um grupo insurgente para administrar o poder, poucos dias depois da retirada final das tropas americanas que encerrou duas décadas de guerra. A cautela e a desconfiança da comunidade internacional se misturam a sinais de interação com os novos líderes.

No que concerne à comunidade internacional, a questão é evitar o pior nesse país dilacerado pela guerra. Isso inclui violações graves dos direitos humanos, movimentos maciços de refugiados, numerosas mortes pela fome, e a transformação do Afeganistão, mais uma vez, num polo para organizações terroristas – como a Al-Qaeda ou o assim chamado "Estado Islâmico" (EI). Observadores também temem pelo futuro do país, que por sua localização entre o centro e o sul da Ásia, tem importância geoestratégica.

No Catar, que serve de mediador entre o Talibã, mas também em Cabul diante da população, o Talibã está tentando mudar sua imagem e se apresentar como um governo moderado e legítimo que a população não precisa temer. Seus líderes inclusive aceitaram ser entrevistados por jornalistas do sexo feminino. Por outro lado, houve relatos de violência em diversas províncias, e meninas têm sido impedidas de frequentar a escola e mulheres, de trabalhar.

ONU retoma voos humanitários

As Nações Unidas anunciaram a retomada de seus voos humanitários, que partirão do Paquistão para as cidades de Mazar-i-Sharif (norte) e Kandahar (sul). O Catar reconheceu que está trabalhando com as novas autoridades para reabrir o aeroporto de Cabul, infraestrutura fundamental para se levar ajuda humanitária à capital. Além disso, as empresas Western Union e Moneygram reativaram seus serviços de transferência de dinheiro no país, dos quais muitos destinatários afegãos de remessas de parentes emigrados dependem.

O mandato da Missão de Assistência da ONU no Afeganistão (Unama) deve terminar em 17 de setembro. No dia 9, o Conselho de Segurança da ONU discutirá sua extensão. O contexto para a possível renovação mudou drasticamente, porém, depois que o Talibã recuperou o controle do país no mês passado. "A situação é tão pouco clara" que seria "razoável implementar uma reversão técnica" do mandato, disse uma fonte da ONU que pediu para não ser identificada.

A ONU e os países ocidentais "não gostariam de perder alguns aspectos" do mandato atual, e "isso inclui direitos humanos, proteção de civis" e coordenação da ajuda humanitária internacional, disse uma fonte da ONU. Para a Irlanda, que preside o Conselho de Segurança em setembro, a questão dos direitos humanos é crucial.

Mais de 18 milhões de pessoas vivem em situação de desastre humanitário no Afeganistão, e outras 18 milhões poderão se somar a esse número, alertou a ONU, ao pedir doações internacionais. A retomada dos voos humanitários é liderada pelo Programa Mundial de Alimentos para permitir que "160 organizações humanitárias continuem suas atividades vitais nas províncias afegãs".

A organização Human Rights Watch (HRW) pediu ao Conselho de Segurança que renove o mandato para "garantir que essa missão e outras agências da ONU tenham os recursos necessários para entregar ajuda que salva vidas e monitorar totalmente os direitos humanos" no Afeganistão. "O Talibã tem um histórico terrível de direitos humanos e de violação dos direitos de mulheres e meninas. Portanto, a missão da ONU precisa ser os olhos do mundo no terreno para divulgar publicamente a situação", disse o diretor da HRW para a ONU, Louis Charbonneau.

Condições para o diálogo

Nesta sexta, os países da União Europeia (UE) discutiram suas condições para intensificar as relações com os talibãs e concordaram em estabelecer uma presença conjunta em Cabul para ajudar na retirada de mais pessoas, se a segurança no terreno assim permitir. "Temos que nos relacionar com o novo governo no Afeganistão, o que não significa reconhecimento. É uma relação operacional", alegou o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, após uma reunião de ministros das Relações Exteriores do bloco, na Eslovênia. Essa "relação operacional vai aumentar, dependendo do comportamento deste governo", acrescentou.

Borrell apresentou uma série de passos que as autoridades no Afeganistão teriam de cumprir, no momento em que os talibãs se preparam para anunciar um novo governo. Entre essas condições, estão que o Afeganistão não sirva de base para o terrorismo, que respeite os direitos das mulheres e dos meios de comunicação, o estabelecimento de um governo "inclusivo e representativo" e que permita o acesso à ajuda internacional.

O diplomata disse ainda que os talibãs devem estar à altura de seu compromisso de permitir que os cidadãos estrangeiros e afegãos "em risco" possam sair do país. Para "retirar as pessoas que desejamos receber, precisamos de um compromisso forte e de um contato forte" com as pessoas no poder, disse Borrell.

Os diplomatas da UE deixaram o Afeganistão e se instalaram nos vizinhos, ou voltaram para seus países de origem. Em relação à ajuda humanitária, Borrell disse que a UE buscará intensificar sua ajuda ao povo afegão, mas julgará as autoridades "de acordo com o acesso que fornecem".

A chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel, aparentemente está contando com a boa disposição dos governantes de Cabul em cooperar. "Nosso objetivo deve ser preservar o máximo possível do que alcançamos em termos de mudança no Afeganistão, nos últimos 20 anos", disse recentemente no Bundestag (câmara baixa do parlamento alemão) acrescentando: "O Talibã agora é uma realidade no Afeganistão."

O ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, também considera as negociações inevitáveis: não há "absolutamente nenhuma maneira de contorná-las", disse em Doha. A fim de avaliar a situação na região, ele já havia visitado quatro países que fazem fronteira com o Afeganistão. No entanto, Maas deixou claro que, pelo menos por enquanto, um encontro direto com os líderes do Talibã está fora de questão.

Ao contrário dos países ocidentais, desde a conquista do poder pelo Talibã, a China e a Rússia anunciaram disposição para negociar com o grupo. A Rússia chegou a informar que manteria a embaixada em Cabul, em acordo de segurança com os talibãs.

Já a China, que criticou repetidamente o que considerou uma retirada apressada e mal planejada dos Estados Unidos do Afeganistão, está disposta a estabelecer relações "amigáveis e cooperativas" com o novo regime. Nessa quinta, um porta-voz do Talibã afirmou que a China prometeu manter aberta sua embaixada no Afeganistão e aumentar a ajuda ao país devastado por décadas de conflito. O governo chinês não confirmou imediatamente o anúncio. Integrantes do Talibã patrulham as ruas de Cabul: expectativa para novo governo (Wakil Kohsar/AFP)Integrantes do Talibã patrulham as ruas de Cabul: expectativa para novo governo (Wakil Kohsar/AFP)

Chantagem ou interesse próprio?

As negociações com o Talibã são praticamente obrigatórias "para retirar do Afeganistão os colaboradores remanescentes e os indivíduos mais vulneráveis", comentou Joachim Krause, diretor do Instituto de Política de Segurança da Universidade de Kiel. Ele alertou ainda contra expectativas excessivamente altas, afirmando que só faz sentido negociar a evacuação de ex-colaboradores locais e suas famílias. Qualquer outra coisa, como tentar evitar um êxodo geral ou o retorno de grupos terroristas, tem poucas chances de sucesso.

"Como o Talibã poderia impedir um movimento de fuga descontrolado ou mesmo o retorno de grupos terroristas estrangeiros? Eles controlam, afinal, apenas parte do país. E não queremos que eles evitem uma onda de refugiados simplesmente atirando em quem tenta fugir", advertiu Krause.

O especialista em política de segurança também vê os alemães numa posição frágil para negociações: tendo fracassado em retirar todas as suas forças do país, a Alemanha "já se tornou suscetível à chantagem". "Quer gostemos ou não, temos que concordar com as condições estabelecidas pelo Talibã para ajudar essas pessoas a partirem."

O sucesso das negociações depende da disposição dos talibãs de honrarem os acordos negociados. Nesse aspecto, o cofundador e codiretor do grupo de estudos independente Rede de Analistas do Afeganistão (AAN, na sigla em inglês), Thomas Ruttig, é um pouco mais otimista, pois crê que os islamistas precisam abraçar o progresso por interesse próprio.

"O Talibã precisa de todo tipo de ajuda econômica, não importa de onde venha, já que, depois de 40 anos de guerra, a infraestrutura do país está completamente destruída." Seria contraproducente para os talibãs começar a chantagear governos estrangeiros, pois "isso colocaria em risco a chance de enfim trazer dinheiro para o país", argumenta Ruttig.

Risco de sanções

O Talibã, que deseja conquistar os corações e mentes da população, está ciente de que o Afeganistão dificilmente sobreviverá sem ajuda externa. Justamente por isso, o fundador da AAN parte do princípio que os fundamentalistas não permitirão que o país se torne novamente um polo do terrorismo islâmico. "Pois assim estariam sujeitos a retaliação e a mais sanções, e não podem se dar a esse luxo. Acredito que os talibãs são bastante experientes: eles não devem ser subestimados como um bando de barbudos medievais, como costuma acontecer."

Para os próximos meses, ele defende o enfoque nas questões humanitárias, além de um monitoramento da situação, para ver se o Talibã se tornará mais repressivo: é precisa estar bem claro que o grupo deve aderir aos padrões internacionais.

Ao mesmo tempo, porém, Ruttig avalia que as lideranças ocidentais não devem assumir uma atitude de superioridade: "Depois do que o Ocidente fez ou tolerou no Afeganistão, incluindo supostos crimes de guerra e violações dos direitos humanos, temos que nos abster de tal comportamento." Por outro, acrescenta, não há muito tempo para um sucesso nas negociações, pois a situação no país piora a cada dia.


AFP/DW/Dom Total



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