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07/09/2021 | domtotal.com

Domingão no Caldeirão

Huck e Mion são a antinovidade do fim de semana

Luciano Huck estreiou no comando do 'Domingão com Huck' neste domingo, 5/9
Luciano Huck estreiou no comando do 'Domingão com Huck' neste domingo, 5/9 (Globo/Marcos Rosa)

Alexis Parrot*

No último final de semana, o clássico formato do programa de auditório voltou às manchetes graças a duas estreias transmitidas pela Globo. Estreia neste caso é apenas figura de linguagem porque, afinal, o que foi ao ar podia ser tudo, menos novidade.

O novo apresentador do Caldeirão é um velho conhecido e o Domingão, agora sem Faustão, foi assumido pelo antigo dono do Caldeirão. Em ambos os programas, a maioria dos quadros permaneceu como sempre e até o pouco que era de fato inédito cheirava a naftalina.

As fake estreias organizadas a toque de caixa subverteram a célebre frase de Lampedusa n'O leopardo. Na impossibilidade de mudar tudo para que as coisas permanecessem iguais, optaram por continuar fazendo igual para que tudo ficasse pior.

Após a nova direção artística da casa ter entregado Fausto Silva de mão beijada para a concorrência (em um misto de arrogância e até mesmo falta de visão comercial), criou-se um problema que, imaginava-se à época, haveria tempo para ser resolvido. Porém, o imediato acerto do apresentador com a Band (porque o bom filho à casa torna) levou à decisão de tirá-lo imediatamente do ar, liberando-o do trabalho bem antes do final do contrato, em dezembro.

A escolha mais óbvia (mas longe de ser a melhor) para substituí-lo recaiu sobre os ombros estreitos de Luciano Huck e a ele foi dado um ultimato: se quisesse migrar do sábado para o domingo e engordar a conta bancária, teria que desistir dessa história de se candidatar à presidência.

Feitas as contas (votos de menos e zeros a mais no contracheque), o marido de Angélica optou por adiar mais uma vez o vaidoso projeto pessoal e permanecer na emissora, agora aos domingos. Rei reposto, rei morto, criou-se outro buraco e o sábado ficou sem titular.

Entre as escolhas caseiras, Thiago Leifert (após o sucesso do BBB21 e performance impecável na Dança dos Famosos) havia se tornado grande demais para a empreitada. André Marques, queimado pela inanição à frente do Sem limite, não deve nem ter sido considerado. Permanecerá na geladeira durante um bom tempo, juntamente com Fernanda Gentil, após o flop definitivo do Se joga - muito embora não se tenha notícias de que alguma apresentadora tenha sido sequer cogitada para assumir a função. Na Globo, pelo jeito, esse espaço tem que ser ocupado apenas por homens.

A luz no fim do túnel chegou na figura de um bom moço na vida pessoal (como Huck), mas um capeta irreverente na frente das câmeras (nada a ver com Huck). Apoiado publicamente por Leifert e impulsionado pelo indubitável carisma, Marcos Mion acabou ganhando a parada, trazendo até uma saudável mudança de tom ao programa.

De perceptível à primeira vista, sai de cena o brasileiro comum que Huck tanto prezava e as celebridades ganham o palco. O movimento é parecido com o que foi feito com Serginho Groissman quando migrou do SBT para a Globo. Do Programa livre, cujo bordão inesquecível dizia de cara a que vinha ("fala, garoto!"), Serginho aportou no Altas horas prometendo, de maneira prepotente, "vida inteligente na madrugada". Foco no programa do canal de Silvio Santos (e mesmo no antigo Matéria prima, da TV Cultura, a gênese de tudo), a juventude foi relegada à plateia, dando espaço para famosidades tergiversarem e se tornarem o centro da atração.

Na reciclagem do Caldeirão, as famosidades agora terão a oportunidade de brincar de gente comum, participando de games e se divertindo (ou, pelo menos, fingir que estão se divertindo). Manteve-se o Tem ou não tem e criou-se o Sobe o som, competição musical que rescende ao Qual é a música em versão pocket.  

Por mais que a chegada de Mion possa ter injetado algum vigor aos sábados da emissora, redundou apenas em incômodo o deslumbramento extremo encenado pelo recém-contratado. Parecia literalmente o novo funcionário querendo agradar o patrão, mais realista que o rei, reforçando a todo momento o que a própria Globo quer que todos pensemos dela.

A ideia de que um crachá falso da emissora é algo que mereça ser dado como prêmio para o público chega a ser revoltante. Já que o homem do Caldeirão desistiu de tentar ser presidente, querem nos resumir a uma república de Bozós - aquele personagem do Chico Anysio que se achava superior e tentava levar vantagem em tudo só porque trabalhava na Globo. Sinal dos tempos, de Boni a Boninho, o que era comédia hoje é levado a sério.

Encarnando este triste papel, Mion denigre até sua trajetória profissional, de mais de vinte anos em diversas emissoras. Parece que só vale o que fizer a partir de agora, como quem morreu e foi para o céu. Não basta ter sido o melhor apresentador da Fazenda e nem ter feito história na extinta MTV; só a Globo parece ter a propriedade divina de validá-lo.

No Domingão, os problemas são outros. Luciano Huck começou o programa como de costume, assumindo ares de candidato a alguma coisa, andando a pé pelo sertão enquanto era sobrevoado por drones. Segue acreditando que só a mão estendida de um rico boa-praça é capaz de transformar a vida de um povo e, para tanto, estava à disposição para auxiliar a realização de mais um sonho, como gosta tanto de repetir.

Se Fausto Silva deixou alguma lição nos mais de trinta anos de Domingão, foi nos mostrar a força da TV ao vivo, insuperável quando se trata de prender a atenção do público, especialmente no domingo. Devidamente esquecido o ensinamento, o programa foi todo gravado, com exceção apenas da abertura, ações de publicidade e uma atração musical no encerramento.

Aliás, estas inserções de publicidade eram tantas e tão agressivas que remetiam à origem norte-americana do modelo da TV comercial, quando as atrações giravam em torno do patrocinador, tornando o reclame a verdadeira estrela da grade. Até nisso este Domingão com Huck tinha cara de coisa antiga. Para ser mais honesto, o programa poderia mudar de nome para Magazine Luiza.

E deveria ser mais seletivo ao escolher quem anuncia. Ao recomendar a EMS, deveria dizer que aquele anúncio poderia estar sendo pago com dinheiro público - uma vez que a empresa foi uma das fabricantes de cloroquina agraciadas com um pacote de 240 milhões em empréstimos do BNDES. Deveria contar também que a farmacêutica em questão aumentou o faturamento oito vezes em um ano, só vendendo remédios do tratamento precoce da Covid, mentindo para seus fregueses da mesma forma que Bolsonaro mente para todos os brasileiros.     

Ao agradecer ao Banco Pan por mais uma parceria, também seria de bom tom que Huck declinasse a recente multa de 8,8 milhões de reais, conquistada pela instituição graças a uma recorrente violação às normas de proteção ao consumidor em todo território nacional. É este o tipo de "parceria" que o Domingão preza e agradece de público?

E são anúncios testemunhais. A propaganda não está no intervalo, é o próprio apresentador que bota a mão no fogo e recomenda a empresa ou produto. É igual quando ele dizia que era amigo do Aécio e hoje tem que se justificar e apagar fotos do Instagram (virou meme o retrato do momento em que souberam juntos que Dilma havia ganhado a eleição de 2014). É o velho diga-me com quem andas e te direi umas verdades.    

No Caldeirão, que segue a mesma cartilha de propagandas testemunhais, Neymar mandou uma mensagem de boa sorte para Mion. Em seguida, surgiu no telão o anúncio de um desodorante com a cara do jogador. Não se tratava de emoção, era apenas uma introdução para o reclame. Lendo o texto mal escrito da publicidade, o apresentador acabou se comparando não com o craque, mas com o tal desodorante, símbolos para quem não desiste nunca. Constrangedor, mas pelo menos não chegou a ultrapassar nenhuma barreira ética. 

Do Mion, esperava mais. Do Luciano Huck, nunca esperei nada mesmo; sempre foi medíocre e continuará sendo, tanto faz se aos sábados, aos domingos ou em qualquer outro dia. As estreias do último final de semana só serviram para nos animar para outro lançamento: o do novo programa do Faustão, em janeiro do ano que vem.

Depois de muitos anos no piloto automático, espero que Fausto Silva, na volta à Band, possa se reconectar com toda a iconoclastia e autenticidade que já lhe serviram de sinônimos. Chega de Caldeirão e Domingão; que venha logo o próximo capítulo do Perdidos na noite.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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