Religião

09/09/2021 | domtotal.com

'Não se deixe convencer por quem agride os poderes Legislativo e Judiciário'

Não se pode ser cristão e se manter indiferente ao desemprego, a fome a inflação, ao abandono dos mais pobres

Patriotismo não é cultuar uma bandeira. Amar a pátria é gesto concreto se faz defesa do bem comum e das instituições democráticas
Patriotismo não é cultuar uma bandeira. Amar a pátria é gesto concreto se faz defesa do bem comum e das instituições democráticas (Maí Yandara/Fotos Públicas)

Élio Gasda*

"Lá vem o Brasil descendo a ladeira" (Morais Moreira). Estamos às vésperas de comemorar 200 anos de Independência, contudo, continuamos escrevendo a história do Brasil pelo viés da elite econômica, branca e misógina. É ela quem gesta o governo de um Brasil que vai de mal a pior. Um governo que soma 20 milhões de famintos, 15 milhões de desempregados, 69,7% das famílias endividadas. Elite que domina a arte da humilhação. Segrega. Corta na carne do preto, do pobre, do trabalhador, da mulher. Energia, gasolina, gás de cozinha, alimentos, inflação, tudo em alta. Menos o salário! É ela que alimenta e aprofunda a desigualdade, 49,6% da riqueza do Brasil nas mãos dos 1% mais riscos do país. Um escândalo. O povo é massacrado pelo pior governo da história.

O Bra-sil é um país em sílabas. De um lado os que defendem a ditadura, a tortura, a volta do AI-5, a milícia, as armas, a escravidão, o desmatamento, as armas, ódio, a morte. Do outro, quem defende emprego, comida no prato, vacina, justiça, educação para todos. Defende os povos originários e suas terras. Defende a Vida! Nenhuma tragédia, uma epidemia mortal, catástrofes ambientais, os maiores índices de desmatamento, uma crise hídrica sem precedentes, o massacre dos índios, o retorno ao mapa da fome, nada foi capaz de unir o Brasil.

Temos no poder executivo um autoritário presidente. Um homem que se regozija com a morte, a destruição, com a dor, com o ódio. E ainda tem signatários, como vimos no 7 de setembro. A escalada antidemocrática bolsonarista ganhou mais um capítulo em plena Semana da pátria: pedem fechamento do STF, intervenção militar, dentre outros absurdos.

O Brasil é muito mais que isso e que eles. Pesquisas apontam que 64% da população não apoia o governo de Bolsonaro, o quer fora do Planalto. Um percentual composto por pessoas verdadeiramente de bem, que reconhecem o outro como irmão. São brasileiros que se respeitam, que desejam a paz, a democracia, o desenvolvimento social.

"Quem se diz cristão ou cristã deve ser agente da paz e a paz não se constrói com armas. Somos todos irmãos. Esta verdade é sublinhada pelo papa Francisco na carta encíclica Fratelli Tutti", escreve dom Walmor, presidente da Conferência Nacional do Bispos do Brasil (CNBB). "Tu, que és uma pessoa de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, o caminho de Deus, o amor cristão" (1 Timóteo 6, 11).

Não se pode ser cristão e se manter indiferente ao desemprego, a fome a inflação, ao abandono dos mais pobres. Os ensinamentos do Evangelho, aponta o presidente da CNBB, devem inspirar cuidados com os sofredores. "A fome é realidade de quase 20 milhões de brasileiros. Aquele pai que não tem alimento a oferecer para o próprio filho é seu irmão. Nosso irmão. Do mesmo modo, a criança e a mulher feridas pela miséria são suas irmãs, nossos irmãos e irmãs".

A vida em todas as instancias têm que ser possível: "Nossas raízes estão nas matas e florestas, num sinal claro nos ensinando que a nossa relação com planeta deve ser pautada pela harmonia. Os povos indígenas, historicamente perseguidos e dizimados, enfrentam graves ameaças do poder econômico extrativista e ganancioso que tudo faz para exaurir nossos recursos naturais" (dom Walmor).

Patriotismo não é cultuar uma bandeira. Amar a pátria é gesto concreto se faz defesa do bem comum e das instituições democráticas. A cidadania é um exercício diário, não um discurso medíocre. Ela se constrói na luta por justiça, paz e pão. Verdadeiros cristãos são agentes de paz, repudiam o incentivo ao uso de armas.

O debate político entre a direita e a esquerda faz parte do jogo democrático. A democracia não é feita apenas pelo voto. A eleição não é sua única garantia, é apenas um dos pilares. A democracia é império da lei, dos direitos que valem para todos. Quando se investe contra direitos, sob qualquer pretexto, se investe contra a justiça, contra a democracia. Sem o STF, sem o Congresso, voltaremos aos tempos da chibata. "É preciso resistir à destruição da ordem democrática" (Celso de Melo) para que possamos comemorar a independência, a liberdade, a vida.

Nesses tempos de trevas, a Igreja se coloca na defesa da vida, da democracia, da justiça e da paz. Ser fiel à Jesus Cristo é enfrentar esse governo perverso. Coragem! Algumas frutas podres demoram demais em cair sozinhas.

No Brasil, é necessário lutar pelo direito de todos e pelo fim da exclusão (dom Paulo Evaristo Arns).

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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