Religião

11/09/2021 | domtotal.com

Papa está preparando reforma radical nas estruturas de poder da Igreja

Inverter a estrutura piramidal da Igreja Católica pode ser assustador para alguns

Líderes do secretariado do Sínodo dos Bispos são fotografados no Vaticano durante um encontro online com presidentes e secretários gerais de conferências episcopais nacionais e regionais, 15 de junho
Líderes do secretariado do Sínodo dos Bispos são fotografados no Vaticano durante um encontro online com presidentes e secretários gerais de conferências episcopais nacionais e regionais, 15 de junho (Cortesia do Sínodo dos Bispos)

Claire Giangrave
NCR

Em 2001, o cardeal Jorge Bergoglio foi relator da reunião dos bispos do Vaticano - e não gostou do que viu.

A Igreja Católica havia adotado uma abordagem de cima para baixo que privava as igrejas locais de qualquer poder ou tomada de decisão, reduzindo o sínodo dos bispos a nada mais do que um selo de aprovação para as conclusões pré-estabelecidas por Roma.

Quando Bergoglio assumiu como papa Francisco no conclave de 2013, o processo sinodal estava no topo de sua lista de reformas.

"Houve um cardeal que nos disse o que deveria ser discutido e o que não deveria", disse Francisco sobre sua experiência no sínodo geral de 2001, em entrevista ao jornal argentino La Nación em 2014. "Isso não vai acontecer agora", acrescentou o papa.

De 9 a 10 de outubro, Francisco inaugurará um processo de preparação de três anos para o sínodo de 2023, que se concentrará na reforma do processo sinodal. O processo de preparação e o Sínodo de 2023, com o tema "Por uma Igreja sinodal: Comunhão, participação e missão", têm o potencial de revolucionar a forma como as decisões são tomadas na Igreja Católica e promover uma estrutura de autoridade mais descentralizada.

"Se as pessoas pensam nisso apenas como um encontro ou mais uma reunião, estão perdendo o ponto principal", disse o padre David McCallum, diretor executivo do Programa de Discernimento da Liderança da Universidade Gregoriana de Roma e membro da Comissão Sinodal de Metodologia, em entrevista ao Religion News Service.

O processo de revisão sinodal de três anos acontecerá em três fases: uma fase local em nível diocesano e paroquial; uma fase continental, envolvendo conferências episcopais em todo o mundo, e uma fase universal, quando bispos e leigos se reunirão em Roma para discutir as conclusões e tópicos desenvolvidos nas duas primeiras fases. Para coordenar e orientar todo o processo, Francisco criou um comitê gestor de cinco membros, rodeado por duas comissões de metodologia e teologia.

A estrutura hierárquica da qual Francisco se afastou no Vaticano em 2001 se reflete atualmente nas dioceses católicas em todo o mundo. Ao longo da história, "tornou-se muito natural que os bispos, que muitas vezes eram os líderes mais educados e preparados na região em que a Igreja estava localizada, exercessem sua liderança como um prefeito", explicou McCallum.

Falando ao La Nación, Francisco disse que a governança da Igreja "está em minhas mãos, depois que receber os conselhos necessários". Longe de ser uma imposição autoritária, os organizadores do sínodo dizem que o papel do papa é garantir a unidade, o que ajuda a distinguir a sinodalidade de um debate parlamentar.

O objetivo da comissão de metodologia na primeira fase é fornecer às dioceses e paróquias orientações que promovam espaços de diálogo entre todos os membros da comunidade - leigos, religiosos e desfavorecidos. Os bispos serão convidados a nomear uma pessoa de referência cujo trabalho é facilitar e criar oportunidades de encontro. Ao instruir as pessoas sobre o discernimento individual e comunitário, "o sínodo terá uma qualidade formativa antes das pessoas entrarem nele", disse McCallum.

Na Venezuela, Rafael Luciani, professor titular da Universidade Católica Andrés Bello em Caracas e extraordinarius da Escola de Teologia e Ministério do Boston College, aborda a sinodalidade no contexto latino-americano.

Luciani é teólogo leigo e membro da Comissão de Teologia do Sínodo. Seu trabalho, antes da inauguração do processo sinodal em Roma, é coordenar seminários que envolvam toda a Igreja latino-americana. Ao colocar uma lente de aumento nas paróquias locais, Luciani espera encontrar um modelo envolvente que possa ser aplicado às dioceses e conferências episcopais em todo o mundo.

No final das contas, o Sínodo de 2023 provavelmente mudará a dinâmica de poder e as relações na Igreja Católica, mas a mudança "tem que vir das igrejas locais, não de Roma", disse Luciani à RNS.

Inverter a estrutura piramidal da Igreja Católica pode ser assustador para alguns, os proponentes admitem, levantando preocupações de que o Vaticano se tornará nada mais do que um passo burocrático no processo de tomada de decisão da Igreja ou - pior ainda - semelhante a uma organização não governamental.

Em vez disso, o novo processo sinodal é "uma espiral", explicou Luciani, onde a cada fase as decisões são enviadas das dioceses e conferências episcopais à Roma e depois voltam. "Pela primeira vez existe uma interação, não é um procedimento linear", acrescentou.

Essa "nova cultura eclesial" é a verdadeira novidade do sínodo, segundo Luciani, mas as dúvidas permanecem nas igrejas locais, onde a "grande questão", segundo Luciani, "é a questão da autoridade".

A autoridade está intimamente ligada ao clericalismo, uma "perversão do sacerdócio", como diz Francisco, que também induz os leigos a acreditar que aqueles que receberam o ministério sacerdotal estão acima do rebanho, especialmente no exercício do poder. A corrupção financeira, a imoralidade e o abuso sexual por parte do clero são apenas alguns exemplos das consequências de um clero intocável. Com a sinodalidade, Francisco espera romper com uma tradição que inexoravelmente amarrou o poder na Igreja Católica aos membros do clero.

A sinodalidade se propõe a renovar as estruturas de poder que caracterizam a Igreja Católica há séculos, mas para isso deve atingir um objetivo muito mais ambicioso: ensinar fiéis, leigos e religiosos a se unirem no diálogo em um momento em que o entrincheiramento e a polarização transformaram a "cultura do encontro" do papa Francisco em um conceito quase utópico e - ironicamente – de divisão.

Nesse esforço, o sínodo "vai além da visão do papa Paulo VI e das diferentes formas de proceder do papa João Paulo II e do papa Bento XVI e vai além dos primeiros sínodos do papa Francisco", disse Luciani.

Os Estados-nação também lutam para reconciliar as diferenças das realidades locais com um mundo cada vez mais centralizado. Países como a Hungria, a Polônia, o Brasil, a Rússia, as Filipinas e até mesmo os Estados Unidos mudaram "para uma forma mais autoritária ao tentar estabelecer a ordem como defesa contra o caos e a incerteza", disse McCallum.

"A Igreja, uma organização enraizada na fé, precisa ter um histórico melhor do que simplesmente recorrer à autoridade de cima para baixo", acrescentou.

Os membros das comissões sinodais hesitam em dizer quais mudanças estruturais ocorrerão na cúpula do Vaticano em outubro. Seria contra o propósito de união se não houvesse "uma sensação de imprevisibilidade e de possibilidade", disse McCallum.

Francisco entende que o sínodo é mais sobre "iniciar processos" do que obter resultados imediatos. Reformar os seminários é essencial para promover a formação de clérigos capazes de superar as diferenças e encontrar um terreno comum, segundo McCallum.

"Percebemos que é um processo geracional", apontou o diretor do programa.

Embora esta conclusão possa parecer desanimadora, o sínodo não é o primeiro passo neste processo. Baseia-se na experiência ortodoxa oriental do Sínodo de Jerusalém em 1672 e nas transformações desencadeadas no Concílio Vaticano II de 1962-1965, bem como nos últimos sínodos sob os três últimos papas.

A sinodalidade já funcionou antes. "Já foi o testemunho dos bispos de que eles mudaram", disse Luciani, citando exemplos de prelados que foram transformados em suas crenças durante os sínodos no Vaticano sobre os jovens em 2018 e na região pan-amazônica em 2019.

A Conferência Episcopal Latino-americana, Celam, tem uma vantagem na aplicação da sinodalidade. Desde antes do encontro de Aparecida de 2007, no qual o cardeal Bergoglio desempenhou um papel fundamental, a Igreja na América Latina envolveu leigos e comunidades locais em consultas vivas com o objetivo de promover a responsabilidade compartilhada e o diálogo. Luciani, consultor especialista do Celam, disse que esse processo sinodal oferece uma visão profunda sobre como "voltar a um modelo de Igreja como a Igreja das Igrejas".

"Não se trata apenas de quem toma essa decisão", disse Luciani, "mas de como chegaremos a essa decisão juntos".

A aposta de Francisco como orientador espiritual inaciano de 1,2 bilhão de católicos no mundo - se bem-sucedida - poderia se tornar uma declaração contracultural para uma nova maneira de tomar decisões que outras instituições poderiam aprender.

A sinodalidade "precisa demonstrar ao mundo que temos fé de que a verdade e a bondade supremas para as quais Deus nos chama não serão estabelecidas pelo poder secular, o tipo de poder de controle unilateral", disse McCallum. "Vai se manifestar quando expressarmos nosso amor e afeto um pelo outro com autenticidade, quando vivermos com a integridade de nossos valores e comportamentos."

Publicado por NCR


Tradução: Ramón Lara



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