Brasil

13/09/2021 | domtotal.com

Meu fuzil dependurado

Serviria pra matar algum desafeto, mas que diabo, não tenho desafetos

Que fazer com o fuzil?
Que fazer com o fuzil? (Unsplash/Sebastian Pociecha)

Afonso Barroso*

Vendi meu Passat velho, que já não atendia às minhas necessidades, embora em bom estado, e realizei um sonho, não meu, mas do demente presidente: comprei um fuzil. De repetição. Arma poderosa, de longo alcance e manejo meio difícil, mas eficiente como poucas. E ali está ele, pendurado na parede da sala como um troféu de façanhas não realizadas.

De repente, uma dúvida atroz: que fazer com o fuzil? Não pretendo matar ninguém, mesmo que esse seja outro sonho do doente presidente, que quer ver o povo inteiro armado e se matando sem dó. Não, não tenho vocação para assassino, Deus me livre e guarde. Sou um ser pacífico e não atenderei, de modo algum, aos conselhos de qualquer maluco sanguinário. Caçar também não vou, porque não tenho idade pra isso, além do fato de a caça ser proibida neste nosso país fingidamente ecológico.

Já sei: posso dar cabo daquele gato que me enche o saco quase toda noite, de madrugada, miando sem parar no telhado da casa ao lado. Mas, não. Vou assustar os vizinhos, que naturalmente chamarão a polícia, e eu posso até ir em cana. Não tenho licença para posse de fuzil, porque isso não foi recomendado pelo presidoido. Além do mais, pra que gastar uma bala de fuzil com um animalzinho tão indefeso?

Que o gato se dane e que me dane eu, pois.

Serviria pra matar algum desafeto, mas que diabo, não tenho desafetos. Talvez não morra de amores por uns poucos que me tenham feito algum mal ou que queiram fazer mal ao país. Mas, de modo algum penso em abatê-los com meu fuzil. De jeito maneira. Condenar sim, matar nunca. Que sigam fazendo o mal e que Deus e a vida os punam com o castigo que merecem

Mas é preciso pensar em alguma coisa, em algo que demonstre a utilidade da arma que comprei com o suado dinheiro do meu surrado Passat. Não acho justo deixá-lo assim, inativo, sem função, decorativo, inútil.

Seria o caso de vendê-lo? Não, acho que não. Faz tão pouco tempo que adquiri. Quem sabe alugar? Mas, pra quem? Talvez um sujeito que conheço, o Silvério, que é radical como o Roberto Jefferson, só que do lado oposto. É amigo das armas, mas ao contrário do meliante ex-parlamentar, condena as atitudes e ideias do presidente, que considera despreparado, despótico, fascista, inconsequente e outros adjetivos menos elogiosos que costuma empregar para qualificá-lo.  

É isso. Vou alugar o fuzil pra ele. E assim fiz. Chamei-o, mostrei o fuzil, ele gostou e levou com uma cara meio sádica. Não sei o que ele irá fazer com a arma, mas espero que seja "pelo bem da pátria", como prometeu com ar misterioso. Então vá, Silvério, execute seu desejo oculto e seja o que Deus quiser. 

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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