Religião

14/09/2021 | domtotal.com

O silêncio como oração

Na medida em que se toma consciência da presença de Deus, em todos os momentos e situações da vida, pode-se viver o silêncio como oração

O silêncio abre espaço para o encontro consigo mesmo, para a consciência de nossa própria finitude e fragilidade
O silêncio abre espaço para o encontro consigo mesmo, para a consciência de nossa própria finitude e fragilidade (Christopher Sardegna / Unsplash)

Francisco Thallys Rodrigues*

Vivemos num mundo marcado por agitação, barulho e um fluxo frenético de informações e falatórios no qual o silêncio se torna cada vez mais incomum. O silêncio torna-se cada vez difícil, sobretudo, quando ele conduz ao encontro consigo mesmo e com Deus. Foge-se dele por meio de diálogos intermináveis, manifestações e barulhos constantes. Mesmo as orações se desenvolvem numa contínua verbalização. Quando olhamos a experiência das escrituras, nos deparamos com profundas experiências com Deus por meio do silêncio. É o caso de Elias, Jesus e Maria. Por conseguinte, o silêncio é fonte do encontro com Deus, torna-se oração enquanto une o coração do orante ao coração de Deus.

Em nossa sociedade da informação, a "palavra" perdeu sua força e eficácia, apresenta-se carente de sentido, de significado. A liquidez de nossa sociedade tem conduzido a relações voláteis e frágeis que se rompem com a mesma velocidade que se estabelecem. Neste contexto, o silêncio, como oração que nos conecta a Deus, pode ser um caminho de integração de nossa humanidade e recuperação da força da palavra.

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Quando olhamos o conjunto das Escrituras, algumas experiências se destacam no que concerne ao silêncio. Elias procura a presença de Deus em diferentes experiências: no fogo, na tempestade, no terremoto e na ventania, mas Deus não está ali. É na brisa suave que Elias encontra-se com Deus, na ausência de barulho e de fala (1 Rs 19,10-15). O silêncio é espaço de meditação e acolhida da Palavra no coração da Virgem Maria (Lc 2,19). Do mesmo modo em diversos momentos da vida e da atuação de Jesus o encontramos em silêncio. Portanto, o silêncio torna-se espaço da contemplação de Deus, meditação dos mistérios da vida e do sagrado, mesmo que este ocorra nos momentos de maior sofrimento e angústia.

No desenvolvimento e expansão da fé cristã, desde a experiência dos primeiros monges cristãos, que iam para os desertos e florestas, o silêncio se tornava espaço de encontro consigo mesmo e com Deus. Charles de Foucault encontrou Deus na profunda experiência de contemplação e silêncio, assim como Francisco de Assis, ele passava horas a fio diante do Santíssimo Sacramento em silêncio. Esta experiência foi vivida por inúmeros santos e santas, homens e mulheres que descobriram o silêncio como oração, fonte do encontro com Deus. O papa Francisco recorda que "parte-se do silêncio e chega-se à caridade para com os outros". A experiência profunda de encontro com Deus sempre nos conduz a nos lançarmos ao próximo.

O silêncio não deve ser imposto como mecanismo de defesa ou fuga diante de forças autoritárias que se impõem e exigem o silêncio. Ao longo da história, diferentes grupos e forças impuseram o silêncio como parte da submissão ao seu pensamento ou modelo de sociedade. Este não é o tipo de silêncio ao qual nos referimos. Martin Luther King alertava para o problema deste tipo de silêncio: "Eu não me preocupo com o grito dos maus, mas com o silêncio dos bons". O silêncio deve ser uma opção pessoal para todo aquele que deseja mergulhar na profundidade de si mesmo, na descoberta das belezas vida e no encontro com Deus. Por isso, ele só tem sentido enquanto livremente assumido.

O silêncio abre espaço para o encontro consigo mesmo, para a consciência de nossa própria finitude e fragilidade. Nele podemos contemplar nossa vida, meditando nossas atitudes e gestos, percebendo a presença amorosa de Deus que nos acompanha. Ele pode ser o primeiro passo num processo de autoconhecimento, que abre espaço para encontrar a presença de Deus em todas as coisas. Presença serena e suave, perceptível somente quando nos tornamos capazes de contemplar a beleza em si mesma, para além dos desejos de apropriação advindos da busca pelo conhecimento. Contemplar a beleza da vida que renasce a cada dia, da criança que sorri sem motivos, dos idosos que continuam a amar, da esperança que teima em persistir.

Nossas liturgias e orações comunitárias têm sido marcadas pelo excesso de palavras. Pronunciadas, proclamadas, gritadas, as palavras são utilizadas demasiadamente, pouco guardando espaço para o silêncio. Mesmo quando as orientações o sugerem, pouco se efetiva realmente. Há um desejo desenfreado por verbalizar tudo que se passa no interior do coração sem que haja uma preocupação por descobrir as moções do Espírito que conduzem a tais atitudes. Outras vezes elas se tornam repetições pronunciadas sem paixão, sem percepção do mistério que nos circunda. Na medida em que se toma consciência da presença de Deus, em todos os momentos e situações da vida, pode-se viver o silêncio como oração. Isto exige sensibilidade e abertura para o próximo e para os apelos de Deus.

Não esqueçamos que no silêncio podemos descobrir o essencial da vida como bem recorda Dietrich Bonhoeffer: "No silêncio está inserido um maravilhoso poder de observação, de clarificação, de concentração sobre as coisas essenciais". O silêncio nos conecta com o profundo de nós mesmos no qual descobrimos a escrita de Deus em nossa vida, sua teografia, que nos acompanha antes mesmo de nosso nascimento. O silêncio é a linguagem de Deus no qual Ele se revela como Deus amor que tudo cria para o bem.

Portanto, mais do que em outros tempos, torna-se necessário descobrir o valor e importância do silêncio livremente assumido. Primeiro como possibilidade de encontro com o profundo de nós mesmos: nossas alegrias, medos, angústias, desejos, anseios e opções. Depois, como espaço do encontro com Deus e sua Palavra que nos transforma a fim de vivermos autenticamente como testemunhas de seu amor.

*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateús. Mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), bolsista CAPES. Especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR



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