Religião

14/09/2021 | domtotal.com

O silêncio de Deus: companhia para nossa liberdade

O silêncio de Deus na cruz, silêncio da entrega da vida no amor, mostra-nos como é possível lutar contra a injustiça

Depois veio a palavra final: 'está consumado' (Jo 19, 30) e a expiração como entrega do espírito (Jo 19,30). Então tudo foi silêncio. Silêncio de onde tudo (re)nasce
Depois veio a palavra final: 'está consumado' (Jo 19, 30) e a expiração como entrega do espírito (Jo 19,30). Então tudo foi silêncio. Silêncio de onde tudo (re)nasce (Christoph Schmid / Unsplash)

Eduardo Rodrigues Calil*

Quando a cruz foi plantada no vazio do cosmos, o Cristo salvou a humanidade inteira, mas também a criou. Sua salvação abraçando o passado e o futuro foi um instante de silêncio profundo, silêncio entre Deus Pai e Deus Filho, silêncio do Pai diante da morte do próprio Filho. Entre eles, uma conspiração silenciosa: a do Espírito que os une e diferencia. Depois veio a palavra final: "está consumado" (Jo 19, 30) e a expiração como entrega do espírito (Jo 19,30). Então tudo foi silêncio. Silêncio de onde tudo (re)nasce.

Deus é silêncio. E não como contraponto da Palavra, pois Seu silêncio não é mutismo, não é emudecimento indiferente, fechamento ou isolamento, não é a esquiva de seu mistério em relação às buscas do ser humano. Seu silêncio é, antes de mais nada, ambiente de escuta, espaço de descoberta, respeito à nossa liberdade e, finalmente, sinal de seu trabalho esmerado em nosso favor.

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Ambiente de escuta atenta da humanidade. A escuta de Deus é atenciosa e esse é o aspecto fundamental de sua condescendência, de Seu ser-voltado para nós. Esse silêncio permite que a palavra que somos, tão frágil, tão breve, possa ter coragem de ser. 

Deus não é o Absoluto que nos esmaga, a Palavra que nos invade ou que invade nossa história vinda do além-da-história, mas é a Palavra que nasce do mesmo silêncio com que a chuva irriga a terra, que nasce de nossa história com o mesmo silêncio com que a terra irrigada faz brotar as sementes (Cf. Is. 55, 10). 

A Palavra de Deus permite que a nossa palavra diga algo sobre Ele, sobre nós mesmos e sobre a vida. Ela suscita a nossa palavra, a estimula, fá-la descobrir sua própria força. E não o faz, senão a partir da escuta. Na palavra que dirigimos à escuta de Deus, podemos nos escutar. Afinal, também nós somos palavra e silêncio.

Seu silêncio também é ambiente para que possamos ser, é uma sementeira para que nossa vida possa (res)surgir. Um espaço aonde podemos entrar e finalmente (re)descobrir o que de mais íntimo há em nós: a chama do desejo, o que acende a chama da vida. 

O silêncio como ambiente, como espaço, faz-nos lembrar que Deus é também espaço, é o lugar (ha maqon). No hebraico a expressão ha maqon diz sobre um Deus que está no templo, mas é maior que o templo, por exemplo. Aqui a utilizamos para afirmar que Deus é o próprio espaço onde podemos florescer. 

Não há vida sem coragem: sem a coragem da verdade, sem a coragem de revelar-se como quem se é, sem a coragem de amar. O silêncio de Deus é um espaço para que possamos entrar em seu mistério e fazer silêncio. Como nenhum espaço o contém, nem nosso pequeno ser, ele nos introduz em sua própria realidade e, desde Si mesmo, nos encoraja, para que tenhamos vida.

Seu silêncio também é respeito profundo de nossa liberdade. Não é preciso que Deus morra para que tudo seja permitido. Não é preciso que não haja Deus para que possamos ser livres, porque o Ser de Deus não exclui a nossa liberdade, mas a garante. E garante não apenas como um dom, mas também como uma tarefa. Nossa tarefa é fazer nossas escolhas e ter capacidade de responder por elas. É nossa capacidade de responder também diante das escolhas que nos fizeram. Nós escolhemos e, enquanto isso, nós nos fazemos, nos constituímos, mesmo diante do que já fizeram de nós. 

Nesse sentido, Deus não tem planos para nós, não tem desígnios escritos desde a fundação do mundo, não nos dá scripts, não nos escreveu um destino. Se somos determinados em muitos aspectos, isso tem a ver com os limites da vida: nós não podemos tudo. Não podemos nos livrar da liberdade, por exemplo. 

Portanto, nossa liberdade tem limites internos, mas ainda assim é liberdade e Deus não tem pretensões de tirá-la de nós, mas de alargá-la. E Ele não o faz destinando-nos um roteiro que nos prive de fazermos nosso próprio caminho. Ao contrário, Ele faz um caminho até nós, faz caminho conosco, faz-se caminho para nós, para que nesse caminho que Ele é, nós possamos abrir o nosso próprio caminho.

Nossa liberdade, contudo, encontra-se tão diminuída por causa de nossa injustiça, tão aprisionada em nossos próprios impasses, tão reduzida por causa de nossas servidões voluntárias que, por isso, o silêncio de Deus é também Seu trabalho junto de nós, para ajudar-nos a libertar nossa própria liberdade. Deus trabalha sempre (e silenciosamente). 

Diante da cruz da injustiça, seu silêncio que tantas vezes aparece como abandono, como desamparo é também seu escândalo. Deus se escandaliza diante do mistério absurdo do mal, mas Seu silêncio não é paralisia. Seu silêncio é o silêncio recriador de quem dá a vida, como na cruz. A resposta de Deus é sempre a resposta da entrega, o que quer dizer que a antinomia do mal é a entrega da vida no amor, como ele mesmo fez. 

A injustiça aprisiona nossa liberdade, diminui nossas potencialidades, esgarça nossas possibilidades de viver, cria camadas e camadas de gente vivendo uma vida desfigurada, bem longe da vida em abundância que Deus anseia. O silêncio de Deus na cruz, silêncio da entrega da vida no amor, mostra-nos como é possível lutar contra a injustiça.

Mas não há apenas o sofrimento causado pela injustiça, há também a desgraça, o incontrolável da natureza, o imponderável. O silêncio de Deus é igualmente Seu amor impotente, frágil. Amor com o qual ele tenta ajudar-nos a transformar nossas lágrimas e converter nossas dores e o sem-sentido que há. Deus trabalha conosco para refazer rotas, (re)despertando em nós a criatividade com que podemos levantar de nossas próprias tragédias. 

Embora quiséssemos, Deus não é interferente nem um mago pronto para quebrar as leis da natureza ou para parar seus descompassos. E não é porque ele possa fazê-lo e não o queira, mas na verdade, porque ele não pode. Deus é amor, não a onipotência de um arquiteto do universo que tudo faz e desfaz a seu bel-prazer. Deus, enquanto amor, pode vir a nós no entre nós de nossas liberdades. Ele nos vem como o amor que refaz e, às vezes, desde a cruz. No silêncio aparente do fim brota, não raras vezes, o silêncio de novos inícios.

Há também nossas servidões voluntárias. Nossa liberdade é comprometedora, é difícil e o silêncio de Deus, no qual nossa liberdade se afina, é muitas vezes excruciante. A saída que não poucos encontram é vender a própria liberdade, cedê-la a outros, livrar-se dela. Obedecem cegamente, alienam-se de forma contumaz, cegam os próprios olhos para não ver a realidade, mentem e negam para si mesmos que mentem, desvencilham-se da responsabilidade com a própria palavra, maquiam de coragem o exercício do próprio medo, curvam-se a lógicas institucionais mesquinhas, ajoelham-se diante de senhores que prometem descanso e paz, tudo isso para não abraçar a assustadora liberdade. 

O silêncio de Deus é usado como ferramenta por muitos senhores que começam seu senhorio, a partir da instrumentalização da Palavra de Deus, chamando de vontade divina à própria vontade. O silêncio de Deus, contudo, desautoriza tal instrumentalização, pois ele não é mutismo, mas o lugar de onde é gerada a própria Palavra de Deus, Palavra que liberta, ao invés de fazer escravos.

Deus é silêncio. Silêncio no início e silêncio no fim, mas também o silêncio que nos acompanha. Silêncio criador que faz todas as coisas pela Palavra, gestada no silêncio. Palavra que salva e recria, no silêncio da cruz, cravada no vazio, gênese da vida. Silêncio-átimo da expiração, pelo qual se cria em nós um espaço onde Deus mora, ainda que Ele seja maior do que nós. Nesse silêncio que não é emudecimento, mas um ambiente, talvez seja possível encontrá-lo. E com Ele, nós mesmos.

*Eduardo Rodrigues Calil é padre, formado em Filosofia, Teologia e Psicologia. Em formação psicanalítica



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