Religião

13/09/2021 | domtotal.com

Antissemitismo e crise migratórias são pautas do papa na Hungria e na Eslováquia

Em sua 34ª viagem internacional, Francisco pede fraternidade que atravesse fronteiras na Europa

Papa Francisco é recebido pelo presidente da Eslováquia, Zuzana Caputova, em Bratislava, em 13 set. 2021
Papa Francisco é recebido pelo presidente da Eslováquia, Zuzana Caputova, em Bratislava, em 13 set. 2021 (JOE KLAMAR/AFP)

Em visita oficial até quarta-feira (15) na Eslováquia, o papa Francisco chegou à capital Bratislava, onde foi recibo pela presidente Zuzana Caputova. Para marcar sua chegada, os sinos de 2.627 igrejas católicas em todo o país tocaram em uníssono quando seu avião pousou. Nesta segunda (13), o pontífice fez apelo por uma "fraternidade" que atravesse fronteiras na Europa, no momento em que o Velho Continente busca reativar sua economia após a pandemia da Covid-19.

"Fraternidade é do que precisamos para promover uma integração cada vez mais necessária", disse o papa argentino ao falar perante as autoridades políticas e civis da Eslováquia, aonde chegou no domingo após uma escala na Hungria.

"Esta (fraternidade) é urgente agora, num momento em que, depois de meses muito duros de pandemia, se apresenta, junto com muitas dificuldades, uma esperada reativação econômica, favorecida pelos planos de recuperação da União Europeia", afirmou.

No início do ano, a Eslováquia registrou uma das mais altas taxas mundiais, por habitante, de contágio e de mortalidade por Covid-19. Desde a propagação do coronavírus, este pequeno território de 5,4 milhões de habitantes acumula mais de 12 mil mortes.

A Eslováquia é um dos países menos vacinados da Europa (apenas metade dos adultos estão totalmente vacinados, em comparação com mais de 70% na UE como um todo). 

O governo havia decidido inicialmente reservar todos os eventos para os vacinados, causando descontentamento e baixo número de reservas. Finalmente mudou de ideia uma semana antes da viagem, decidindo permitir portadores de teste negativo e aqueles recuperados da Covid-19.

Francisco se referiu à história da Eslováquia como uma "mensagem de paz", destacando o nascimento "sem conflitos" de dois países independentes há 28 anos: a República Tcheca e a Eslováquia.

"Que este país (...) reafirme sua mensagem de integração e de paz, e que a Europa se distinga por uma solidariedade que, atravessando as fronteiras, possa levá-la de volta ao centro da história", pediu.

Em novembro de 2020, o sumo pontífice publicou uma encíclica intitulada Fratelli tutti (Todos irmãos). Nela, clama por um mundo mais solidário com os mais fracos para romper o "dogma neoliberal".

Nesta segunda-feira, Francisco reiterou que, em um mundo totalmente interconectado, "ninguém pode se isolar, seja como indivíduo, ou como nação", o que é, no seu entender, a grande lição da pandemia da Covid-19.

Defensor de um "mundo novo" e "mais justo" no pós-pandemia, o papa disse acreditar que o futuro deve incluir a "luta contra a corrupção" e o direito ao trabalho.

Pediu aos eslovacos, que já viveram sob um regime comunista (um pensamento único que "restringia a liberdade", conforme Francisco), que não se deixem levar por outra ideologia "vazia de sentido": o individualismo.

No final de 2020, a Eslováquia adotou medidas para eliminar a corrupção no Poder Judiciário, uma anunciada prioridade do governo de centro-direita eleito neste mesmo ano, após a onda de protestos pelo assassinato de um jornalista em 2018.

O país elegeu um novo governo na primavera (outono no Brasil), o que encerrou uma crise política desencadeada pela decisão do anterior primeiro-ministro de comprar vacinas russas anticovid-19 Sputnik V.

Francisco deve se encontrar com membros da comunidade judaica, incluindo sobreviventes do Holocausto, na segunda-feira.  Três dias antes de sua chegada, Bratislava se desculpou formalmente pelo sombrio legado da época do presidente Jozef Tiso, um padre católico que concordou em enviar dezenas de milhares de judeus para os campos de extermínio alemães.

Após o encontro, o pontífice então viajará para as partes mais pobres do país na terça, onde se reunirá notavelmente com membros da comunidade cigana, e retornará a Bratislava na quarta para uma missa ao ar livre.

Budapeste

O papa Francisco havia se reunido, na manhã deste domingo (12), em Budapeste, com o líder soberanista Viktor Orban, a portas fechadas, antes de presidir a missa de encerramento de um grande congresso religioso internacional.

Pouco depois de sua chegada, o líder de 1,3 bilhão de católicos se encontrou com o primeiro-ministro húngaro, de acordo com imagens divulgadas na conta de Viktor Orban no Facebook, na qual aparecem apertando as mãos.

O presidente húngaro, Janos Ader, e dois altos funcionários da Cúria Romana também participaram da reunião. "Pedi ao papa Francisco que não deixe os cristãos húngaros perecerem", postou Orban em sua conta no Facebook.

O Vaticano, por sua vez, disse em um comunicado que o encontro foi "cordial". "Entre os vários temas discutidos, está o papel da Igreja no país, o compromisso com a proteção do meio ambiente, a proteção e promoção da família", afirma o comunicado.

Já em seu discurso final por ocasião da oração dominical do Ângelus, o papa prestou homenagem a uma nação "apegada a suas raízes", apelando, porém, a ser "aberta" a todos, numa alusão velada à política migratória de Orban. "Meu desejo é que vocês sejam assim: ancorados e abertos, enraizados e respeitosos", intimou.

E é que Francisco tem pedido incessantemente aos governos que recebam refugiados que fogem da pobreza, seja qual for sua religião. Uma reclamação incessante que gerou mal-entendidos, mesmo por parte dos fiéis católicos.

Ameaça do antissemitismo

O papa viajou a Budapeste atendendo a um convite do Congresso Eucarístico Internacional, seguindo os passos de João Paulo II, que participou desse evento em 1985, em Nairóbi (Quênia). Depois de sua breve visita à capital húngara, o pontífice visita a vizinha Eslováquia, onde faz uma verdadeira visita de Estado de três dias.

Em seu primeiro discurso durante sua visita, a líderes cristãos e judeus, o papa Francisco alertou sobre a "ameaça do antissemitismo que ainda paira na Europa e em outros lugares".

"É um pavio que deve ser extinto", afirmou. "A melhor maneira de desativá-lo é trabalhar positivamente juntos, é promover a fraternidade", acrescentou durante sua visita à capital da Hungria, país que abriga a maior comunidade judaica da Europa Central, estimada em cerca de 100 mil membros.

A 34ª viagem internacional do papa Francisco, de 84 anos, ocorre cerca de dois meses depois de ele ter sido submetido a uma cirurgia de cólon, uma operação que exigiu anestesia geral e dez dias de convalescença no hospital. "Lamento se falei sentado. Não tenho 15 anos", declarou o papa.

Desde as primeiras horas da manhã, a imensa Praça dos Heróis de Budapeste encheu-se de grupos de peregrinos vindos de todo o país para assistir à missa do pontífice sob um céu azul radiante.

"Não estamos aqui por política, mas para ver e ouvir o papa, o chefe da Igreja. Estamos impacientes para vê-lo, é maravilhoso que ele esteja em Budapeste!", comentou Eva Mandoki, de 82 anos, que mora a 100 km da capital.

"Todos somos migrantes!"

Jorge Bergoglio, cujos antepassados italianos migraram para a Argentina, não para de lembrar à velha Europa seu passado, construído por ondas de recém-chegados.

Embora nunca tenha feito alusão direta a nenhum político em particular, ele criticou abertamente o "soberanismo" que, segundo ele, dedica "discursos semelhantes aos de Hitler em 1934" aos estrangeiros.

Aos que discordam, ele responde que ajudar os excluídos é eminentemente cristão. Compromisso que lhe valeu ser tratado como "imbecil" pela mídia ligada a Orban. Alguns desses meios também destacaram a curta duração da visita, de apenas sete horas. Pouco antes das 15h (10h de Brasília), o sumo pontífice partiu para a vizinha Eslováquia, onde pretende passar três dias, por ocasião de uma verdadeira visita de Estado.


AFP/Dom Total



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