Mundo

13/09/2021 | domtotal.com

11 de Setembro, um novo período da História


Quem estudou História lembra-se com certeza dos grandes períodos: Pré-História, Antiguidade (Oriental e Clássica), Idade Média, Moderna e Contemporânea. Contudo, hoje, já é tempo de atualizar esta classificação.

A mensagem
A mensagem "9/11 We Remember" é exibida na placa de destino do ônibus 6125 no Michael J. Quill Depot na sexta-feira, 10 de setembro de 2021, na proximidade do 20º aniversário dos ataques ao World Trade Center (Marc A. Hermann / MTA)

José Couto Nogueira*

A História evolui constantemente, num contínuo em que acontecimentos de importância diferente se sucedem e sobrepõem; mas, de um ponto de vista "eurocentrista", os acadêmicos dividem-na em períodos, marcados por acontecimentos de tal grandeza que mudam os paradigmas anteriories. Para não irmos mais para trás, o fim da Idade Média e começo da Moderna é colocado em 1453, com a queda do Império Romano do Oriente, e a Idade Contemporânia começa em 1789, com a Revolução Francesa. É fácil ver como estes acontecimentos mudaram o rumo da História, com a introdução de novas formas de pensamento e valores civilizacionais.

Todavia, depois de 1789 ainda não se considera, pelo menos "oficialmente", um novo período. Há quem especule que terá começado em 1914, com a Primeira Guerra Industrial e Mundial, há quem defenda que a data deveria ser em 1945, com o lançamento da primeira bomba nuclear. Estaríamos, então, na Época Atômica, diferente da anterior porque as armas nucleares mudaram radicalmente o equilíbrio/desiquilíbrio entre as potências dominantes. A Guerra Fria, nos seus aspectos ideológicos e estratégicos, é uma situação que não existia anteriormente.

Mas a Guerra Fria, e os poderes que a mantiveram, mudaram radicalmente. Hoje, já não é o perigo de ser aniquilados por mísseis balísticos intercontinentais que nos preocupa. Desde o dia 11 de setembro de 2001 que surgiu um novo paradigma, as ameaças e as hostilidades deixaram de ser entre Estados. Surgiu um novo tipo de entidade, não localizada territorialmente, com poderes de agressão que os Estados tradicionais não conseguem contrariar. Simultaneamente, aparecereceu outra arena (outro plano, se quisermos) de conflito, o digital, em que as ações podem ser tão mortíferas como no mundo físico. Mas como a evolução digital levou anos a instalar-se, é difícil colocar-lhe uma data precisa.

O ataque às Torres Gêmeas é uma novidade que muda tudo. Pela primeira vez, uma potência formidável, armada até aos dentes, é atacada no seu coração por um grupo difuso, que nem seguer possui armamento significativo.

As posições estratégicas dos poderes mudaram de um dia para o outro.

Já não se trata da opção entre capitalismo e comunismo, as duas mega-ideologias do período anterior, mas de imperialismo (capitalista ou comunista) contra convicções religiosas que se julgava irrelevantes. Para as potências ocidentais, descendentes dos valores judaico-cristãos, é ameaça do islã; para o islã, a questão é perservar os seus valores e torná-los universais.

Isto é uma mudança de época, de período histórico, ainda por cima inesperada e com uma data muito precisa (À laia de comparação, o Império Romano agonizou séculos, a queda de Constantinopla era um acontecimento previsível anos antes, e o prórpio cerco da cidade durou 53 dias).

É verdade que a ameaça de grupos radicais, como a Al Qaeda, já existia há anos, e que diversos ataques e atentados ocorreram em vários pontos do globo. Mas era impensável que um grupo relativamente pequeno e com meios limitados conseguisse infligir um tal golpe no centro moral e estratégico do maior poder mundial. Foi o gênio de um homem, Khalid Sheikh Mohammed, que, sob a orientação de Bin Laden, imaginou e executou uma operação de tal magnitude, usando a tecnologia do inimigo. A Revolução Francesa, a bomba atômica, levaram anos a congeminar e foram executadas por muitos protagonistas. O 11 de Setembro foi uma operação relativamente simples, realizada por muito poucos, com efeitos igualmente tectônicos.

As repercussões desta ação na vida de milhões pessoas em muitas partes do mundo é difícil de avaliar. Não foi só o equilíbrio de forças no Oriente Médio e o sistema político de vários países que mudou; há milhões de mortos, de refugiados e de esfomeados a contabilizar. Acabou de ser publicado um livro da jornalista brasileira Simone Duarte, O vento mudou de direção, que justamente narra a vida de anônimos, pessoas comuns que apenas queriam viver a sua vida, e que foram engolidas pela carga dos quatro cavaleiros do Apocalipse (Peste, Guerra, Fome e Morte) direta ou indiretamente relacionada com o 11 de Setembro.

Pode discutir-se – e tem-se discutido até à exaustão – centenas de razões para explicar o que aconteceu, desde as mais comuns, como "o imperialismo americano", como as mais exotéricas, tipo "a vontade de Alá", passando pelas mais técnicas, como as diferenças abissais entre ricos e pobres, favorecidos e desfavorecidos. Podem esmiuçar-se os pormenores das vastas consequências, como as mais evidentes – a Guerra do Afeganistão – ou as relativamente menos mediáticas; mas nada do que se considere pode apagar a importância daquele dia.

Faz vinte anos que o mundo mudou – e não foi para melhor, com certeza.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos