Religião

14/09/2021 | domtotal.com

O silêncio para além do incômodo da solidão

Silentes, estamos diante de nós mesmos: e há muito o que ouvir; inclusive o que não gostaríamos

Nossa vida está inteiramente cercada de ruídos, de barulhos constantes. Mas, como canta Lenine, 'somos feitos de silêncio de som'
Nossa vida está inteiramente cercada de ruídos, de barulhos constantes. Mas, como canta Lenine, 'somos feitos de silêncio de som' (frank mckenna / Unsplash)

Felipe Magalhães Francisco*

Somos seres bastante adaptáveis. Capacidade bastante importante, essa, de nos adaptarmos ao meio. Às vezes, porém, essa capacidade de adaptação faz com que nos acomodemos em situações difíceis desnecessárias, por não percebermos o que nos cerca. Um exemplo: muitas vezes estamos num ambiente em que há um ruído persistente e constante; por vezes até nos damos conta, incomodamo-nos com ele. Nalgum momento, alguém toma alguma atitude para interromper aquele ruído e o silêncio se revela tão confortável: pensamos em como não havíamos nos dado conta disso antes.

Nossa vida está inteiramente cercada de ruídos, de barulhos constantes. A vida pulsa, tem seus agitos e seus trânsitos, cheio de sonoridades. Mas, como canta Lenine, "somos feitos de silêncio de som". Há certas ocasiões em que a palavra precisa ser calada, para aí sim, ter algo a comunicar. Acontece, no entanto, que, tão cercados por sons, barulhos e ruídos, acabamos por nos acostumar tanto com eles que o silêncio pode tornar-se doloroso e trazer a sensação de solidão. É bastante comum, por exemplo, que algumas pessoas, quando sozinhas em casa, liguem a TV, mesmo não assistindo, para romper o silêncio.

É possível que o incômodo em meio ao silêncio seja interpretado também do ponto de vista de nossa interioridade. Precisamos considerar a possibilidade de que o incômodo provocado em experiências de silêncio seja uma dificuldade de convivermos com nossa própria companhia. Silentes, estamos diante de nós mesmos: e há muito o que ouvir; inclusive o que não gostaríamos? Há silêncios realmente ensurdecedores. Há silêncios absurdamente necessários, para um mergulho profundo naquilo que realmente importa.  

Para a tradição cristã, o silêncio é um elemento bastante presente. É, inclusive, tema teológico: ele diz algo sobre Deus e sobre nós. É praticamente impossível refletir sobre a espiritualidade cristã, sem que o silêncio não seja tema em discussão. Os artigos que compõem nosso Dom Especial abordam três perspectivas que se interpenetram e que nos ajudam a aprofundar a reflexão sobre o silêncio. 

No primeiro, O silêncio de Deus: companhia para nossa liberdade, Eduardo César Calil aponta para a perspectiva teológica de um Deus silente, mas não ausente, que torna possível o exercício de nossa liberdade para a realização de nosso ser. Reuberson Ferreira, no artigo Silêncio que gera a palavra, escuta e discernimento, reflete sobre a importância do silêncio como possibilidade de encontro interior que torna possível o nascer da palavra, a escuta da mensagem, e o discernimento da proposta. Por fim, Francisco Thallys Rodrigues aborda a dimensão orante propiciada pelo silêncio, no artigo O silêncio como oração, sobretudo em nossos tempos tão ruidosos e excessos de palavras.

Boa leitura!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo e professor. Coordena os especiais de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.



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