Brasil Política

14/09/2021 | domtotal.com

CPI da Covid: Tolentino admite conhecer Ricardo Barros, líder do governo na Câmara

Empresário também disse conhecer Bolsonaro e seus filhos, Flávio e Eduardo

Tolentino compareceu para depor após a justiça garantir à CPI a possibilidade de fazer uma condução coercitiva
Tolentino compareceu para depor após a justiça garantir à CPI a possibilidade de fazer uma condução coercitiva (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

O advogado Marcos Tolentino ficou em silêncio na maior parte das perguntas feitas pelo relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL), alegando prerrogativa profissional, Tolentino não quis falar sobre a atuação dele em empresas investigadas pela CPI e ligadas ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), o que reforçou as suspeitas dos senadores. O depoimento, um dos mais esperados pela comissão, ocorre nesta terça-feira (14).

Na fala inicial, Tolentino confirmou ter relações profissionais com Ricardo Benetti, acionista do FIB Bank, empresa usada como fiadora no contrato da Covaxin. O advogado, no entanto, negou ser o sócio oculto do FIB Bank, como acusado pelos senadores. Sobre Ricardo Barros, o depoente o classificou como um "conhecido há muitos anos, mantenho com ele vínculo de respeito e amizade, nada mais do que isso."

“Sobre a minha ligação com  Ricardo Barros, trata-se de um conhecido há muitos anos, desde que eu morei em Curitiba e que residi na cidade. Até hoje, mantenho com ele vínculo de respeito e amizade, nada mais do que isso. Em relação a meu comparecimento à CPI, quero pedir até desculpa se algum senador ter interpretado como ofensa. Não foi proposital. Não gostaria que levassem como alguma afronta... Peço até desculpa sobre isso”, apontado por Calheiros como o verdadeiro dona da FIB Bank.

A CPI identificou atuação de Tolentino em cartas de fiança à União em contratos que somam aproximadamente R$ 600 milhões . "Isso demonstra um conluio nunca visto na história da República" afirmou Renan Calheiros. "O Ricardo Barros está presente em todas as negociatas e sempre muito próximo do depoente”.

Marcos Tolentino admitiu que tem como ativos precatórios judiciais da União. O depoimento chamou atenção em função de o líder do governo na Câmara defender desde setembro do ano passado o parcelamento de precatórios para abrir espaço a um programa social do líder do governo.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) apontou a seguinte relação suspeita: parcelar precatórios faz com que escritórios de advocacia como o de Tolentino paguem valores menores à vista para os beneficiados e fiquem com o direito de receber as dívidas da União em quantias maiores no futuro.

"É um interesse que, me parece, nesse caso conjugam", disse o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), ao falar sobre o interesse de Tolentino nos precatórios e atuação do líder do governo na Câmara.

A CPI avalia encaminhar o indiciamento de Ricardo Barros ao Ministério Público Federal (MPF). O deputado nega ter atuado em contratos suspeitos no Ministério da Saúde e agido para facilitar a compra da Covaxin, investigada pela comissão.

O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), ironizou as citações a Ricardo Barros e afirmou que o presidente Jair Bolsonaro chamará o ex-presidente Michel Temer para assinar uma carta e pedir desculpas por ter nomeado o deputado na liderança.

"Intocável perante o presidente Bolsonaro, intocável perante os apoiadores, porque permanece. Mesmo que a gente mostre aqui, desnude o líder na Câmara do presidente Bolsonaro, isso não vai mudar nada não, vai continuar lá", disse Aziz.

Integrantes da CPI já sabiam que o empresário era ligado ao deputado, apontado por senadores como articulador de negociações sob suspeita de irregularidades. O nome de Barros foi apresentado à comissão pelo servidor público Luis Ricardo Miranda e o irmão dele, o deputado Luis Miranda (DEM-DF), quando denunciaram irregularidade e superfaturamento no contrato de compra da vacina indiana Covaxin, da Bharat Biotech. Os irmãos levaram a denúncia ao presidente da República, Jair Bolsonaro, que então teria mencionado o nome de Ricardo Barros.

Integrantes da CPI estão convencidos da participação de Barros em negócios irregulares no governo.

Sobre Jair Bolsonaro, o empresário disse conhecê-lo desde o tempo em que o presidente era deputado federal, mas negou relação de amizade ou qualquer outro tipo de relacionamento.

“Estive com ele em alguns encontros, meramente casuais. Eu o conheci quando ainda deputado, poucas vezes... Encontrei também como presidente da República e isso é totalmente registrado”, disse.

O advogado disse ainda conhecer o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) "de eventos políticos e sociais". E disse não conhecer o filho caçula do presidente, Jair Renan.

Precisa Medicamentos

Sobre Francisco Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, representante no Brasil da Bharat Biotech, Marcos Tolentino se limitou a dizer que o conheceu no "ambiente empresarial há alguns anos".

“ Atendi o senhor Francisco Maximiano com relação a uma ação pessoal de pequena monta, com sigilo profissional, que me impede de prestar maiores informações como advogado, mas há o acesso via autos que acaba sendo público. Já em relação à Precisa Medicamentos, jamais os representei ou realizamos qualquer negócio, até porque seria o impossível”,disse.

Segundo a testemunha, seria impossível ele ter participado das tratativas de compras da Covaxin porque sofreu por meses com consequências da Covid-19 e chegou a ser entubado em fevereiro. Nos meses seguintes, teve infecção generalizada e duas paradas cardíacas, o que lhe obrigou a passar por um longo período de recuperação.

“Todo esse período de fevereiro, março, abril, depois voltando para casa, ficando sem andar, tive que reaprender todas as atividades [...] E, quando saí desse estado, tive que reaprender as minhas limitações mais elementares, como andar, me alimentar”,explicou.

Depois citar por algumas vezes seu sério risco de morte com a doença, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) disse que era solidário, mas não era adequado a testemunha levar a enfermidade dele à comissão e, principalmente, se esconder para não responder a perguntas.

“Não foi a enfermidade que o impediu a ser sócio oculto da FIB Bank, nem de participar de negócios escusos, nem o impediu de vir aqui acompanhar o Ricardo Barros dar um espetáculo nesta CPI”, afirmou.


Agências Estado e Senado/DomTotal



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