Religião

15/09/2021 | domtotal.com

Viagem do papa à Eslováquia termina com missa para multidão

No dia anterior, Francisco esteve com ciganos, a quem não é habitual que lhes queiram ver, e com jovens

O papa Francisco celebra missa no santuário de Sastin, a 70 km da capital da Eslováquia, Bratislava
O papa Francisco celebra missa no santuário de Sastin, a 70 km da capital da Eslováquia, Bratislava (Tiziana Fabi/AFP)

O papa Francisco finalizou nesta quarta-feira (15) a visita oficial de quatro dias à Eslováquia, um país de 5,4 milhões de habitantes no centro da Europa, com uma missa no santuário mariano de Sastin para 50 mil fiéis.

Durante a viagem, o papa de 84 anos fez 12 discursos e visitou cinco cidades, com uma escala em Budapeste (Hungria), por ocasião de um congresso religioso (Congresso Eucarístico Internacional), sem esconder o agradecimento por interagir com os padres e os jovens.

Acompanhado por um médico e duas enfermeiras durante a visita, ele apareceu sorridente e em boa forma, mesmo com uma agenda muito carregada. Quem não soubesse que Francisco foi operado há não muito tempo, também não o iria saber. Ele parecia completamente recuperado e saiu várias vezes do carro, quando saudava a população, para se aproximar das pessoas.

O santuário de Sastin, conhecido como a basílica das Sete Dores da Virgem Maria, cuja história remonta ao século 14, é um local de peregrinação muito famoso na Eslováquia.

O pontífice se reuniu nesta quarta-feira pela primeira vez com os bispos, com os quais rezou na igreja do santuário, antes de presidir uma missa em um grande campo ao lado do templo. Antes da cerimônia, ele percorreu o trajeto de papamóvel e, depois, encontrou a multidão.

Diante dos fiéis da Eslováquia, país que já teve um regime comunista e que se define como 60% católico mas pouco praticante, o sumo pontífice defendeu "uma fé que não seja abstrata, que aporte solidariedade àqueles que necessitam".

Na homilia da missa a que presidiu , Francisco pediu uma fé ativa, feita de solidariedade e acolhimento que esbata egoísmos pessoais e coletivos, uma fé solidária e acolhedora que proteja e guarde a vida.

O papa concluiu que face a Jesus, não se pode ficar morno, com "o pé em dois sapatos", referindo que também hoje a Eslováquia precisa de profetas "tecedores de diálogo", que façam "resplandecer a vida fraterna na sociedade, onde muitas vezes nos dividimos e contrapomos" que difundam "o bom perfume do acolhimento e da solidariedade, onde muitas vezes prevalecem os egoísmos pessoais e coletivos; que protegem e guardam a vida onde reinam lógicas de morte".

Muitos cristãos passaram a noite na capital eslovaca. Eles dormiram em barracas e aguardaram o papa Francisco, que muitos temem ter visto pela última vez. Entre os participantes da missa final do papa Francisco no santuário de Sastin estava o ex-secretário particular e amigo de João Paulo II, o cardeal polonês Stanislaw Dziwisz. Este último está sendo investigado por uma denúncia na justiça por supostamente ter ocultado casos de abusos sexuais de menores de idade na Igreja.

Menos pessoas do que o esperado se aproximaram durante os eventos com o papa Francisco em um país onde o temor de contágio da Covid-19 é real, sobretudo porque apenas metade da população foi vacinada.

A visita do papa à Hungria e à Eslováquia fica marcada por fortes apelos à integração e à inclusão. Por várias vezes, Francisco manifestou-se contra a exclusão e o isolamento, tanto das pessoas como das nações. Foi assim, na terça-feira, em Kosice, quando visitou a comunidade cigana e sublinhou que colocar as pessoas em guetos não resolve nada. Na ocasião, Francisco alertou que quando se "cultiva o fechamento", mais cedo ou mais tarde acaba por explodir a raiva. O caminho para uma convivência pacífica é a integração. Foi também o que quis transmitir, por outras palavras, na missa a que presidiu, no último domingo, em Budapeste, onde apelou à inclusão e à integração, tanto das pessoas como das nações.

João Paulo II visitou a Eslováquia três vezes. Sua última visita, em dezembro de 2003 durante quatro dias, foi particularmente difícil para o papa polonês, muito abalado pelo mal de Parkinson. Ele concluiu a viagem número 102 de seu pontificado, quando tinha 83 anos, com uma missa solene em Bratislava para 200 mil pessoas.

Visita aos ciganos

A visita do papa ao bairro cigano de Lunik, situado nos subúrbios de Kosice, já perto da Ucrânia, foi uma surpresa para seus moradores, pessoas nada habituadas a que se queiram encontrar com eles, ainda mais quando se pensa que o visitante é um pontífice. Foi o que relatou Kevin, morador de Lunik, de 21 anos, que estava visivelmente entusiasmado, poucos minutos antes da chegada de Francisco. "Estou muito contente pela visita do papa. Não é habitual que aqueles que visitam a Eslováquia nos queiram ver, ficamos todos surpreendidos ao saber que o papa viria encontrar-se conosco."

Minutos depois, o papa foi recebido com um caloroso aplauso. Francisco sorriu e acenou à comunidade cigana e depois, já por palavras, deixou um forte um apelo à integração de todos quantos são vítimas do preconceito. O papa sublinhou, no seu discurso, que "todos ficamos mais pobres quando discriminamos, ficamos mais pobres em humanidade", e insistiu que colocar as pessoas em guetos não resolve nada. O caminho é a integração.

"Queridos irmãos e irmãs, muitas vezes fostes objeto de preconceitos e juízos cruéis, estereótipos discriminatórios, palavras e gestos difamatórios. Com isso, todos ficamos mais pobres, pobres em humanidade. O que precisamos para recuperar a dignidade é passar dos preconceitos ao diálogo, dos fechamentos à integração", disse Francisco, frisando que os ciganos não estão nas margens, mas no coração da Igreja.

Essas palavras foram escutadas com emoção e seguidas de aplausos desta comunidade, onde muitos assistiam dos prédios bastante degradados. Elas se amontoavam nas janelas, porque já não cabiam na praça, e acenavam ao papa, incluindo muitas crianças. Numa das janelas podia se ver uma faixa onde se lia: "Francisco, bem-vindo até nós".

Encontro com os jovens

Depois, o sumo pontífice seguiu para o Estádio Lokomotiva, também aqui em Kosice, um recinto a abarrotar de jovens, a quem disse para não terem medo de sonhar com uma beleza que vá além das aparências e das modas, e para não terem medo de formar uma família.

"Por favor, não deixemos transcorrer os dias da vida como episódios duma telenovela. Sonhai uma beleza que vá para além da aparência, para além das tendências da moda. Sem medo, sonhai formar uma família, gerar e educar filhos, passar uma vida inteira partilhando tudo com outra pessoa, sem vos envergonhardes das próprias fragilidades, porque existe ele, ou ela, que as acolhe e ama, que te ama tal como és".

A propósito de família, o papa não esqueceu os mais velhos. Pediu aos jovens que vão ter com os avós, que lhes façam perguntas e reservem tempo para ouvir as suas histórias. Há hoje o perigo de crescermos desenraizados, porque temos a tendência para correr, para fazer tudo depressa.

Francisco disse a todos estes jovens que não devem deixar que, aqueles que lhes aparecem pela internet, sejam mais familiares o que os rostos que os geraram. De outro modo, sublinhou o papa, corremos os riscos de perder as verdadeiras raízes.

Este tem sido um dia muito intenso para o papa, que já esta manhã presidiu a uma missa de rito Bizantino, em Presov, e se referiu aos mártires que no passado sofreram e morreram na Eslováquia, por testemunharem a fé cristã.

Foi isso mesmo, perante muitos milhares de fiéis concentrados num parque desportivo, o papa pediu a todos eles para que deem testemunho claro do amor de Cristo, tal como fizeram os mártires.

Francisco sublinhou que, graças a Deus, já não há na Eslováquia quem persiga os cristãos, como ainda acontece noutras partes do mundo, mas acrescentou que não faltam ocasiões para dar um testemunho de fé.


AFP/Rádio Renascença/Dom Total



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