Religião

17/09/2021 | domtotal.com

5 mudanças na política econômica podem nos ajudar em viver em harmonia com a criação

É possível estabelecer um caminho pratico para viver a 'Laudato si'

Este plástico foi coletado durante uma limpeza do porto de Hamilton, Ontário, em 2019. Um estudo do Fórum Econômico Mundial descobriu que os plásticos no oceano podem superar os peixes em 2050
Este plástico foi coletado durante uma limpeza do porto de Hamilton, Ontário, em 2019. Um estudo do Fórum Econômico Mundial descobriu que os plásticos no oceano podem superar os peixes em 2050 (Unsplash/Jasmin Sessler)

Alex Mikulich Action*
NCR

Nossa "capacidade humana de transformar a realidade", ressalta o papa Francisco na encíclica Laudato sí, "deve seguir alinhada com o dom original de Deus" (LS nº 5). Esta reflexão, assim como outra anterior que fiz sobre o apelo do papa Francisco ao decrescimento, ou à abundância radical sem crescimento econômico, enfatiza como as estruturas econômicas globais e uma monocultura orientada para o "crescimento" capitalista - a insistência no crescimento econômico inabalável - destroem o planeta.

Este comentário sugere cinco áreas de política pública que podem facilitar a mudança de uma economia de crescimento destrutivo para uma economia "circular" que regenera os ciclos da natureza e da Terra, eliminando resíduos e poluição e reutilizando, reparando e reciclando produtos e materiais.

Como explica a ecologista Vandana Shiva, o "crescimentismo" (growthism) capitalista não considera valiosos os ciclos de vida naturais da Terra, como seus poderosos ciclos hidrológicos da água, até que uma corporação como a Coca-Cola extraia a água da Terra e cria uma garrafa de água ou refrigerante. A obscenidade desse sistema antivida é que a extração de água conta como "crescimento", mesmo quando o processo de engarrafamento destrói os ciclos hidrológicos da Terra e empobrece as economias locais.

A economia baseada em combustíveis fósseis do Norte Global está ultrapassando os limites da Terra, tanto que o colapso do manto de gelo dos polos, a perda maciça de florestas (incluindo a Amazônia), as mudanças abruptas na circulação dos oceanos e a perda de biodiversidade são provavelmente irreparáveis de acordo com o Sexto relatório de avaliação elaborado pelo grupo de trabalho científico do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas, lançado no início de agosto.

Como explica o antropólogo ecológico Jason Hickel em sua publicação Menos é mais, o decrescimento não trata principalmente da redução do PIB; mas mais importante que isso, "trata-se de reduzir a produção de material e a taxa de transferência de energia da economia e trazê-la de volta ao equilíbrio com o mundo vivo, distribuindo renda e recursos de forma mais justa, libertando as pessoas do trabalho desnecessário e investindo em bens públicos de que as pessoas precisam para prosperar".

A "taxa de transferência" é a energia e os fluxos de recursos que entram e saem da economia e da natureza. O problema do modelo de crescimento atual, especialmente no Norte Global, é que seus rendimentos significam mais poluição do ar, mais extração mineral, mais destruição de habitat, mais emissões de carbono e mais degradação do clima, mais acidificação dos oceanos, mais poluição da água e um oceano no qual pode haver mais plástico do que peixes em 2050.

Aqui estão cinco áreas de política pública que podem ser desenvolvidas para facilitar uma economia regenerativa pós-crescimento:

1) Acabar com a obsolescência planejada

Se quisermos viver em equilíbrio com o mundo dos seres vivos, podemos começar encerrando a "obsolescência planejada", a prática de "encurtar deliberadamente a vida útil de um produto por um fabricante para aumentar o consumo". O designer industrial americano Brooks Stevens popularizou o termo na década de 1950, descrevendo como "toda a nossa economia se baseia na obsolescência planejada".

Em vez disso, precisamos controlar conscienciosamente quais recursos usamos e como. Hickel recomenda um "direito de consertar", tornando ilegal para as empresas a produção de coisas que não podem ser consertadas. O Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável sugere uma opção adicional, mudando para acordos de arrendamento onde as empresas fornecem produtos e os mantêm, a fim de garantir longa vida útil e uso compartilhado. Finalmente, podemos exigir que qualquer novo produto atenda aos padrões éticos ecológicos que facilitam a regeneração dos ciclos naturais da Terra.

2) Cortar a publicidade

De acordo com um estudo recente, a publicidade desempenha um papel fundamental, embora indireto, no clima e na degradação ecológica, ao encorajar "valores e objetivos materialistas, o trabalho voltado para o consumo e o ciclo de gastos", que estão em "conflito com a priorização do transcendente", que visa cuidar do meio ambiente.

Os cientistas alertam que a propaganda e a afluência econômica agravam os problemas de uma economia impulsionada pelo consumo ao exacerbar as desigualdades sociais e econômicas e aumentar o uso de materiais, energia, água e solo. Por exemplo, Hickel explica em Menos é mais que os varejistas de roupas agora criam peças para serem descartadas, fazendo que os consumidores comprem novas para acompanhar as últimas tendências da moda. O problema para o planeta é que o "uso de materiais pela indústria de vestuário disparou para mais de 100 milhões de toneladas por ano, e o uso de energia, água e solo também disparou com ela".

São Paulo e Paris demonstram como a redução de propagandas externas ou a proibição total de propagandas nas proximidades das escolas promove a saúde humana e ambiental. Outras cidades, como Londres, Inglaterra e Grenoble, França, substituíram anúncios por árvores, arte pública e avisos comunitários.

3) Circular a propriedade dos produtos

Mudar a propriedade de usuários de produtos e serviços é uma forma crítica de se mover em direção a uma economia circular em harmonia com os ciclos de vida da Terra. Se 10 vizinhos compartilham um cortador de grama, por exemplo, isso reduz a demanda por cortadores de grama por um fator de 10, enquanto economiza tempo e dinheiro para todos os vizinhos. Localidades que expandem o uso compartilhado também podem reduzir significativamente o aterro sanitário e o lixo. Reduzir o número total de carros por meio do uso compartilhado e expandir o transporte público oferece as maneiras mais eficientes de reduzir os materiais e a energia necessários para se locomover. A criação de uma infraestrutura e cultura para bicicletas também melhora a saúde e mitiga as mudanças climáticas.

4) Acabar com o desperdício de alimentos

O Projeto Drawdown, de redução dos gases de efeito estufa, cuja missão é alcançar "o ponto no futuro em que os níveis de gases de efeito estufa na atmosfera param de subir e começam a declinar constantemente... o mais rápido, seguro e equitativamente possível", aponta que a "economia global, o meio ambiente, e o custo social do desperdício de alimentos é estimado em 2,6 bilhões de dólares, gerando emissões desnecessárias de gases de efeito estufa e desperdiçando água e terra, impactando negativamente os ecossistemas naturais". A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura oferece 15 dicas para ajudar as pessoas a "fazer com que não desperdiçar comida seja um estilo de vida".

5) Reduza as indústrias ecologicamente destrutivas

O World Resources Institute descobriu que a pecuária é a maior indústria que contribui para o desmatamento global. Como diz Hickel, "a Amazônia está literalmente sendo queimada para a venda de carne bovina", mas "a carne bovina responde por apenas 2% das calorias que os humanos consomem". Outras indústrias ecologicamente destrutivas que devem ser reduzidas incluem armamentos, jatos particulares, plásticos descartáveis, SUVs, construção de "Súper-mansões" e as companhias aéreas comerciais.

Por último, e certamente não menos importante, oito especialistas em decrescimento recomendam "reduzir o excesso de produtividade no Norte Global e aumentar a produtividade necessária no Sul Global para que o uso de energia e recursos convirja em níveis per capita consistentes com o bem-estar universal e a estabilidade ecológica".

Este conjunto de políticas oferece a possibilidade de viver "de acordo com o dom original de Deus" da vida e do amor (Laudato si). A esperança de vida e sua regeneração está em nossas mãos.

Publicado por NCR


Tradução: Ramón Lara

*Alex Mikulich é um eticista social católico anti-racista e ativista. É autor de Unlearning White Supremacy: A Spirituality for Racial Liberation, publicado na Orbis Books na primavera de 2022.



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