Religião

16/09/2021 | domtotal.com

Papa desafiou católicos a ler a 'Divina comédia' este ano. Vamos fazê-lo juntos!

Convite de Francisco coincide com os 700 anos da morte de Dante Alighieri

A exploração de Dante do mundo espiritual Afresco de Michelino
A exploração de Dante do mundo espiritual Afresco de Michelino (Jastrow/Wikimedia)

Douglas V. Henry*
America

Desde 2015, Gallup publica anualmente o Relatório de emoções globais, que estranhamente afirma ser uma "medida de tudo que faz a vida valer a pena". O último relatório aponta que 2020 foi um ano recorde para emoções negativas, com "experiências de estresse, preocupação, tristeza e raiva" em níveis históricos. Essas descobertas não são surpreendentes. As recentes convulsões econômicas em muitas áreas ao redor do mundo aumentaram o hiato de riqueza e exacerbaram a estratificação social, ambos alimentando o estranhamento, o ressentimento e o cinismo. Paralelamente a tudo isso, persistem outras realidades: uma pandemia global que causou mais de quatro milhões de mortes, a consequência de séculos de injustiça racial em muitos países e a prática da política nacional como um esporte sangrento.

Ainda assim, ao longo da história global, certamente podemos encontrar tempos mais sombrios. Um pouco de humildade sobre nossos desafios em comparação com os de nossos antepassados é apropriado. Embora seja fácil considerar o presente como o pior momento histórico possível, devemos também colocar nosso sofrimento real ao lado de um longo legado de paroxismos genocidas, desastres naturais cataclísmicos, surtos de pandemias de alta mortalidade como a peste negra e guerras mundiais devastadoras. Além disso, dentro do âmbito prodigioso dos escritos humanos, uma ou duas obras podem reivindicar melhor o otimismo humano. Mais do que as últimas pesquisa de opinião pública que medem as coisas que fazem a vida valer a pena.

Ler a Divina comédia juntos fornece uma ocasião para repensar a graça de Deus, para cultivar nosso desejo e dever de ajudar uns aos outros.

Acontece que o ano de 2021 coincide com a oportunidade de ser guiado e desafiado por um homem cuja própria vida foi repleta de dificuldades e beleza. Setecentos anos atrás, em setembro deste ano, Dante Alighieri morreu. Dante não era estranho à política brutal, à mudança climática, à falta de comida e fome, às doenças, à catástrofe econômica, à falta de moradia e à guerra. Em meio à dor e à agitação, o poeta escreveu o que o estudioso literário R.W.B. Lewis identifica como "o maior poema já escrito". O papa Francisco é apenas um pouco mais contido em elogiar a Divina comédia como "uma das mais altas expressões do gênio humano", aquela que mostra "com beleza poética a profundidade do mistério de Deus e do amor".

Em sua carta apostólica de 2021 Candor lucis aeternae, o papa faz perguntas sobre a grande obra de Dante. "O que pode nos comunicar nos dias de hoje? Ele ainda tem algo a nos dizer ou nos oferecer? Sua mensagem é relevante ou útil para nós? Ainda pode nos desafiar?" Com respostas confiantes e afirmativas, o papa Francisco nos exorta a ler, ouvir e imitar Dante, "para nos tornarmos seus companheiros". Seu convite não é apenas para quem já conhece e ama o trabalho de Dante, mas para quem procura uma voz diferente em resposta ao nosso momento atual.

Não está em jogo um mero diletantismo ou exercício de valorização cultural, mas o que São Paulo VI considerava a visão moral eficaz da Divina comédia, que conduz "homens e mulheres do caos à sabedoria, do pecado à santidade, da pobreza à felicidade, da aterrorizante contemplação do inferno à beatífica contemplação do céu".

Entre os benefícios concomitantes da leitura da épica obra de Dante está o novo arranjo dos laços sociais desgastados, especialmente se muitos seguirem o apelo do papa. Considere que a Divina comédia, especialmente em sua primeira parte, o "Inferno", está estranhamente sintonizada com o custo das fissuras sociais. Através dos conflitos amargurados da Florença do século 14, Dante ganhou uma visão profunda dos círculos infernais nos quais os seres humanos caem e arrastam outros para baixo, repleto de revelações acusadoras e desculpas inventadas. Em nenhum outro lugar na literatura mundial um autor excedeu a compreensão de Dante da forma diminuída de vida pessoal e comunitária que acompanha o orgulho, a inveja, a ira, a preguiça, a ganância, a gula e a luxúria.

Em contraste, a seção intermediária da Divina comédia, o "Purgatório", retrata construtivamente uma cena após outra, em constante movimento. Os frutos da humildade e do arrependimento, possibilitados pela cooperação com a graça divina, dão origem ao amor pelos outros, à prontidão para prestar assistência e, de fato, ao desejo de ver o próximo no seu melhor. O discipulado dos santos, pelo qual se ascende ao céu, é mutuamente interdependente e cooperativo. Os santos se apoiam um no outro e cantam juntos como alegres grupos de peregrinos, mesmo enquanto carregam fardos difíceis. Aqui está a comunidade refeita à luz literal de Deus, luz que ilumina o caminho e permite a ascensão dos santos.

Embora o último terço do poema de Dante, o "Paraíso", seja difícil, é aqui que nos juntamos ao maior escritor italiano ao imaginar a vida juntos no melhor que a vida tem para nos oferecer. Em altíssimas esferas celestiais, cada uma retratada como gloriosa à sua própria maneira, uma multidão de santos contempla com admiração arrebatadora a glória de Deus. Essa multidão ama a Deus e ama seu próximo em Deus de formas vívidas em todos os lugares. Ninguém inveja a outro o maior deleite conferido pela graça de Cristo. Os rivais se tornaram amigos rapidamente, revezando-se para elogiar os méritos do outro. Eles adoram o Senhor na beleza da santidade; o esplendor da Igreja reflete sua visão compartilhada e alegre do Deus trino.

De volta ao nosso presente mundano, os novos planos políticos de muitos governos ao redor do mundo trarão alívio para inúmeras pessoas que enfrentam provações econômicas. Ainda assim, comunidades em plena expansão dependem de ajuda além de comida, aluguel, saúde e empregos. Para esse fim, neste sétimo centenário da morte de Dante, a leitura da Divina comédia em conjunto oferece uma ocasião para repensar a graça de Deus, para cultivar nosso desejo e dever de ajudar uns aos outros, e para tecer "a lasca desgrenhada do cuidado" - não através do sono, como Shakespeare imaginou, mas através do presente de uma amizade inesperada e vivificante.

Uma excelente resposta ao apelo do papa é "100 Dias de Dante", um recurso acessível pela web do Honors College da Baylor University, desenvolvido em colaboração com as universidades University of Dallas e Biola, Eastern, Gonzaga e Whitworth. No que promete ser o maior grupo de leitura de Dante do mundo, os participantes irão, de setembro de 2021 até a Páscoa de 2022, ler um canto de cada vez, aprendendo com aqueles que conhecem e amam Dante enquanto compartilham suas percepções e perguntas.

O poder da Divina comédia sobre as gerações de leitores, escreve o clérigo e escritor do século 19, R.W. Church, consiste em sua capacidade de "acanhar suas insignificâncias, sua magnanimidade, sua fraqueza, sua energia viva, sua indolência, sua severa e triste grandeza superando os pensamentos mais duros, sua ternura emocionante superou o mau humor e amenizou a angústia, sua forte fé barrou o desespero e acalmou a perplexidade, sua vasta compreensão transmitiu o senso de harmonia para a visão de verdades conflitantes".

Dante me desafia novamente cada vez que leio sua obra épica. O poeta me lembra o alto preço do pecado, pessoal e social. Ele me dá exemplos daqueles cuja fidelidade incansável a Cristo os aproxima da santidade e que, assim, elevam a vida daqueles ao seu redor. Mal posso imaginar a glória da bendita companhia que Dante apresenta no céu; seu poema inspira uma grande saudade. Não há melhor momento do que o presente para trocar frivolidades, fraquezas, indolências, angústias, desespero e perplexidade por um esforço significativo, por verdadeira generosidade de espírito, energia vital, cuidado carinhoso, esperança inabalável e uma ampla visão compartilhada. Vamos ler juntos!

Publicado por America


Tradução: Ramón Lara

*Douglas V. Henry é reitor do Honors College da Baylor University



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