Brasil

20/09/2021 | domtotal.com

Diagnóstico no divã

É essa adesão de tanta gente que agrava o quadro doentio da pessoa

De minha parte, sinceramente, não acho que esteja com algum problema mental, mas isso é o senhor que deve dizer
De minha parte, sinceramente, não acho que esteja com algum problema mental, mas isso é o senhor que deve dizer (Austin Park / Unsplash)

Afonso Barroso*

- Doutor, eu vim procurá-lo a conselho de um amigo que se diz preocupado com o meu comportamento. De minha parte, sinceramente, não acho que esteja com algum problema mental, mas isso é o senhor que deve dizer.

- (Analista) Assim como grande pare das pessoas que o conhecem, também eu acho que o senhor tem algum distúrbio e precisa de ajuda. Mas isso é o que vamos verificar. Em primeiro lugar, quero que diga o que realmente sente em relação às outras pessoas. Costuma sentir um desejo incontrolável de agredi-las, de ofendê-las ou até pensa em espancá-las quando discordam das suas opiniões?

– Às vezes acontece. Se eu estou convicto de que falei ou fiz a coisa certa, não acho justo que alguém discorde. Aí eu perco a paciência. Isso me parece normal, o senhor não acha?

- Você dorme bem à noite ou costuma ter insônia?

- Pra dizer a verdade, doutor, eu durmo mal. Geralmente costumo passar horas rolando na cama, sem achar o sono. Fico pensando em muitas coisas, e até coisas ruins, devo dizer.

- Tem preconceito contra homossexuais?

- Preconceito? De modo algum. Só não gosto, não aprovo. Homem foi feito pra mulher e vice-versa, Meu avô dizia que homem com homem dá choque. Mulher com mulher também. Dá certo não, doutor.

- Já pensou em matar alguém?

- Mas, doutor, esta é uma coisa muito pessoal.

- Tudo que estamos conversando aqui é pessoal. Faz parte do tratamento. Você tem que ser sincero e não contestar qualquer pergunta. Repito: Já pensou em matar alguém?

- Pra dizer a verdade, sim. Uma ou duas vezes cheguei a pegar meu revólver com essa finalidade, mas acabei não levando a cabo minha intenção. Acho que foi uma coisa de momento, sabe como é.

- Acha que faz sempre a coisa certa?

- Com absoluta certeza. Tanto que muita gente me apoia.

- É isso. Essa adesão de tanta gente contribui para agravar o seu quadro doentio.

- Mas qual é mesmo o meu problema, doutor?

- Numa primeira avaliação, concluo que o senhor sofre de um mal conhecido como Demência de Corpos de Lewi. Trata-se de depósitos anormais de uma proteína chamada alfa-sinucleína no cérebro. São chamados de corpos de Lewi e afetam substâncias químicas com alterações que levam a problemas de pensamento, comportamento e humor. Como acontece com o Alzheimer, a pessoa acometida desse mal apresenta comportamentos estranhos ou esquisitos. Às vezes sente o desejo de perseguir outras pessoas. Como costuma ser chamado de mito, o doente se sente como um deus, onipotente, todo poderoso, e precisa ser contido às vezes à base de uma camisa de força.

- O senhor pode explicar, então, por que tenho tantos apoiadores?

- Sim. De acordo com pesquisas científicas, esse tipo de demência ocorre com uma parte expressiva da população. Estima-se em 20% a 25% o índice de pessoas que sofrem do mal de Corpos de Lewi. E o que é mais grave: fazem tudo que o "mito" manda. Sabe-se que Hitler e outros ditadores eram portadores dessa doença e canalizavam admiradores aos milhares, milhões mesmo, que pensavam como eles, com sua índole sanguinária.

- Agora me diga, doutor: tem cura? Tem?

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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