Religião

17/09/2021 | domtotal.com

Disputa pelo Cristo Redentor vira caso de polícia entre Arquidiocese do Rio e Governo Federal

Apesar de cobrar as taxas, o ICMBio não repassa nenhum valor à Igreja Católica afirma a arquidiocese. Na semana passada, religiosos foram proibidos de entrar no templo

Só nos primeiros 11 dias de setembro religiosos ou funcionários haviam sido barrados três vezes.
Só nos primeiros 11 dias de setembro religiosos ou funcionários haviam sido barrados três vezes. (4FLY/Pexels)

Uma disputa entre a Arquidiocese do Rio e o Ministério do Meio Ambiente foi parar na delegacia. Na última segunda-feira (13), a arquidiocese registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) do Rio. Acusava o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) de intolerância religiosa. Segundo a queixa, o órgão federal teria, ilegalmente, impedido a passagem de religiosos rumo ao Santuário Cristo Redentor.

O santuário é composto pela estátua do Cristo Redentor - principal símbolo do Rio - e o seu entorno. O conjunto inclui o mirante e a capela de Nossa Senhora Aparecida, onde são celebrados batizados, casamento, missas e vigílias. Toda essa parte construída no topo do morro do Corcovado é mantida e administrada pela Arquidiocese do Rio, tendo como responsável padre Omar Raposo, reitor do santuário.

Mas o morro e todo o santuário ficam no Parque Nacional da Tijuca, que é uma área de floresta administrada pelo ICMBio, órgão do Ministério do Meio Ambiente. O instituto tem o poder de controlar o fluxo de visitantes no lugar.

Os turistas têm duas formas de chegar ao monumento. Uma é pelo Trem do Corcovado; outra, por vans credenciadas pelo ICMBio. O transporte de trem custa de R$ 27 (para idosos a partir de 60 anos residentes no Brasil) a R$ 88 (bilhete comum para sábado, domingo ou feriado). A tarifa da van é de R$ 28,20 a R$ 91,40, conforme o ponto de embarque, o dia da semana e outros fatores.

Segundo a arquidiocese, nesse valor estão embutidas duas taxas, de transporte e de visitação, cobradas pelo órgão ambiental federal. Por lei, a administração de qualquer parque nacional pode cobrar taxas de seus visitantes. Nesse caso, o ICMBio só cobra de quem vai ao Cristo - a visita a qualquer outro ponto do Parque Nacional da Tijuca é gratuita.

Apesar de cobrar as taxas, segundo a arquidiocese o ICMBio não repassa nenhum valor à Igreja Católica, que diz arcar com as despesas de conservação do monumento. Além dos turistas, circulam pelas vias de acesso ao Cristo Redentor os religiosos responsáveis pelo santuário e seus eventuais convidados. Quando se promove um casamento, por exemplo, uma lista com nomes de todos os convidados é enviada previamente pelo santuário ao ICMBio, solicitando para eles a autorização de acesso.

No último sábado, porém, uma comitiva composta pelo padre Omar e pessoas que iriam participar de um batizado agendado para as 7h30 foi barrada por funcionários do ICMBio, que alegou não haver autorização para que seguissem adiante. O santuário divulgou nota, dizendo que, só nos primeiros 11 dias de setembro religiosos ou funcionários haviam sido barrados três vezes.

Incidentes

Um incidente ocorreu em 2 de setembro. Funcionários de uma empresa que cuida da iluminação do monumento foram barrados. Iam iluminar o monumento de verde, em uma campanha pela doação de órgãos. Foram igualmente barrados veículos e funcionários da Secretaria de Saúde. No dia seguinte, convidados da arquidiocese foram também impedidos de chegar ao monumento, para uma celebração litúrgica e um café da manhã.

Em agosto houve outro problema. No dia 22, a fiscalização do Parque Nacional da Tijuca falhou ao não identificar turistas franceses que se esconderam na mata após o encerramento da visitação. Na manhã do dia 23, o monumento foi invadido por esses turistas, que arrombaram os cadeados da porta de acesso ao interior do monumento e subiram até a cabeça e os braços do Cristo, pondo em risco a própria vida.

A nota do santuário diz que "nos últimos meses, a postura dos seguranças do Parque Nacional da Tijuca tem sido hostil em relação ao padre Omar e aos funcionários". "O ICMBio tem a postura de relativizar a autoridade da Igreja, que cuida, com todo o zelo, do monumento ao Cristo Redentor."

Após o incidente de sábado, o ICMBio também divulgou uma nota. "Por questões de segurança dos frequentadores e conservação ambiental, todos os veículos que acessam as áreas restritas precisam se identificar. Eventualmente essa checagem pode levar um pouco mais de tempo, devido à quantidade de frequentadores." No domingo, o padre Omar foi ao Vaticano debater essa situação. Na segunda, a arquidiocese registrou o BO contra o ICMBio.

Procurados na terça-feira, nem ICMBio nem ministério quiseram se manifestar. O Estadão apurou que o ICMBio está proibido de falar a respeito - qualquer manifestação cabe ao ministério.

Lojas

Outra questão que opõe os dois lados são seis lojas situadas no entorno do Cristo. Nos anos 1930, a União cedeu à Igreja o domínio sobre a área onde estão os espaços de comércio. Desde a década de 1990, porém, as taxas pagas pelos lojistas ficam com a União. Em julho de 2019, entretanto, o ICMBio enviou comunicado aos lojistas. Deu prazo de 90 dias para que desocupassem os espaços.

Desde aquela época, vem sendo travada uma disputa judicial entre os lojistas e o ICMBio, mas os lojistas saíram. Atualmente todas as lojas estão vazias.

Resultado: para beber água ou fazer um lanche durante um passeio os visitantes do Cristo precisam levar a própria água e comida. O banheiro mais próximo, que ficava em um restaurante, também está fechado.



Agência Estado



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