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18/09/2021 | domtotal.com

O Afeganistão e o declínio do Império Americano

Gastos militares aceleram queda da economia dos EUA, que se torna cada vez mais desigual

Tropas americanas passam por insurgente morto em ataque suicida no Afeganistão
Tropas americanas passam por insurgente morto em ataque suicida no Afeganistão (AFP)

José Eustáquio Diniz Alves*

A cada ano o peso da influência da economia americana fica menor. Os pessimistas dizem que a continuidade deste processo é irreversível e inevitável e significa o declínio contínuo do império americano. Os otimistas dizem que este processo é natural e até positivo, pois outros países passam a ter responsabilidades com a economia internacional e passam a dividir as responsabilidades globais.

O fato é que a economia dos EUA tem tido um desempenho abaixo da média mundial e esta tendência vem se agravando nas últimas décadas, devendo ser a marca dominante no século 21. Há vários economistas de renome, como Robert Gordon e Larry Summers que falam em estagnação secular. Ou seja, a prevalência de baixas taxas de crescimento econômico no século 21 será o novo normal e o baixo crescimento da renda per capita deverá inviabilizar o processo de mobilidade social ascendente que prevaleceu no passado. E o pior, o crescimento da desigualdade faz com que a parcela do 1% mais rico do país aumente sua parcela de riqueza, enquanto diminui a parcela dos 99% da população. Assim, os EUA podem ser caracterizados como uma potência mundial em declínio e com desequilíbrios sociais crescentes.

A dívida pública líquida dos EUA era irrisória nos primeiros 15 anos do século 20. A dívida subiu em função dos gastos da 1ª Guerra Mundial, chegou em torno de 40% do PIB na década de 1930 durante a Grande Depressão e disparou durante a 2ª Guerra Mundial, ultrapassando 100% do PIB. Com a prevalência da hegemonia americana no mundo e o alto crescimento a dívida caiu para níveis muito baixos (menos de 30% do PIB) até o final dos anos 1970.

No governo Ronald Reagan (e depois George Bush pai) houve aumento dos gastos militares e redução dos impostos dos ricos, fazendo a dívida aumentar rapidamente. Mas com o fim da Guerra Fria e o fim da URSS, os gastos militares diminuíram durante o governo Bill Clinton e a percentagem da dívida como proporção do PIB também diminuiu. Contudo, no governo George Bush filho o percentual da dívida aumentou rapidamente e disparou no governo Barack Obama, devido aos gastos de guerra e às medidas adotadas para estimular a economia. Em 2020, a dívida deu novo salto devido à pandemia da Covid-19 e chegou próximo dos 100%. As projeções do Congressional Budget Office (CBO) indicam que a dívida deve ultrapassar os 200% do PIB em 2050.

A derrota humilhante dos EUA no Afeganistão ilustra a falta de foco e os erros das políticas americanas, tanto para a economia interna, quanto para a economia e a governança global. Ao invés de investir na produtividade e na competitividade da economia americana, os sucessivos governos têm jogado dinheiro fora para manter forças militares ao redor do mundo que não se cansam de ser derrotadas. Quase todas as intervenções militares modernas dos Estados Unidos no mundo em desenvolvimento têm fracassado. Como disse Jeffrey D. Sachs: "Não é nenhuma surpresa que depois de trilhões de dólares gastos em guerras no Iraque, Síria, Líbia e além, os EUA não têm nada a mostrar por seus esforços, exceto sangue na areia".

A dimensão do fracasso dos Estados Unidos no Afeganistão é impressionante. Não é um fracasso dos líderes democratas ou republicanos, mas um fracasso permanente da cultura política americana e dos EUA como nação hegemônica. A guerra afegã começou em 2001, apenas um mês após os ataques terroristas de 11 de setembro. O presidente George W. Bush ordenou uma invasão liderada pelos EUA para derrubar os jihadistas islâmicos que anteriormente os EUA haviam apoiado na guerra contra a URSS. Agora, os mesmos talibãs que tiraram do poder em 2001 estão novamente no comando do país.

Ainda de acordo com Sachs, baseado em um relatório do órgão de Inspeção Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão, os EUA investiram cerca de US$ 946 bilhões entre 2001 e 2021. No entanto, quase US$ 1 trilhão foi incapaz de construir algo duradouro e que consolidasse a presença americana. Desses recursos desperdiçados, US$ 816 bilhões, ou 86%, foram para despesas militares com as tropas americanas. E o povo afegão viu apenas um pouco dos US$ 130 bilhões restantes, com US$ 83 bilhões indo para as forças de segurança afegãs. Outros US$ 10 bilhões ou mais foram gastos em operações de combate às drogas, enquanto US$ 15 bilhões foram para agências dos EUA que operam no Afeganistão. Isso deixou apenas US$ 21 bilhões em financiamento de "apoio econômico ".

No entanto, mesmo muitos desses gastos apresentaram muito pouco ou nenhum desenvolvimento no país, porque os programas na verdade apoiam o contraterrorismo; o fortalecimento das economias nacionais; e o auxílio no desenvolvimento de sistemas jurídicos eficazes, acessíveis e independentes.

A derrota soviética no Afeganistão em 1988 contribuiu para o fim da URSS e para a queda do muro de Berlim. Depois da derrota americana no Vietnã e da subida de Khomeini no Irã na década de 1970, os EUA deram a volta por cima e se tornaram um poder global unilateral. Mas no século 21, os EUA voltaram a fracassar em diversos conflitos globais, estão passando por uma polarização interna sem precedentes e estão tendo de enfrentar a ascensão da China como uma potência global emergente.

O fato é que os Estados Unidos perderam grande área de influência na Ásia e a derrota no Afeganistão é apenas mais uma peça que caiu entre tantas outras do dominó geoestratégico. China, Rússia e Irã saem fortalecidos e mais próximos após a retirada humilhante dos EUA.

Tudo indica que os Estados Unidos estão, de modo muito semelhante, repetindo os passos do declínio do Império Britânico. E a luta do Afeganistão contra invasores é um ponto em comum na derrocada destes dois impérios anglo-saxônicos e ocidentais.


EcoDebate

José Eustáquio Diniz Alves tem graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestrado em Economia, doutorado em Demografia pelo Cedeplar-UFMG e pós-doutorado pelo Nepo/Unicamp.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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