Religião

21/09/2021 | domtotal.com

Opção pelos pobres como caráter ético da fé

O cuidado para com os pobres, como uma opção preferencial, constitui num imperativo ético para a fé cristã

Afirmar-se cristão é colocar-se do lado dos marginalizados na luta contra todo sistema político e econômico injusto
Afirmar-se cristão é colocar-se do lado dos marginalizados na luta contra todo sistema político e econômico injusto (Luis Vaz / Unsplash)

César Thiago do Carmo Alves*

A opção preferencial pelos pobres e, portanto, o cuidado para com eles, constitui num imperativo ético da fé, desde a perspectiva de uma ética da solidariedade/alteridade. A pobreza e a marginalização de irmãos e irmãs consiste numa verdadeira provocação para se pensar a justiça e os deveres do cristão face à pobreza. A opção preferencial pelos pobres constitui num dos elementos centrais da vida cristã. É a gratuidade do amor de Deus que está na raiz dessa opção, consistindo o fundamento último dessa preferência.

O centro da pregação de Jesus é o Reino de Deus. Em nenhum momento o mestre de Nazaré define o Reino como um filósofo grego. Muito pelo contrário, como bom judeu, em muitas das vezes que fala a respeito desse reino o faz contando uma parábola. Assim vemos, por exemplo, as parábolas que atestam o começo oculto do Reino de Deus, como a parábola da semente que germina por si só (cf.Mc 4,26-29) e o do grão de mostarda e do fermento (cf. Lc 13,18-21). 

No entanto, fica claro na pregação de Jesus que o Reino de Deus traz também uma valorização de grupos estigmatizados dentro de Israel. Grupos com deficiência social, física ou moral ganham uma proximidade especial. 

1) Grupos com deficiência social: os pobres, famintos, os que choram, os perseguidos e as crianças são bem-aventuradas, pois o reino dos céus lhes pertence (Mt 5,3ss/Lc 6,20ss/Mc 10,14). Os pobres, correspondendo a tradição bíblica, são pobres tanto no sentido real como figurado religioso; 2) Grupos com deficiência física: os eunucos, não podiam participar dos cultos em Israel (cf.Mt 19,10-12), e os que haviam se mutilado para não tornar-se uma ofensa (Mc 9,43-47) são trazidos para perto do Reino de Deus; 3) Grupos com deficiências morais: A parábola dos dois filhos diz juntamente com sua aplicação em Mt 21,28-32 que os coletores de impostos e as prostitutas têm mais chances de entrar no reino de Deus que os piedosos que dizem sim à vontade de Deus mas não a realizam.

Sendo assim, fica claro que a opção pelo pobre é, em última instância, opção pelo Deus do Reino anunciado por Jesus. A razão definitiva do compromisso com os pobres e oprimidos, não está, consequentemente, na análise social que empregamos, muito menos na experiência que possamos ter da pobreza ou em nossa compaixão humana. Não se discute que, indubitavelmente, tudo isso pode ser motivo válido possuindo um papel significativo em nossas vidas e solidariedades. Contudo, como cristãos, esse compromisso ético se baseia fundamentalmente na fé do Deus de Jesus Cristo. É, portanto, uma opção teocêntrica e profética. 

O pobre deve ser preferido do ponto de vista ético não pelo fato de que ele seja melhor que os outros desde a perspectiva moral ou religiosa, mas sim pelo fato de que se pode constatar que toda a Escritura está marcada pelo amor de predileção de Deus pelos fracos e maltratados da história humana. O texto das bem-aventuranças evangélicas revela isso de forma clara (cf. Mt 5,1-12/Lc 6,20-23). Elas dizem que a preferência pelos pobres, famintos e sofredores tem seu fundamento na bondade gratuita do Senhor.

Emmanuel Levinas (1906-1995), um filósofo de profunda tradição bíblica e talmúdica, desenvolveu um pensamento, mais concretamente uma ética da alteridade. Na obra de Deus que vem à ideia afirma que a Bíblia revela a prioridade do outro em relação ao eu. E continuando sua reflexão, diz que no outro vê sempre a viúva e o órfão. Nesse contexto o outro sempre precede o eu. A viúva, o órfão e o estrangeiro constituem a trilogia que na Bíblia designa o pobre. A relação ética com outro, o pobre de modo especial, adquire para a pessoa cristã maior profundidade quando se leva em conta a fé na Encarnação e se está atento às consequências que essa fé implica.

Enfim, maltratar o pobre é ofender a Deus. Por isso, o cuidado para com os pobres, como uma opção preferencial, constitui num imperativo ético para a fé cristã. Afirmar-se cristão é colocar-se do lado dos marginalizados na luta contra todo sistema político e econômico injusto. Nos dias de hoje, o papa Francisco tem sido, indubitavelmente, uma voz e testemunha importante no cenário eclesial de uma Igreja que se preocupa profeticamente e reconhece que os pobres são, como afirmava São Lourenço, estrelas e tesouros da Igreja.

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*César Thiago do Carmo Alves é doutor e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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