Religião

21/09/2021 | domtotal.com

Nos moldes de Jesus ou do homem? Qual Igreja queremos (e precisamos)?

Os ataques de grupos que se dizem católicos contra o papa Francisco são, de longe, uma afronta aos valores cristãos e se opõem aos ensinamentos do próprio Cristo Jesus

Sejamos dignos de seguir a obra do pobre carpinteiro galileu que encontrou no silêncio e na solidão o tempo de aproximação e de união com Deus
Sejamos dignos de seguir a obra do pobre carpinteiro galileu que encontrou no silêncio e na solidão o tempo de aproximação e de união com Deus (Nick Castelli / Unsplash)

José Miguel Martínez Castelló*
Religion Digital

Vivemos dias sombrios no seio da Igreja. A notícia que chega até nós é desmoralizante porque vem dos próprios pastores com uma mistura de situações bizarras dignas de um roteiro de Almodóvar. E digo isso com raiva e tristeza.

Por um lado, temos os ataques furiosos de grupos eclesiais, meios de comunicação e políticos que esperam que o papa Francisco diga qualquer coisa para virar alvo de críticas e articular sobre sua figura mil e uma barbáries. Algumas reações à entrevista de Carlos Herrera com Francisco são um bom exemplo.

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É ridícula a forma como se critica o amor e o apreço por um país como o nosso, a sua terra, a língua materna em que se expressa e vive, além de ser questionamentos sem fundamentos. Esses analfabetos não percebem que o papa é o vigário de Cristo na terra, e é o vigário do filho de Deus que nasceu em Belém -a menor das cidades de Israel, que não contava para nada nem para ninguém, onde a história passaria sem deixar vestígios. "Mas tu, Belém-Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que será o governante sobre Israel. Suas origens estão no passado distante, em tempos antigos" (Miquéias 5,2). Só daqui podemos compreender a escolha do Santo Padre por cidades e países humildes e pequenos.

Se queremos entendê-lo, devemos refletir a partir de uma hermenêutica cristológica. Pode ser óbvio, mas tal obviedade é ignorada, consciente ou inconscientemente, por pessoas que querem dar um sermão sobre as palavras de um Papa próximo, humilde e pobre como poucos. Alguns gostariam que atuasse como um príncipe político. E Francisco não fará isso porque tem que enfrentar e ler a história como pastor, precisamente como Jesus se define ao transmitir e aplicar a sua mensagem de salvação.

E então, de repente, salta na nossa cara o caso da Novell, sem aviso prévio, onde proclamações irresponsáveis em favor da independência são misturadas - muitos de seus paroquianos não são a favor - "enquanto se apegam a posições rígidas e intransigentes, desatualizadas e não científicas da moralidade sexual", como Baltasar Bueno apontou recentemente em um artigo em Religión Digital.

E tudo isso, que não é pouco, termina relacionando o papa com uma escritora erótico-satânica. Alguém dá mais? Esperamos que esta seja uma exceção e, se não for assim, que o sistema ou procedimento para eleger bispos e diáconos de acordo e dignos com Jesus Cristo seja público e reformado, e que seja fortalecido em suas fontes. Se não for feito, e já está acontecendo, a Igreja corre o risco de sofrer uma desconexão como a que ocorre entre as gerações jovens e uma parte muito importante da sociedade civil com a política.

Mesmo quando a política consegue transformar as coisas e fazer seu trabalho, as pessoas não reconhecem mais seus méritos, pois toda ação política é sempre suspeita, por ser pautada por interesses ilegítimos. Hoje a Igreja tem na mesa desafios que deve enfrentar e dependendo da forma e do modo como se apresenta, continuará sendo uma realidade de seguimento para uma parte da população e um espaço para dar o melhor como pessoas. Vale a pena seguir o caminho e a causa de Jesus de Nazaré, mas para isso temos que nos lembrar do que é essencial: a Igreja, e o que queremos que ela possibilite e projete em nossas vidas e na sociedade.

A certa altura da entrevista com Herrera, Francisco lembra que seu texto programático é Evangelii Gaudium. Na encíclica, o papa resume o que os cardeais e bispos do Conclave delinearam como o caminho a seguir e tudo aquilo que a Igreja deveria assumir nos próximos anos.

Da mesma forma, vemos como o povo de Deus deve se comportar, do princípio ao fim, isto é, aplicando o Evangelho, nem mais, nem menos. As primeiras comunidades cristãs tornaram Jesus visível ao apontar para os mais pobres, aqueles que não eram reconhecidos como cidadão. A cruz implica um reconhecimento claro por aqueles que não foram reconhecidos na história, por aquelas pessoas que foram sistematicamente postas de lado.

No imaginário social greco-romano, a dignidade se destacava por sua ausência. Um Império como o de Roma, mostra-nos dezenas de documentos históricos, nos quais vemos como se praticava o infanticídio sem nenhuma vergonha, principalmente se fossem meninas, já que o direito romano foi concebido em termos de homens livres e romanos. Mas isso foi apontado como uma prática de morte e assassinato, daí a longa tradição da Igreja na defesa da vida.

Vamos pensar em viúvas, escravos, estrangeiros, mulheres, leprosos e prisioneiros, e como foram escolhidos e dominados por um julgamento arbitrário sobre suas vidas. A todos eles o Cristianismo deu defesa e voz.

Paulo é claro: "não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3,28). O cristianismo supõe um choque e um impulso claro para inocular a sociedade com a linguagem da caridade, da esperança e da misericórdia diante de uma cultura de morte e de violência em uma parcela muito elevada da população.

Como assinala García de Cortázar no final de seu livro Católicos em tempos de confusão

"nossa ideia da dignidade do homem exige que denunciemos o escândalo da pobreza. Cabe a nós lembrar que as vítimas da violência, emigradas de seus lugares de nascimento, abjetamente reduzidas a corpos sem espírito, são filhas de Deus e nossas irmãs. Devemos levantar a nossa voz para expressar o que é o nosso Cristianismo, não é qualquer forma de solidariedade ou qualquer impulso compassivo, que nos compromete na defesa dos seres humilhados".

Precisamos lembrar: qual é a nossa missão no mundo? Mas os príncipes da Igreja estão cientes de sua missão? Os nossos representantes querem trabalhar por uma Igreja em saída, com rostos concretos como o de Jesus e das primeiras comunidades cristãs? Só o compromisso social de um radicalismo evangélico tornará a Igreja importante na vida das pessoas, a partir de uma radical coerência nos ensinamentos derivados do Evangelho.

Entendo que neste mundo hiper complexo possam surgir dúvidas sobre Jesus, sobre sua visibilidade, onde está, o que diz nestes tempos, visto que pode parecer inédito que, como o jovem Ratzinger magistralmente apontou em Introdução ao Cristianismo, "a inteligência que fez todos os seres, se fez carne, entrou na história e é um indivíduo, que não só abrange e sustenta toda a história, mas que faz parte dela". Contudo, a Igreja só pode ser a Igreja de Jesus Cristo e deve tornar visíveis aqueles que ficaram no esquecimento da história. E é claro que sim. Milhares de pessoas se envolvem nisso todos os dias.

Não esqueçamos aquilo que pulsa em nossos corações, aquilo que está vivo e encontra novas possibilidades nos bairros e nas missões mais pobres e remotas da terra. Essa é a Igreja que amamos e não a igreja das baboseiras típicas da imprensa rosa: amamos a Igreja do Reino de Deus na terra. Deixe que as pessoas vejam e tomem nota. Não somos a favor de uma nova forma de imprensa rosa sobre a Igreja.

Em cada esquina de nossas vidas, em todos os quintais de nossas casas, surge uma Calcutá que devemos atender. Isso requer uma vida simples, longe dos holofotes e do protagonismo midiático. Somos uma comunidade e o que acontece nela nos afeta. Sejamos dignos de seguir a obra do pobre carpinteiro galileu que encontrou no silêncio e na solidão o tempo de aproximação e de união com Deus. Vamos aprender a lição.

Publicado originalmente em Religion Digital.


Traduzido por Ramón Lara

*José Miguel Martínez Castelló é doutor em Filosofia. Voluntário no Centro Penitenciário Picassent (Valência). Professor de Filosofia no Colégio Patronato de la Juventud Obrera. Autor do livro 'Esperanza entre rejas: retos del voluntario penitenciario'. PPC, Madrid, 2021.



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