Cultura

21/09/2021 | domtotal.com

Mais um ano, mais um Emmy

A diversidade das indicações não se confirmou na premiação

Vencedores da série de comédia de destaque 'Ted Lasso' durante premiação do Emmy 2021
Vencedores da série de comédia de destaque 'Ted Lasso' durante premiação do Emmy 2021 (Rich Fury / Getty Images North America via AFP)

Alexis Parrot*

Se tem algo que os Estados Unidos fazem bem é se autocelebrar. E fazem isso de forma tão competente ao ponto de aceitarmos o discurso que defende o seu cinema, TV, música e teatro como o que há de melhor. Automaticamente, todos os outros cinemas, televisões, músicas e teatros feitos mundo afora são relegados a segundo plano. Neste cenário, tudo que não é comercial é "alternativo" ou "cult"; e tudo que não adere à língua inglesa é exótico ou inferior.

Por isso, o Oscar é "a grande festa do cinema" e o Tony "a celebração da excelência no teatro". Com slogans como estes, finamente lapidados, alça-se a indústria norte-americana do entretenimento à esfera do grandioso. Seguindo este rastro de autoestima inabalável, as premiações das Academias que agrupam os trabalhadores de cada área artística tornam-se espetáculos transmitidos ao vivo - para que a mensagem atinja os cinco continentes.

Se você assistiu à cerimônia de entrega do Emmy no último domingo, viu na verdade uma enorme ação de marketing; uma publicidade de mais de três horas de duração em que o intervalo comercial era o próprio programa. Por mais que o assunto fosse televisão, não se engane: o objetivo ali era promover o veículo e seus produtos. Toda pompa e circunstância das celebridades presentes não era suficiente para mascarar o caráter comercial da ocasião, um feirão travestido de gala. O capitalismo e suas grandes estrelas não trabalham com arte, apenas com vendas.

Mesmo a tentativa de abraçar o discurso da diversidade (e, de lambuja, melhorar a imagem da Academia) ficou a meio caminho do esperado. Houve esforço, é verdade: na busca por uma maior inclusão, chegaram até a forçar um pouco a barra e as tradicionais cinco indicações para cada categoria foram infladas para sete e até oito alternativas em alguns casos - vale destacar a inédita presença de uma atriz trans entre as concorrentes (MJ Rodriguez, de Pose).

Porém, a maior diversidade nas indicações (reforçada pela escolha de Cedric the Entertainer como host e por vários dos apresentadores que se revezaram durante a noite) não se confirmou na premiação. A lista de laureados na competição do horário nobre seguiu o script de anos anteriores e permaneceu massivamente composta por homens e mulheres brancos e cisgêneros. As exceções: Ru Paul como apresentador de reality, Debbie Allen com um prêmio honorário (Governor's Award) e Michaela Colen pelo roteiro da série I may destroy you. E só.

Não que deva haver alguma obrigatoriedade de se premiar artistas e profissionais não brancos, ou não cis, mas se estes seguem conquistando tão poucas estatuetas, o dever de casa da Academia de Televisão ainda não foi realizado a contento. Isso só pode significar que o Emmy está mesmo defasado e não é capaz de absorver a enorme gama de identidades, temas e propostas que estão criando a televisão de nosso tempo.

Com tamanha quantidade de títulos (no ar e no streaming), e sem entrar na questão do merecimento, é no mínimo incongruente que apenas uma série arremate tantos prêmios (como Ted Lasso) ou todos os prêmios (como The Crown este ano e Shitt's Creek no ano passado). Ou ainda, por melhor que tenha sido a temporada - o que definitivamente não foi o caso este ano - é mesmo justo que nas últimas cinco edições do Emmy o vencedor na categoria programa de esquetes tenha sido o Saturday Night Live? Será mesmo que nada melhor surgiu
neste meio tempo? Parece imperativo que algum critério de alternância seja criado, para que não apenas os medalhões estabelecidos tenham a chance de subir ao pódio.

Levando em conta o número de prêmios, o grande vencedor da noite não foi nenhum dos rivais habituais; nem a Netflix e nem a HBO, mas o próprio streaming. Tendência crescente nos últimos anos, as plataformas saíram coroadas em definitivo como a nova força da televisão. É um movimento sem volta.

Entrando agora na questão do mérito, eu já havia cantado a pedra da vitória de Kate Winslet (Mare of Easttown) e Ewan McGregor (Halston). O trabalho dos dois é mesmo o que de mais forte se viu este ano. Abaixo, as séries resenhadas:

Mare of Easttown: subterrâneos da violência

Halston: Cidadão Kane da moda

Por outro lado, não posso comemorar o entusiasmo em torno de Ted Lasso e seus quatro prêmios (melhor sitcom, ator e coadjuvantes). Em agosto escrevi sobre o irritante bom-mocismo e sentimentalidade da série, nada além de camuflagem para uma pouco salutar incapacidade de rir de si mesmo:

Ted Lasso: pouco futebol, muita autoajuda

Rei morto, rei posto: para dar razão ao ditado, já arrisco dois vencedores para o Emmy do ano que vem. Para melhor atriz de minissérie, Jessica Chastain, magnífica no remake do clássico bergmaniano Cenas de um casamento. Para o prêmio masculino na mesma categoria, acho impossível que a estatueta não acabe nas mãos de Tom Hanks.

A série Flinch, protagonizada por ele, narra os percalços de um sobrevivente de uma hecatombe climática em um futuro distópico, cujos companheiros de aventura são um cachorro e um robô. Apesar de só estrear em novembro, não é preciso ser oráculo para adivinhar que a Academia já está salivando por antecipação, só de pensar na chance de incluí-lo em sua galeria de premiados (ou de incluir-se no currículo do ator, um tipo de visibilidade imprecificável).

Por fim, apesar da cerimônia ter contado com chistes inacreditáveis de tão ruins (certamente a pior safra em anos), algo de alento foi servido. Pudemos dar uma espiadela no futuro que nos aguarda, após debelada a pandemia. Ainda que tenha parecido precoce tamanho relaxamento das medidas sanitárias, foi bom ver tanta gente junta sem máscaras e se aglomerando, trocando beijos e abraços sem medo.

Enquanto Bolsonaro comia uma fatia de pizza na calçada em Nova York, insistindo na recusa de se vacinar e nos matando de vergonha, no Emmy quem deu as caras foi a esperança.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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