Brasil Política

21/09/2021 | domtotal.com

Na ONU, Bolsonaro defende tratamento precoce contra Covid e política ambiental

'Brasil mudou, e muito, depois que assumimos governo', diz presidente

Presidente brasileiro evitou ataques a outros países e buscou melhorar a imagem externa do país
Presidente brasileiro evitou ataques a outros países e buscou melhorar a imagem externa do país (AFP)

O presidente da República, Jair Bolsonaro, iniciou nesta terça-feira (21), seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorre em Nova York, nos Estados Unidos, prometendo que iria mostrar um Brasil diferente do publicado em jornais e transmitido pela TV. "O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos governo", afirmou, acrescentando que desde então, não há nenhum caso de corrupção no país. Tradicionalmente, o Brasil é o responsável pelo pronunciamento de abertura do evento.

No discurso, o presidente abordou o combate à pandemia, o meio ambiente e buscou projetar a imagem de um país preparado para investimentos estrangeiros, mencionando os projetos de saneamento, de construção de ferrovias e o leilão do 5G, que deverá ocorrer este ano. 

O presidente disse que a liberdade do ser humano só se completa com a liberdade de culto e a de expressão. Ele afirmou que a família tradicional é o fundamento da civilização, que é um presidente temente a Deus e que respeita a Constituição.

Bolsonaro disse que, quando assumiu o poder, o Brasil estava "à beira do socialismo". Ele já havia feito essa afirmação durante sua primeira participação nesse evento há dois anos. Comentou também que as estatais davam prejuízo e hoje, sob sua administração, passaram a ser companhias lucrativas. "Apresento agora um novo Brasil com sua credibilidade já recuperada", disse. No entanto, o desgaste da imagem e credibilidade do país no mercado externo se deve, sobretudo, à instabilidade política criada pelo presidente, em constante atrito com o Legislativo, o Judiciário e os governadores de estados.

Sobre o meio ambiente, declarou que o Brasil tem uma das mais avançadas legislações ambientais e um ótimo Código Florestal. No entanto, durante seu governo, a legislação ambiental e os mecanismos legais existentes foram alvo de constantes ataques e projetos de flexibilização, muito criticados por ambientalistas.

O chefe do Executivo ressaltou que 14% do território nacional (mais de 110 milhões de hectares), comparando que o total equivale à área da Alemanha e França juntas, é destinada às reservas indígenas. "Nessas regiões, 600 mil índios vivem em liberdade e cada vez mais desejam utilizar suas terras para a agricultura e outras atividades", afirmou.

Com "lição de casa" ainda por fazer na área ambiental, como atestam especialistas, Bolsonaro cobrou o engajamento dos países ricos no tema. "Por ocasião da COP-26, buscaremos consenso sobre as regras do mercado de crédito de carbono global. Esperamos que os países industrializados cumpram efetivamente seus compromissos com o financiamento de clima em volumes relevantes", disse ele, no seu pronunciamento.

A fala vem enquanto o próprio Brasil é constantemente pressionado pela comunidade internacional a conter o desmatamento da Amazônia e a adotar uma política realmente efetiva de preservação do meio ambiente. As aplicações de multas ambientais na Amazônia Legal despencaram 93% no período do atual governo, o que evidencia o desmonte das estruturas de fiscalização.

Ainda assim, Bolsonaro tentou defender a imagem de que o país preserva o meio ambiente. Além de falar em 84% de preservação da floresta amazônica, disse que, atualmente, 83% da energia gerada no Brasil é de fontes renováveis. "O Brasil é já um exemplo", afirmou. "O futuro do emprego verde está no Brasil: energia renovável, agricultura sustentável, indústria de baixa emissão, saneamento básico, tratamento de resíduos e turismo", acrescentou o presidente.

A antecipação na meta de neutralidade do carbono de 2060 para 2050, anunciada em abril, também foi lembrada durante o discurso. "Os recursos humanos e financeiros, destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais, foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal", completou o presidente.

Críticas ao isolamento social

Apesar de apresentar uma fala mais moderada em relação aos discursos anteriores, Bolsonaro defendeu o tratamento precoce, contrariando as indicações sanitárias mundiais e a ciência - em referência a medicamentos comprovadamente ineficazes contra Covid, como hidroxicloroquina e ivermectina. Disse que ele próprio havia sido submetido ao tratamento e defendeu a autonomia dos médicos para receitar este tipo de tratamento, comprovadamente sem eficácia. "Não entendemos porque muitos países se colocaram contra o tratamento inicial (precoce). A história e a ciência saberão responsabilizar a todos", afirmou Bolsonaro.

Nos cerca de 13 minutos de pronunciamento, atacou governadores e prefeitos por políticas de isolamento social na pandemia de Covid-19. Ele se gabou do fato de quase 90% da população adulta do Brasil estar vacinada, mas disse ser contra um "passaporte da vacinação". "Apoiamos a vacinação. Contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada a vacina", disse. 

O presidente também condenou o lockdown, argumentando sobre os prejuízos à economia, retórica constante que mantém para agradar seus apoiadores. "A pandemia pegou a todos de surpresa em 2020. Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram legado de inflação no mundo todo", afirmou Bolsonaro.

Participação internacional

O presidente lembrou que o Brasil sempre participou de missões de paz e também tem como tradição acolher refugiados, citando Suez, Congo, Haiti e Líbano. "Nosso país sempre acolheu refugiados. Em nossa fronteira com a vizinha Venezuela, a Operação Acolhida, do Governo Federal, já recebeu 400 mil venezuelanos deslocados devido à grave crise político-econômica gerada pela ditadura bolivariana."

Bolsonaro mencionou que o país concederá visto humanitário para cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos. "O futuro do Afeganistão também nos causa profunda apreensão", disse. No entanto, ao mencionar cristãos em sua fala, desconsiderou que a maioria da população afegã e muçulmana. E reiterou o repúdio ao terrorismo "em todas suas formas" ao lembrar dos 20 anos dos atentados contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001.

Desde sua eleição, Bolsonaro é visto pela comunidade internacional como um líder com aspirações antidemocráticas e que coloca em risco a Floresta Amazônica, os direitos de minorias, instituições democráticas e, desde o início da pandemia, a vida dos brasileiros. Em 2019, na sua primeira aparição na ONU, Bolsonaro fez uma fala recheada de referências religiosas, disse que o Brasil esteve "à beira do socialismo", atacou adversários políticos e países como Cuba e Venezuela e sugeriu que o presidente da França, Emmanuel Macron, tinha "espírito colonialista". Na época, o presidente era aconselhado pelo então chanceler Ernesto Araújo, que incentivava o discurso de desafio à ordem global e ao que, naquela ocasião, o ministro chamava de "globalismo".

O discurso do brasileiro foi seguido pelo do presidente americano, Joe Biden. Para esta terça-feira, estão previstas mais de 100 intervenções dos chefes de Estado e de governo. O evento começou no último dia 14 e, desde então, estão acontecendo reuniões, conferências e encontros paralelos. O tema desde ano é "Construindo resiliência por meio da esperança - para se recuperar da Covid-19, reconstruir de forma sustentável, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas".

Em 2020, devido à pandemia de Covid-19, o evento foi virtual. Neste ano, o modelo adotado é o híbrido, com declarações presenciais e por vídeo.

Confira a íntegra do discurso de Bolsonaro na ONU.


Dom Total/Agência Estado



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