Brasil

23/09/2021 | domtotal.com

Entre urutaus, saguis e teiús

Se eu tivesse resposta para tanta coisa eu não seguiria lendo e escrevendo

A vocalização dos urutaus é fonte de lendas e temores por parte da população rural
A vocalização dos urutaus é fonte de lendas e temores por parte da população rural (Allison Dias/Wikimedia)

Ricardo Soares*

Passo, entre a leitura de um livro e outro, a tentar refazer minha visão do mundo e das coisas, buscando entre as páginas a melhor maneira de contar a minha própria história. Ouço muito, mais entre as canções antigas, as notas e acordes que fizeram a minha trajetória e de todos aqueles que partilham os mesmos dilemas geracionais. A vida é engenho e arte, pois, não é?

Me vejo adolescente em um ponto de ônibus da via Anchieta num começo de tarde fria me protegendo do vento, esperando voltar para casa. Vejo meu pai acendendo mais um dos seus muitos cigarros, a tomar café requentado e a esperar dias melhores que, infelizmente, não vieram. Vejo minha mãe com crise de bronquite; minha irmã mais nova gritando à noite, imersa em pesadelos dos quais nunca se lembrou. E me lembro também da neblina que descia sobre o nosso bairro, talvez vinda de Paranapiacaba, fazendo com que a gente sonhasse com vultos além dos vultos.

O falecido e espetacular escritor chileno Roberto Bolaño disse certa vez ao escritor espanhol Javier Cercas que "para escrever romances não é preciso imaginação. Só memória. Os romances são combinações de lembranças" e eu cada vez mais passo a acreditar nisso nesses tempos onde as memórias – mesmo as inventadas – são um tremendo anteparo e alento para tempos tão bicudos.

Turista, sempre aprendiz de minha própria jornada, estendo os olhos para um passado nem tão distante e me certifico do clichê de que era feliz e sabia. Agora deixo a vida me levar e, entre a visita de urutaus, esquilos, saguis, teiús e com a cumplicidade dos meus cães, penso em Dom Quixote, nos tempos em que estive conversando com os guerrilheiros das Farc e agricultores do interior do Ceará, nos dias idos e vividos que ouvi discursos vazios de políticos inócuos, da sensação única de ver meu filho nascer e meus pais serem sepultados.

Crônicas são sim exercícios de reflexão diante das inconstâncias da vida. Lembranças, açúcares e afetos que repartimos com quem tem paciência de nos ler. Confesso que por esses dias ando bem farto de tantas análises factuais, jornalistas anódinos, pressa de tanta gente para chegar a lugar nenhum, obsessão com a nossa insegurança quando ninguém está seguro.

Outro dia aqui foi noite de lua cheia. E o urutau voltou com seu canto que pode ser lúgubre, mas é intrigante. Quem ele chama, a quem saúda? Depois, onde ele se esconde? Se eu tivesse resposta para tanta coisa eu não seguiria lendo e escrevendo. No mais é só isso mesmo. A gente vai sobrevivendo.

*Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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